sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Retrocognições

Lembranças


Um homem anda rápido. Uma moça o segue. Usam roupas dos anos vinte. O homem olha para a moça, atrás dele, e só pensa em protegê-la. Sente ansiedade. Não sei do que fogem mas sei que fogem. Eu sinto o que ele sente. Eu penso que eu sou ele. Ela está de saia, usa um chapéu pequeno. Ele está de terno. Eu sinto a ansiedade dele, é tudo muito intenso, muito forte. O corpo dele recebe um impacto pelas costas e cai. Eu sinto o corpo dele caindo. Não há dor física. Mas há um sentimento de dor. Ele pensa na moça, pensa que não vai ter como protegê-la mais. Tudo vai ficando escuro, ele vai deixando de ver em volta e eu também. Eu sinto a angústia dele. Eu acordei com a angústia dele em meu peito.

Um homem anda devagar dentro de uma casa, com uma criança no colo. As paredes são grossas e rústicas. As roupas dele são de judeus da época de Cristo. Mas ele não usa a cabeça coberta. Vejo seus cabelos e a criança brinca querendo pegar os cachos do cabelo dele. Ele tem muito amor pela criança. Eu sinto o amor dele. Sinto que é seu filho. Ele passa por uma porta. Não há móveis, há muito espaço vazio no ambiente. Depois vejo apenas a criança no ar, como se flutuasse, saindo pela porta e sinto tristeza, a tristeza dele de ver apenas a criança. Eu sei que ele morreu e a criança ficou sem pai. Acordei.

Estou em uma casa de pedras. Mas não me vejo. É como se eu enxergasse de cima. Como se eu visse a cena de cima. Vejo meninos e meninas, loirinhos e bem clarinhos. Estão todos envolvidos em fazer coisas na casa simples, como mexer com panelas e vejo lá fora ovelhas, plantações, alguns correm em volta do campo. Eu sei que sou um deles mas não consigo saber se sou um dos meninos ou uma das meninas. Mas vejo um corredor lateral entre a casa de pedra e um pequeno muro de pedra. Estou nesse lugar. E ouço vozes, gritos, sinto medo. Pelos gritos sei que tem alguém estranho e está fazendo maldades com meus irmãos. Fico escondido atrás de uma pilha de madeiras e sinto tristeza. Sei que uma irmã foi morta. Acordei.

Eu vejo, de cima, eu menina, com uma saia longa preta de florzinhas vermelhas e folhinhas verdes, brinco no chão com uma menina de três anos. Tenho sete. Estou com mãos e joelhos no chão, como um cachorrinho, de quatro. Vejo o homem na porta. Eu, de cima o vejo, mas eu menina não o vejo. Amenina está envolvida em brincar. Eu, consciência da cena, observo tudo. Ele olha para meu corpo e vejo nele um olhar de maldade. Analiso com minha mente atual aquele olhar. Eu menina não o percebo. Acordei.

sábado, 24 de setembro de 2016

Outono em campo aberto

Fui ver o outono chegar em Porto, no Parque Serralves. Lugar lindo, enorme, com árvores imensas, e havia lá o festival do outono, com música, pintura, comida... uma alegria só.


 Fui com Ana Flávia e Ciça, que se divertiu muito nas oficinas.


Pintamos um Fora Temer e colocamos no varal, as pessoas fotografavam, foi divertido. Quando a noite foi chegando, esfriou muito e eu comecei a compreender o que significa outono aqui. ;)


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

É tudo novo de novo

Sabemos que mudar de casa dá trabalho, de cidade mais ainda, exige-nos um esforço grande em adaptação. De Estado então... mudei para Mato Grosso, depois Mato Grosso do Sul, fui parar no Rio de Janeiro, depois em Pernambuco com Bahia... sei bem que temos a Unidade BR mas no fundo temos cá nossas diferenças dentro do mesmo país.
Eu já viajei pela América do Sul e Central, tive experiências interessantes nos países de língua espanhola, mas nunca tinha saído de mala e cuia, para morar fora. Don´t is easy!
O primeiro grande impacto em terras portuguesas: a língua.
Pasmem! no início, eu não conseguia entender 70% do que falavam os portugueses. Aqui no norte do país, além de fonemas muito abertos, como falam rápido e suprimem letras, e para completar, uma única palavra de sentido diferente do nosso, nos confunde, nos torna lentos para assimilar e responder. Pior, somos, nós brasileiros, altamente metafóricos e eles não. Os portugueses são literais. Então se eu digo em uma frase: perdi o autocarro, dancei! ele te olha com um olhar reprovador e diz 'não dançaste, como dançaste, desculpa lá, mas estás parado'. E você fica em uma diálogo sem nexo. Aconteceu todo tempo comigo. Então controlar nossas gírias, nossas metáforas, é obrigatório.
Outra questão da linguagem: falamos uma língua tosca, com muitos erros grosseiros para os portugueses, que primam no uso da concordância verbal e no uso dos pronomes. Pois bem, falamos 'brasileiro' (segundo eles) e com isso é muito fácil encontrar quem nos trate mal após ouvir nosso 'sotaque' tupiniquim.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A velocidade dos dias

Estou sendo atropelada pelas horas, pelos dias, pelas semanas. Eles não respeitam meu tempo. Assaltam-me os minutos e segundos e me deixam com a sensação de que correm contra meu relógio.
Dias de pensar como vou me desfazer de tranqueiras. Fico acordada pensando em possibilidades. Doar ao bazar do Centro Espírita; fazer um bazar em casa; doar para pessoas que eu sei que ficariam felizes com alguns objetos. Estou com todas essas possibilidades e já colocando em prática algumas e ainda assim tem coisas para arrumar. Aliás, arrumar caixas é muito chato. E eu preciso acelerar este processo. Já tem 17 caixas arrumadas e penso que vai ter mais umas 17! Para onde vão? como vou guardá-las?
Eu me vejo mais leve, pois sei que quando eu voltar, vou poder adquirir coisas com mais consciência de necessidade real do que tenho hoje. Preciso ser menos consumista, isso tomei consciência.
Dias de limpeza de arquivos velhos. No computador, nas gavetas e na mente. Como acumulamos coisas. Vi que há coisas repetidas, que há textos que nunca vou ler, material perdido, com nomes que não tem nada a ver. E me voltei para minha mente, fazendo analogia com minhas lembranças, minhas memórias. Há muito equívoco lá também.
Tenho lido muito sobre as necessidades de adaptação a novas situações. E comecei a visualizar-me em situações novas: como agir, o que fazer? estou em exercícios de transformação fluídica do meu pensene nessa nova fase. A nova morada, a nova universidade, as novas aulas, os novos assuntos. Os temas de estudos. E também me dou a oportunidade de solucionar situações corriqueiras. Desmistificando-as. E se uma mala se perde? e se não consigo me comunicar bem em uma determinada situação? e se sofro algum tipo de discriminação? me vejo dando a volta por cima, tudo terminando bem. Eu me coloco mentalmente, já agilizando novos pensamentos, sentimentos e energias (pensenes), para tais ocorrências.
Uma colega que estimo bastante está com Leucemia e fico sabendo que está internada, iniciando químio, lutando pela vida. A reflexão desses dias tem sido a que não somos donos do nosso próprio destino. Será que volto? será que se voltar, volto para este mesmo apartamento? se não volto, como será a vida de quem fica? fui saber sobre testamento. Estou a pensar sobre decisões que os que ficam tomarão se eu não voltar. Dias a pensar na fragilidade.
Reconciliação. Vi uma palestra da  TV Complexis, da Málu Balona, que falava da necessidade de se reconciliar consigo próprio e com os outros para não sobrecarregar o soma. Como quero viajar saudável e já vinha organizando as questões de relatórios médicos e exames check up, rotina e de imagens, para carregar comigo os mais variados documentos que facilitem viver longe, me atentei para um fato ainda mais importante: ando com pendências rancorosas, por conta de maus tratos afetivos e pensei que preciso curar logo para não levar sobrepeso na alma.  Vi que carregar rancor na mala afetiva pode só me adoecer o soma (corpo), estando longe e sem ajuda de ninguém. Então, a palavra de ordem é perdão e reconciliação. Se vou conseguir isso em um dia, uma semana, um mês, não sei, mas daqui a dois meses, preciso estar mais leve do que estou hoje.
Dias de muito e intenso trabalho. E a ficha vai caindo, vai ter dia em que eu vou ficar sem nada para fazer, e vai ser bom. Porque tem dia em que estou em tanta correria que nem tempo eu tenho para pensar. #mudarotina

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Como andam seus segredos?

Segredos. Quais estão indo para o túmulo quando você se for? o que fez e nunca disse a ninguém? quem você amou que nunca saberá? Enfim... você já pensou se há algo que gostaria que fosse revelado à outrem com sua morte? 


No leito de morte de meu pai, já sentindo que o tempo dele se esvaía, aproveitei aquelas últimas horas para relembrarmos coisas de minha infância e adolescência e como eu não tinha segredos para ele, eu acabei contando um segredo de meu irmão. Em um primeiro momento, não sei porque agi daquela forma e fiquei com receio do meu irmão não gostar. Mas não, quando soube, meu irmão me agradeceu. Meu irmão não estava perto, só chegou na cidade após o falecimento. E vi nos olhos dele que foi um alívio eu ter contado. Não era um grande segredo mas era importante compartilhar com meu pai. E o fiz.


E fico sempre pensando, quem mais deveria saber sobre sentimentos e ações da minha vida, que não sabe?

Acho que refletir sobre isso me leva a escrever. Foi por este motivo que este blog foi criado. Foi uma forma que encontrei de falar de muita coisa para meu pequeno, como se ele já fosse adulto e pudesse me entender. 
Um dia, espero que ao ler o que aqui se encontra, ele possa dialogar com a minha forma de pensar, caso eu não esteja mais no plano físico. 
Penso que todo pai e mãe de filho pequeno deveria ter uma forma de deixar claro o que pensa da vida e de questões importantes, como ética, política, relacionamentos, etc. 
As vezes convivemos com pessoas que amamos mas não deixamos claro o que pensamos de assuntos realmente importantes para nós, com medo de ferir, de machucar, de ser de uma opinião contrária. 
Ou ainda com medo de exposição demasiada, de uma crítica, enfim. Como é inevitável, pense sempre naquilo que deixou de falar, de contar e se isso faria diferença na vida de alguém. Se a resposta for sim, encontre uma forma, nem que seja quando o inevitável acontecer, daquela pessoa saber.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Caminhos do Doutoramento

De volta à condição de estudante, estou feliz com o futuro que se apresenta. Desde que terminei o mestrado, em janeiro de 2005, jurei para mim mesma que só faria doutorado se tivesse a sorte de encontrar outro orientador como o da graduação, meu Mestre Doutor Jorge Ijuim ou como meu Doutor amigo Alexandre Schiavetti, do mestrado.
Explico: por mais complicado que seja escrever e pesquisar para produzir conhecimento, quando somos bem orientados, sabemos exatamente onde estamos indo e isso nos fortalece.
Mas também jurei fazer algo que me desse prazer e que fosse de retorno social, como acho que foi o livrinho da graduação: Fotojornalismo, Informação, Técnica e Arte, que duas universidades assumiram como livro da Bibliografia Básica, em 1998.
E também, de menor impacto, mas importante, a história ambiental e o registro estatístico das RPPN's no sul da Bahia, em meu mestrado.
Por isso minha insistência em cursar disciplinas da FACED, na UFBA, e do PPGEDUC da Uneb, como aluna especial, na esperança de conhecer um professor que topasse me orientar, ao acreditar que a área de Imagem, da qual sou apaixonada, pudesse somar para a área da Pedagogia.
Infelizmente isto não aconteceu, muito embora tenha encontrado professores maravilhosos nesta caminhada. E que muito acrescentaram em minha vivência como professora universitária.
No ano passado, pela felicidade de ser a primeira liberada por quatro anos para o doutorado em meu colegiado, tomei coragem e fui pesquisar fora da Bahia, os programas que mais trabalham com imagem. Achei na UEL, Londrina, mas mestrado, na PUC SP, na UFF, Niterói e em Santa Catarina. Fiquei analisando o trabalho que daria ir morar fora da Bahia por quatro anos e vi que não ia ser fácil. Mudança, aluguel, adaptação, etc. E sem nenhum tipo de contrapartida cultural.
Depois de saber de algumas amigas que tinham feito sanduíche ou doutorado integral em outros países, eu me animei. Pois se era para mudar e ter trabalho, que ele fosse justificado pela contrapartida de conhecer algum lugar distante, interessante e culturalmente rico.
Pois bem, comecei a pesquisar, ver as questões de validação de diploma, o nível das universidades, lembrando que eu já tinha pesquisado sobre  isso quando estive em Buenos Aires e em Montevidéu, por  gostar das cidades, mas não havia gostado dos programas doutorais.
É estranho como temos uma forte herança portuguesa, mas pouco conhecemos sobre Portugal. Apesar de ter como referência na minha área um autor português, o Professor Dr. Jorge Pedro Sousa, que escreve muito sobre Fotojornalismo, eu pouco sabia sobre a qualidade das universidades ou de vida nas pequenas cidades daquele país. Apenas sabia curiosidades sobre Lisboa e Coimbra, e de poucos detalhes da vida em solo português por parentes e amigos que sempre a visitam.
Depois de extensa pesquisa, fui ler os programas doutorais e me surpreendi. Gostei particularmente de  três, onde fiz inscrição.  Fui selecionada nos três programas, e fiz a escolha tendo em vista o ranking da universidade, as linhas do programa e a qualidade da cidade em que a universidade está sediada. Escolhi  a UMinho, Universidade do Minho, que tem professores reconhecidos no campo da Semiótica Social e a cidade de Braga, que está entre as melhores cidades a se morar na Europa.
Ainda não sei quem será meu orientador. Já identifiquei alguns docentes que trabalham com imagem e rogo ao universo que eles sejam meus professores e que sintam simpatia por minhas temáticas de pesquisa.
Tenho pesquisado sobre pose, empoderamento, gordofobia e gerascofobia, selfie, nudes, espontâneo, etc. Mas não descarto enveredar-me por outros caminhos de pesquisa. Também imagem, filosofia e educação me dão forte motivação, retomando Vilém Flusser.
Agora estou na fase de arrumar a mala  e ir em busca dessa realização, um doutorado em minha área de atuação, com um orientador que seja fraterno e generoso. Espero voltar aqui para contar o fim dessa saga.



terça-feira, 9 de agosto de 2016

Pelas Lentes do Recôncavo, Um Recôncavo de Possibilidades

Foram meses reunindo textos, selecionando fotos, trabalho de correções, organização de documentos e autorizações para a editora, e cá estão eles, os dois livros que celebram os dez anos da UFRB em Cachoeira.







Fiz parte da Comissão de Organizadores e formamos uma equipe afinada e muito cheia de vontade de fazer bem feito: Eu, Gaio, Wilson e Sílvio. E claro, a boa vontade de Prof. Sérgio Mattos, da EdUFRB, que mesmo na crise, garantiu a impressão.

As coletâneas reúnem mais de 30 autores, com seus artigos e ensaios e 30 fotógrafos, todos da comunidade UFRB, entre docentes, discentes, técnicos e egressos.



No dia do lançamento, que fizemos com muitas ações compartilhadas, foi uma festa! pura alegria nos discursos, nos encontros, no orgulho de ver que os livros ficaram bonitos, com uma qualidade inspiradora. Agora é torcer que venham mais dez, mais vinte anos de UFRB e com eles, mais livros e mais conhecimento. Ariel e Igor Sky cantando músicas lindas, DJ Anderson Bio animando, e todo mundo no clima de confraternização. Uma bela forma de finalizar o semestre.  



domingo, 31 de julho de 2016

Fotojornalismo para quê?

Na vida, às vezes levamos anos para entender uma mensagem simples: O que fazemos não é tão importante para outras pessoas. Não mesmo.
Eu sempre fui uma professora muito consciente do conteúdo que preciso ensinar, ler, estudar e cobrar dos alunos. E sempre achei que a minha disciplina era muito importante no curso, afinal vivemos um período muito imagético, e na internet e com os novos meios, essa importância só aumenta. Certo?
Pois é, mas não é para todos os alunos. As pessoas não são iguais, têm histórias diversas e suas vidas tem fluxo próprio.
Pois bem, tive um estudante que  teve certa dificuldade de lidar com a metodologia avaliativa da minha disciplina. Ela é anual e ele tentou um semestre, não conseguiu, faltava muito ou chegava atrasado,  as vezes perdia as explicações teóricas e já chegava na parte prática, ele não deu conta de ter um blog da disciplina, tinha dificuldade de entregar os trabalhos e acabou desistindo.
No ano seguinte, pois a disciplina é anual, lá estava ele de novo. Desta vez mais participativo. Mas o blog era uma dificuldade, ele não fez  e não postou os trabalhos, que eram muitos. A disciplina tem 40 horas teóricas e 45 horas práticas. No ano seguinte, outra vez. E foi a mesma história.
Todas as vezes que nos víamos, eu dizia: rapaz, cadê você?
Este ano ele voltou. Mostrou-me que havia comprado uma câmera e já fazia fotos de todos os eventos do lugarejo em que ele morava.
Explicou-me que era um povoado sem internet, com dificuldades para ter acesso e me explicou que trataria minha disciplina de forma diferente desta vez.
Eu já o olhei de forma diferente, pois não sabia que ele morava em local tão complicado de acesso.
Com a ajuda de colegas ele construiu o Blog. Fez seu seminário individual e foi bem, participou de exposição, fez ensaio, tudo bonitinho e estava indo bem, eu sabia que ele dessa vez, daria conta.

Faltando uma semana para terminar o semestre, lá fomos nós, participar de uma exposição em outra universidade, a UNILAB, Campus dos Malês, em São Francisco do Conde. E lá estava ele. Não só nos ajudando a montar nossa exposição, mas expondo também: móveis, feitos de pneus.

Lindos móveis.
Feitos com pneus velhos que ele conseguia nas borracharias da estrada de Santo Amaro da Purificação para Cachoeira.
Eu  vi o talento dele, tão maravilhoso, fisicamente, concreto, naquele trabalho artesanal tão bem feito. Minha ficha caiu: para quê esse moço precisa de fotojornalismo?
que importância tem minha disciplina na vida dele?

Eu senti algo novo: achei tão sem importância a minha disciplina, para o tanto de atraso que ela  causou na vida dele. Eram quatro tentativas.
Ele passou, claro, na disciplina, mas já está passado há trocentos anos na vida, no talento, na garra, na criatividade.
E eu, de cá, fiquei a rever a importância de algumas questões, nas decisões de um professor. Se eu soubesse mais da vida do Arnaldo, com certeza, ele teria sido avaliado de outras formas, sem blog, sem tanta metodologia tecnológica e talvez com uma sensibilidade maior. Não sei se o fato dele ter se desdobrado para dar conta da metodologia, o ajudou em algo, não sei se tudo poderia ter sido mais leve, diferente, caso eu soubesse disso tudo antes. Mas sei que me fez pensar e gosto quando algo se modifica aqui dentro.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Estado Vibracional

Se tudo no mundo é energia... Se as coisas que vemos e as que não vemos são, em sua essência, energia, então, nós, no corpo, na mente e no coração, somos energia.
Somos um complexo Pensene = Pensamento + Sentimento + Energia
Somos o que pensamos e sentimos e o resultado disso transformamos  em energia que atraímos e emanamos.
Não acredite em nada. Em nada que você lê ou que te contam. Mas você pode acreditar no que você sente, naquilo que intui, que percebe. Use os seus sentidos e sua percepção para ir mais fundo em você mesmo.
Seu corpo é o seu laboratório. Sua mente e seu psiquismo são seus e só seus, só você pode adentrar.
Então comece a sentir com sabedoria, aprendendo a ler em você as manifestações da energia, da tua energia e dos que te rodeiam.
Todo o tempo estamos manipulando, transformando, transmutando energias. Lidamos com energias de lugares, de objetos, de pessoas e de seres que já não estão mais encarnados mas que ainda emitem energias, são as consciências extrafísicas.
Quando nossas energias entram em contato com tantas outras energias, há alteração no nosso energossoma, nosso corpo de energia. As vezes para alterações de estados de frequência mais alto, que nos deixam com saúde, disposição, alegria, harmonia... e as vezes essas interações nos deixam em estados de frequência energética mais baixas, que nos causam irritabilidade, tristeza, prostração, doenças psicossomáticas. É preciso auto-pesquisa, auto-estudo, auto-disciplina, no sentido de identificar e tentar reequilibrar situações que nos causam alterações, muitas vezes prejudiciais.
E existem técnicas para se manter em equilíbrio, que 'limpam' o campo energético de forma fácil e rápida. Leia sobre isso nos livros ou artigos sobre a Conscienciologia ou assista palestras sobre isso na TV Complexis, youtube ou acesse canais como Pozati filmes.

domingo, 3 de julho de 2016

Passo a passo na burocracia

Estudar fora. Participar de uma seleção. Organizar documentos. Eu não tinha ideia de como era esse processo e confesso, fiquei assustada com tanta burocracia.
Eu me formei em 1997. Um diploma de uma Universidade Federal (MS), que foi usado para seleções públicas, concursos, mestrado. Nunca duvidei da autenticidade do meu diploma nem da importância dele, guardado com cuidado nestes quase 20 anos. Pois bem, não é que para participar de uma seleção de doutorado em Portugal, eu precisei reconhecer firma de cada assinatura do meu diploma (reitor, secretários, pró-reitor de graduação daquela época)! e também nas assinaturas do histórico e ainda no diploma e histórico do mestrado, que foi em 2005, em Ilhéus, na UESC. E fiquei me perguntando como documentos validados por instituições federal e estadual podem precisar ser 'autenticados'?
E esse foi só o começo, pois depois de autenticados em cartório brasileiro, lá fui eu validar cada um deles, no Consulado Português. Processo caro. Cada documento custou R$66,00! Não fica barato organizar a documentação. Como tinha histórico, diplomas e declarações, gastei mais de R$500,00. 
Enviei as candidaturas e esperei, para prosseguir no processo. Em média esperei um mês pelos resultados e passei nas três seleções que fiz. A decisão mais difícil: ir para qual universidade, para qual cidade (pois eram três cidades diferentes em três programas doutorais de áreas diferentes):   Lisboa, Braga e Aveiro.
Escolhida a Universidade, imprimi carta de aceite e fui em busca do visto de estudante. Novos documentos, diversas declarações. Tudo o que foi assinado por mim, tive que reconhecer firma e tudo o que foi assinado por outros, também. Não aceitam declarações de internet, como por exemplo, o de antecedentes criminais. Precisa ser solicitado na PF e reconhecer firma do delegado que assinar. Providenciar seguro de saúde (que custa uma nota) e também o PB4, para daqui a um ano, vencido o seguro saúde, poder contar com assistência mais em conta, através do acordo Portugal Brasil do CDAM. Vence em um ano, mas deixei procuração e com isso o PB4 será renovado. 
Pagas as taxas, foram 45 dias para visto analisado, concluído, aprovado.  Uma das muitas batalhas em busca deste doutoramento. 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Novela da vida real

Fui ao INSS para pegar uma certidão de tempo de serviço para averbar em minha instituição, já que comecei a trabalhar ainda muito jovem e depois de dez anos em órgão público, é hora de somar e saber quanto de tempo eu já tenho de contribuição à previdência pública.
Agendei há exatos cinco meses e lá fui eu, 45 minutos antes da hora marcada (capricórnio me governa, como perco tempo estando sempre adiantada ou no horário!). Ao chegar, como sempre costumo fazer, observo o ambiente com discrição, mas imaginando as histórias de vida de alguns rostos expressivos ou quando algum fato me chama a atenção para um determinado personagem.
Eu tomei consciência do que significa previdência, quando me deparei com tanto idoso, gente com aspecto de acidentado, com muletas, curativos, andando com dificuldade e para diminuir um pouco o peso da energia reinante, havia mulheres grávidas e outras com crianças de colo.
Sim, todo mundo em busca de seus benefícios.
Duas mães me chamaram a atenção. A mim e a todos. Por isso relato aqui os dois episódios.
A primeira mãe chega com dois meninos. Um maior, com uns sete anos e o outro, com menos de quatro.   O maior ficou na dele, arrastando um carrinho no chão. O menor,  já chegou choramingando, grudado na roupa da mãe, que andava com certa dificuldade, e dizia: não quero entrar, vamos para casa. Ela sentou-se em frente à recepcionista da triagem e enquanto ela explicava uma determinada situação, a voz dele passou a ser mais alta e o choro mais intenso, e os gritos imperativos do menino para ir embora dali. Ela calminha, nem dava bola, ou acariciava ele e dizia para ter calma. Vi todo mundo começar a ficar incomodado. O menino já berrava, puxava a roupa da mãe, já dava para ver a barriga. A sensação era que ele rasgaria a roupa da mãe. E ela educadinha. Nos rostos das pessoas eu ia lendo uma certa indignação, como se faltasse punho da mãe. Havia desaprovação geral com relação ao comportamento do menino. Até que a atendente pediu diretamente ao menino que se comportasse. Como se a mãe nem estivesse ali. Ele nem deu bola.
Já rolava mais de cinco minutos de berros, quando essa mãe se virou devagar, ajeitou a bolsa e deu uns tapas no guri e disse: 'olha aqui, rapazinho, você não se comanda. Eu estou operada, me respeite, daqui a pouco nós vamos, cale a boca e se comporte. Tá pensando que eu não bato só porque tá na rua? quem quiser que fale mal de mim. Menino mal educado!'. Vi que todo mundo mudou a expressão. Havia um olhar de aprovação em todos aqueles velhinhos ali. A atendente disse 'calma mãe, é só uma criança'.
Confesso que eu senti um alívio por esta mãe. Ela agiu na hora certa e muito embora não seja permitida palmada, discursos de violência à parte, eu achei que era preciso estabelecer limite e ela o fez, mostrou que não criava de qualquer jeito. E eu fiquei pensando na hipocrisia de uma sociedade que não sabe o limite entre violência e educação. Não queremos palmadas. Mas como aquela mãe poderia ou deveria se comportar?
A segunda mãe entrou silenciosa,  trazia um bebê no colo, acordado mas quietinho, sentou-se afastada. Olhei para ela e para seu bebê. Era um bebê com a cabeça pequena, de formato diferente. Uma vítima da microcefalia. Vi que muitas pessoas a olhavam.
Fiquei observando os olhares. Eles refletiam pena e curiosidade. Vi que pessoas acompanhadas comentavam entre si. Fiquei pensando no quanto essa mãe deve enfrentar isso no dia a dia. E em que tipo de energia isso se reflete para ela e seu bebê.
Ela era prioridade e logo foi para outro setor. Quando fui chamada também para este novo setor, vi que ela dava de mamar ao bebê e após algum tempo, ela o beijava, com carinho, brincava com ele, sem se importar com nada. As pessoas olhavam e havia olhares de admiração, de aprovação e de carinho. Olhares mais tranquilos. Novas energias no ambiente. E eu vi ali o sentido da maternidade, da proteção e do amor mais profundo que uma pessoa é contemplada quando se é mãe de alguém.
Conto os dois fatos, enquanto dramas reais de duas mães e do social em volta. Desta que tem a tarefa mais árdua, de educar, criar a sociedade do futuro. Daquela que constrói a cada momento o destino da humanidade. A sociedade não valoriza suas mães. Elas são vítimas de julgamentos de todo tipo, desta novela que é a vida real.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Evolução e a ética hacker no mundo atual, um breve apanhado

Esta semana reli o livro do Pekka Himanen, sobre a ética hacker. Gosto muito dessa obra e vale registrar as impressões. O mundo assiste ao crescente da produção de programas de computadores (os softwares) a partir de construções coletivas, onde diversos tecnólogos entusiastas (programadores), denominados Hackers, doam tempo e conhecimento, em prol da evolução desses softwares. Eles estão em todos os lugares do planeta onde há redes de computadores, falam línguas diversas, tem culturas diferentes e já atuam há décadas, sempre de maneira coletiva. Esses programadores criaram o movimento do software livre e um sistema operacional que disputa com as mega-gigantes Microsoft e Apple, seus usuários. Estou falando do Linux, e da ação conjunta de pessoas unidas por uma causa, que trabalham em horários alternativos para que sistemas operacionais e programas sejam cada vez melhores e distribuídos para mais pessoas. 
A análise dos métodos de trabalho, da cultura e do comportamento desses grupos Hackers tem gerado muitos estudos. Li VLEF, do Tiago Melo, há alguns meses e ele fala muito desse universo. Também é sobre inteligência coletiva e algumas peculiaridades de comportamento e valores dos hackers, que Pekka Himanen trata em sua obra. 

O livro tem três partes, assim divididas: A ética do trabalho; a ética do dinheiro e a ética da rede. Os temas são desenvolvidos em sete capítulos, que traçam um paralelo entre a ética protestante e o espírito do capitalismo (com base na obra de Max Weber, escrita em 1904) e a ética dos programadores com este espírito cooperativo de rede, na era da informação. O livro tem prefácio de Linus Torvalds e posfácio de Manuel Castels. A versão em português tem uma capa com ilustração estranha, já que o livro não trata dos crackers ( os programadores que invadem sistemas) e mais, utiliza um segundo subtítulo ‘a diferença entre o bom e o mau hacker’, que em momento algum é tema da obra. A capa, em português, parece um atrativo para vender o livro, em contraposição à divulgação da grande mídia que teima em associar a palavra hacker aos processos ilícitos que acontecem na internet.

O prólogo de Linus Torvalds, criador do Linux, é uma explicação sobre as forças que contribuíram para o êxito do hackerismo. Com a ‘Lei de Linus’, Torvalds estabelece as três categorias de motivações que nos levam a um processo evolutivo na vida. Pela ordem, o autor nos apresenta a motivação da sobrevivência, básica a qualquer ser humano. Em seguida, a nossa vida social, que nos leva a querer ser aceitos, viver em sociedade e até, em um extremo dessa motivação, a morrer pela pátria. Por fim, a terceira motivação seria o entretenimento, definido como exercício mental extremamente interessante e capaz de plantar desafios. Para ilustrar seus argumentos, ele exemplifica o extremo da terceira motivação: alguém que pula de pára-quedas e põe em risco a própria vida (em contraposição à motivação da sobrevivência), está buscando um desafio para não morrer de tédio.

Dinheiro, sexo, comida, guerra... para o autor do prólogo, tudo isso interfere na sobrevivência, se for só para manutenção do homem, mas na atualidade, envolve processos sugestivos que desafiam o ser humano, e por isso estão classificado como entretenimento. Ganhar mais dinheiro do que se possa gastar, fazer sexo sem necessidade de procriar, a gastronomia enquanto hobby ou a guerra enquanto conquista televisionada em nível internacional, se transformaram em ‘jogos’.

Por fim, Torvalds analisa os hackers e sua motivação para o trabalho que desenvolvem. Criar um programa proporciona grande entretenimento e ainda se alcança repercussão social (segunda motivação).

Pekka Himanen inicia a primeira parte do livro com uma análise sobre a ética dos hackers no trabalho. Para um hacker, o computador é pura diversão, cujo processo de programação envolve ludicidade e excitação. O desejo de continuar aprendendo também os motiva, é como dominar a máquina, e programar se torna um estilo de vida apaixonante. O autor encontrou paixão igual no processo de aprendizagem que envolvia Platão e seus discípulos, os artistas, artesãos, pesquisadores e aqueles que trabalham com meios de comunicação.

Himanen não fala sobre ética individual dos programadores, mas sim do comportamento em rede, que põe em juízo a ética protestante de trabalho, que há tempos vigora na sociedade capitalista e exerce influência em nossa vida.  Há mais de cem anos Max Weber  (1864-1920)  descreveu a noção de trabalho no espírito capitalista. A obrigação de ter uma profissão, com horários e regras determinadas e retorno financeiro que permita a sobrevivência. O trabalho como vocação, fim absoluto em si mesmo. Himanen cita autores que escreveram sobre o trabalho (principalmente autores ligados à religião) e faz um contraponto entre o trabalho em rede colaborativa. O Hacker trabalha sem horário fixo, sem a pressão do patrão exigindo resultados, sem visar o lucro ao final da tarefa. E mesmo sem essas pressões, há disciplina, motivada pela paixão em obter resultados que o tornem reconhecido por seus pares. Para o autor, a lógica dessa ética está justamente em burlar o já conhecido comportamento vigente no capitalismo.

No segundo capítulo, a relação do tempo dedicado ao trabalho na ética protestante é comparada ao uso do tempo no universo hacker. Se tempo é dinheiro, é perda de tempo se dedicar a um trabalho sem remuneração? A relação com o tempo dedicado ao trabalho, na ética protestante, se limita à obrigação de trabalhar em horário pré-determinado em horas e dias, pois trabalho é sacrifício. Na era da informação, o tempo ganhou uma racionalização ainda maior, pois a velocidade das inovações tecnológicas propõe o imperativo da corrida contra o relógio. Para os hackers, trabalho é prazer e eles trabalham em horários alternativos. A flexibilidade propõe o trabalho lúdico, onde e quando quisermos, por isso é possível ser feliz em horário comercial, e usarmos a madrugada para trabalhar, pois a rede não pára. Assim o hacker trabalha quando a criatividade o motiva, cumpre suas tarefas e não sua jornada e assim, tem tempo para ‘viver’.

Himanen analisa ainda a ética do dinheiro, como motivo e interferindo no processo de vida e aprendizagem do ser humano. Na ética protestante a semana era dedicada ao trabalho e o domingo era dia sagrado ao descanso. Mas se dinheiro é um fim em si mesmo e a lógica capitalista dita o tempo (ritmo de trabalho), então domingo atualmente é dia de labuta, pois o consumo é motivação. Diferente do ritmo de trabalho hacker, que concebe um domingo de trabalho, se na quinta ou sexta o tempo foi dedicado à família. No capitalismo o domingo de trabalho é puramente para aumento dos lucros.
No campo da aprendizagem, para o capitalismo as boas idéias são propriedades de quem as teve, principalmente se geram dinheiro. Então compartilhar informação, como bem poderoso e positivo não se explica. Mas um grupo se difere, até mesmo no capitalismo, com um modelo aberto de gerar conhecimento: a comunidade científica, que historicamente sempre trabalhou partindo de um problema ou objetivo no qual o indivíduo tem interesse pessoal e é um entusiasta, acha sua solução particular e qualquer um poderá utilizar, criticar e desenvolver esta solução. Mais importante que qualquer resultado final é a informação ou cadeia de argumentos subjacente que produziu a solução.  As fontes sempre são citadas e a nova solução não pode ser mantida em segredo e sim publicada novamente. E esse modelo sem ausência de estruturas rígidas, que congrega paixão e trabalho em grupo, está na prática hacker, que parte em busca da solução de problemas e submete seus resultados a diversos testes. Aprender cada vez mais é o objetivo desse universo e um professor ou pesquisador, neste universo, é alguém que, muitas vezes, acabou de aprender e já quer ensinar. Himanen denomina esse processo de ‘Academia da Rede’. 
Na última parte da obra, o autor fala sobre a ética da Rede e a netiqueta (boas maneiras observadas na comunicação na Rede) e sobre o espírito do informacionalismo. Segundo ele, quanto mais eletrônica se torna nossa era, mais deixamos vestígios ao navegar pela rede, fazer compras nas lojas, preencher cadastros em repartições ou ao responder questionários em sites de pesquisa. Nossos dados estão a todo momento sendo analisados, construindo um perfil de usuário, que deixamos ao usarmos cartões de crédito, fazermos transações bancárias, utilizarmos a internet e até mesmo o celular. Por isso os Hackers estão preocupados com a privacidade e com a proteção dos dados dos usuários da rede e prezam pela segurança no mundo virtual. A autoprogramação, o aumento do tempo dedicado à Rede, a necessidade de manter-se atualizado com as inovações crescentes, que teimam em nos deixar obsoletos com relação aos conhecimentos gerados na nova tecnologia, nos faz dedicar cada vez mais horas ao  trabalho. E esse é o espírito do informacionalismo.
No informacionalismo, há o resgate de virtudes do desenvolvimento pessoal, no sentido de racionalizar o tempo e o esforço gastos nas atividades, já que há informações demais, é preciso filtrar, selecionar e tomar as melhores decisões. Por isso é preciso ter determinação, tranqüilidade, otimizar os processos _ ser efetivo no ‘agora’; ser flexível _disposto a mudar conforme as necessidades; ter estabilidade  _ manter a constância na busca do objetivo; ter dedicação; ter consciência do valor do dinheiro necessário para realizar desejos; contabilizar resultados. E são essas virtudes que transformam a rotina nesses novos tempos: a rotina dos processos nos negócios está em alteração, as linhas de produção desnecessárias são eliminadas, as lentas são remodeladas de tal forma a serem efetivamente produtivas, afinal a automação elimina tempo perdido. E todo esse sistema passa a ser metáfora para explicar a ética que rege o informacionalismo. Com esta ética virtual em voga, o autor percebe dificuldades na aplicação da ética real. A lógica da velocidade, que tanto impera no informacionalismo, é talvez a pior barreira para que a ética real aconteça. Como se, em busca pela otimização, automação, e tudo o mais que rege esta era que vivenciamos, a ética fosse algo à parte. E é exatamente isso que preocupa o autor, que vê na ética Hacker um caminho diferente de comportamento na Rede.
Por isso Himanen propõe sete valores da ética hacker: paixão (entusiasmo que move a aprendizagem); liberdade (com o código aberto que permite o compartilhamento de conhecimento; com o tempo, que os livra da rotina e da jornada de trabalho e os deixa livres para trabalhar como e quando querem); valor social e abertura (que possibilita receber reconhecimento ao compartilhar conhecimento, tornando-o comum a todos); atividade (que envolve a liberdade de expressão em ação e privacidade para proteger seu estilo individual de levar a vida e desprezo frente à passividade): e cuidar (se preocupar com o futuro da sociedade virtual de tal forma que oportunize a todos uma garantia de acesso). Esses valores juntos, levam ao último estágio, quando o hacker se torna criativo porque utiliza suas habilidades, superando-se, e dando ao mundo contribuições valiosas.
Por fim, a obra nos apresenta um posfácio, escrito pelo sociólogo Manuel Castels, que retoma o contexto em que vivemos e as mudanças do paradigma da era industrial para a era da informação.
A ética Hacker e o espírito da era da informação é um livro positivo, porque aponta para uma cultura e uma ética mais humana neste contexto vigente que é o capitalismo. É muito bom ver luz no fim do túnel. As transformações éticas que vinculam tecnologia, democracia e desenvolvimento social e humano já começaram. Mas sem ingenuidade, pois é um  processo ético lento, que envolve uma minoria, pois o capitalismo tem teias amplas e o dinheiro ainda é um valor forte em si mesmo, mas pelo menos, é um começo. E tomar consciência que a colaboração é o caminho humano que resta. 
Vale a pena ler este livro. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Vida em Mutação

Hoje eu me dei conta que estou dando uma mudada radical em minha vida. Vou parar com uma série de coisas que faço no automático. Vou mudar de casa, de cidade, de estado e de país. Meu trabalho rotineiro, que é ler e estudar coisas na minha área, planejar aulas, ministrá-las, corrigir coisas, reuniões, atividades de pesquisa e extensão... tudo isso ficará em stand by até o meu retorno.
Minha casa será desarrumada e rearrumada. Sobrará um apartamento sem personalidade, com um dono apenas no papel. Alguém passará a usar o que era meu, meus móveis, meu espaço. Com isso, me dei conta hoje que  estou em um novo recomeço. Vou ter  novos estudos, áreas que pouco me aventurava antes nas leituras, novas rotinas, menos roupa, hábitos mais saudáveis, como caminhar mais, pois vou me desfazer do carro, vou viver com menos dinheiro, talvez emagrecer, pois ando comendo gostosuras demais e minhas roupas andam muito apertadas.
Vou estar longe das coisas que conheço, de objetos de decoração que gosto muito, não vou conviver com as pessoas do meu trabalho, nem com amigos e nem com meus amados, no dia a dia.
Sim, mudanças exigem preparação. Rompimentos. Com os outros e conosco.
Pois sei que não posso ir com todas as manias, desejos, hábitos, que não se sustentarão, que não são necessários, que só me trarão sofrimento.
Então estou em verdadeiro processo de desapego. Que as energias que renovam possam me ajudar nesse desapegar material e imaterial.
Também estou em processo de eliminação - o 'não é'! Então um dia você acorda e percebe que muita coisa te deixa triste. Não todo tempo, mas tá sempre acontecendo. Lá no trabalho, por exemplo, uma situação que se repete e que te chateia, como o fato de dar aulas em uma sala que nunca está com equipamento em condições de funcionamento, sem que eu tenha que ir atrás de cabos, de técnicos, etc.  Não é o certo. Na sua casa, algo colocado em determinado lugar que toda vez que você vai pegar, te dá trabalho para ter acesso aquilo. Ora, não está no lugar certo. Com uma pessoa que você convive, o jeito dela fazer algo que te deixa irritado. Afff. Tudo isso está a te enviar uma mensagem muito clara:  Não é! Não é natural você ter que ficar irritado, chateado, triste sempre que aquilo se repete e aquilo se repete sempre. Ops, tá na hora de mudar esse padrão. E quem tem que mudar é você. Pois então, pelo não é, estou analisando o que vou conseguir mudar nessa alteração radical de vida.
Disciplina. Estou com a plena certeza que se eu não tiver disciplina, eu vou ter dificuldade para dar conta do tanto de coisas que preciso fazer neste processo de mudança. E de forma prática, é muita burocracia, é muita coisa para encaixotar, para doar, para vender, para organizar, para deixar regularizado, principalmente no trabalho, pois se tudo ficará em stand by, precisa ficar em ordem. E disciplina requer foco, requer objetividade, não procrastinar, não relegar, não jogar embaixo do tapete, não fazer pela metade, não iniciar e parar. Para que a disciplina se torne efetiva, criei uma metodologia: escrever em pequenos pedacinhos de papel o que precisa ser feito, colocar os papéis colados em um quadro que está numa parede por onde passo toda hora. Sim, lembrar e lembrar. Então a técnica foi escrever tudo o que vou precisar fazer para atingir meu objetivo.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A visão limitada do suicídio

Hoje um casal amigo perdeu um filho de 20 anos. Penso que é a pior dor, essa de perder um ser que nasceu de nossas entranhas, que cresceu dentro do nosso corpo, que nosso cálcio produziu seus ossinhos... 
E o amor? aquele amor imenso que nos toma o peito quando olhamos no rostinho de nossos rebentos? e esse amor que nos faz planejar e visualizar a felicidade desse filho aos 10, aos 20, aos 30... 
e eis que vem a morte, aquela 'coisa' monstruosa e destrói toda e qualquer possibilidade de um filho enterrar um pai, fato natural para qualquer humano. Pois bem, a dor já se fez imensa, penso, quando fico sabendo que a perda não se deu por acidente, não foi por doença, não foi causada por outrem mas foi uma escolha do rapaz. 
Na hora eu senti uma dor tão forte, por empatia, me coloquei no lugar desses pais, desolados em perder para a visão limitada de jovem desesperado, que acredita que está no fundo do poço.
O que dizer do suicídio? se não estamos preparados nem educados para a morte, o que dizer da morte escolhida, planejada, realizada por aquele que se foi? Não, não estamos preparados para o verdadeiro livre arbítrio. 
Será que ele pediu socorro e ninguém percebeu? é logo o que pensamos.
Será que ninguém o ensinou que na vida tudo passa, tudo muda, tudo é cíclico, que não há mal que dure para sempre nem felicidade eterna? 
A vida foi vencida pela visão limitada da juventude que quer resolver tudo às pressas.
Não sabemos lidar com o suicídio. Ele não nos é natural. 

Mas nem a morte parece ser. E ela é. Ela é a coisa mais certa da vida. Ela é tão ou mais certa que a própria vida. Tem gente que vem e vegeta. Nem vive. Mas vai morrer. 
Tem gente que vem e convive com o mal de Alzheimer, esquece da própria vida, mas também vai morrer.
Tem gente que vive em área de guerra, lutando a cada minuto para salvaguardar-se e a morte pode estar no segundo seguinte. Então, ela é a mais natural das coisas que nos acontece.
E ela nos acontece sempre. Se todos nascem, crescem e morrem, convivemos desde sempre com a morte, de nossas plantinhas, bichinhos, bisavós, avós, pais, amigos, parentes... mas ainda nos é inconcebível a morte de um filho. E percebo o quanto ainda estou despreparada para ela.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A morada doente

 “Minha casa é o meu castelo” _ Esse é um ditado incontestável. A morada de um homem é seu recanto, local de descanso e conforto, destinada ao essencial da vida: comer, dormir, amar... enfim, é em casa que refazemos as forças para o dia a dia de lutas e embates.

Se o meio ambiente natural é a floresta, os mangues, as restingas, cerrados, etc., o ‘meu’ ambiente é onde escolhi viver, as quatro paredes que me aquecem e me protegem das intempéries. Então, meio ambiente de gente, inclui a casa onde se mora. Mas até que ponto nós temos casas sadias?

Um amigo meu, o Engenheiro Civil Dermivan Barbosa, há algum tempo me contou do número de pessoas que conhece, que estão doentes por conta de suas moradias que apresentam uma série de problemas: Casas sem ventilação, onde a luz solar e o vento não adentram, onde há muita umidade, verdadeiras concentrações de fungos e ácaros. No inverno, elas são escuras, exigem um gasto enorme com luzes acesas e os armários estão cheios de mofo. Já no verão, são verdadeiras estufas, cheias de calor e exigem ventiladores ligados todo o tempo. E ele nem conhece Cachoeira tão de perto. Ele me contava de Itabuna, cidade onde realiza obras de construção e reforma. 
Ah, se ele tivesse que viver em Cachoeira... 
      
A cidade tem um deficit imenso de casas sadias. Duas estudantes universitárias que conheço bem, pois cheguei a dividir espaço com elas, viveram situações complicadas com casas assim, estufas no verão e geladeiras escuras, no inverno. 
Tenho um amigo, ex-aluno, que veio de fora e está com problemas sérios de alergia. Há mais de um mês procura casa para mudar. Casas em que os quartos não têm janelas são as mais disponíveis. E essas casas não estão nos bairros mais periféricos. Ficam nos centros de Cachoeira e São Félix. 
Este assunto deveria ser tratado como um problema de saúde pública,  porque os moradores dessas casas, invariavelmente, estão com alergias, rinites, sinusites, problemas respiratórios de toda ordem e quando o caso é muito sério, desencadeiam depressão, tristeza, por conta de um lar que não atende as condições mínimas de conforto e bem estar. Nosso sistema único de saúde, com certeza, tem que responder por demandas dessa ordem. 
Arquitetos e engenheiros das prefeituras deveriam propor soluções alternativas para os moradores. Talvez uma reforma simples levasse os quartos para a parte de trás da casa, possibilitando uma janela em cada ambiente ou o corredor longo, dessas casas antigas, ganhar uma entrada de circulação de ar, para viabilizar um frescor na vida de seus residentes. 

domingo, 24 de abril de 2016

Rio de alegrias

Estive no Rio e vi pouco da cidade, mas foram dias intensos e legais. Rever Rita e as filhotas Joyce e Mayara, meninas lindas, super educadas. Foi muito legal. Fica o registro.

sábado, 23 de abril de 2016

Flarod com carinho

Flávio Rodrigues. Revi meu querido amigo depois de mais de quinze anos sem vê-lo. É sempre uma festa rever quem gostamos. Mas preciso contar o quanto Flávio e sua querida Annie apostavam em mim e eu não correspondi.  Volto para contar em breve.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Ação gerando ação - cidadania e educação

O Você na REDE ganhou outros caminhos. E novas ênfases.
Ontem fomos à Santo Antonio de Jesus apresentar o seminário no Colégio Status.
Na platéia meninos e meninas de 9 a 16 anos. Confesso que tivemos que alterar muita coisa em função de pessoinhas tão novinhas, mas valeu a pena, acho que o trabalho educativo foi maior.
Pensando em contribuir com a nova lei de combate ao bullying, falamos muito sobre as reações violentas nas redes, os desrespeitos,  nudes, selfies, relacionamentos líquidos, o fato de tratarem a mulher como objeto e que isso gera violência quando uma imagem de intimidade vaza, e claro, demos mil dicas de como se proteger no facebook, usar corretamente o instagram, usar what´s app de forma colaborativa, principalmente em casos de emergência, além das potencialidades do snap chat.



Fomos à convite da Janúbia Oliveira, diretora, super simpática. Ela e a coordenadora Flaviana nos deixaram super à vontade, e nos receberam com tudo organizado e bonito. O Reginaldo fez divulgação na rádio Andaiá FM e penso que isso foi legal, porque até a Secretaria Municipal de Educação e um representante da Secretaria Estadual, estiveram no evento.


Faixa na frente do Colégio, um cesto para receber as doações (um quilo de alimento não perecível), que os alunos da casa e os professores convidados das redes pública e particular levaram para participar do evento e a gente viu um evento gerar várias ações.


Foi muito legal!  Ao final, ganhei flores (que adoro!) mas confesso que fiquei sem graça, pois não fiz mais que minha obrigação, ao levar os resultados de uma disciplina tão rica, quanto Teoria da Imagem, para fora dos muros da Universidade.
Depois a Janúbia nos entregou o resultado do seminário: Mais de 60 Kg de alimentos, que doamos para o Asilo de Idosos de Cachoeira ontem mesmo.


Vi que os estudantes-palestrantes ficaram super orgulhosos do seu trabalho, gerando cidadania e educação.
Penso que todos os cursos universitários precisam dar retorno social. Mesmo pequena como a nossa ação, ela gera novas ações. Não dá nem para dimensionar as mudanças que podem causar. Se cada menino e menina conseguiu aprender algo sobre respeito, uso consciente das mídias, isso já vai fazer grande diferença. E podem ser multiplicadores.  A transformação só se dará assim, em pílulas, todo mundo fazendo um pouco e na soma, serão grandes mudanças nas novas gerações.


quinta-feira, 17 de março de 2016

Dos sonhos, da Democracia

Eu acreditei. Tanto, tanto. Meu primeiro voto. Paralamas cantou e eu acreditei, era preciso mudar o Congresso.
Eu o entrevistei quatro vezes, e ele ainda não era presidente, era um homem com discurso forte, contra corrupção, pela democracia, pelo direito de expressão de todos.
Tenho foto. Tenho autógrafo.
Tive tanto orgulho desse país quando ele venceu o medo. E comemorei muito uma nova fase na Educação, quando vi a Bahia ganhar novas universidades federais, depois de um reinado de 60 anos de uma única UFBA, exclusiva, para elite que podia estudar só durante o dia. Fui ser UFRB com tanta paixão. Trabalhei dobrado em nome do sonho.
Depois achei estranho os escândalos e a fala 'não sei e não vi', daquele que eu achava que era honesto acima de tudo. Vi abraçado a homens que eu tinha nojo, dialogando com Sarnei, Collor, e cia. ilimitada. Não o vi fazer as reformas necessárias. Vi aumento de impostos. Vi meu salário diminuindo. Vi a educação continuar sendo relegada de verdade, sem mudanças de base. Vi projetos importantes engavetados. Vi a criminalidade crescendo, vi um Congresso, onde ele tinha maioria, ignorar leis que precisavam ser criadas, aprovadas. Vi a opinião pública dar a ele quase 80% de aprovação e nem assim ele cortou o que havia de errado. Vi os escândalos continuarem e ele continuar no discurso, 'não vi, não sei'...
Vi gente séria acusá-lo e chegou uma hora, também no meu estado, na Bahia, em que vi o PT agir errado. As universidades estaduais nunca foram tão mal geridas como no governo petista da Bahia. Então botei meu rabo entre as pernas e joguei a toalha. O sonho acabou.
Não votei para prefeito do PT em 2012.
E em 2014, votei Marina, depois, no segundo turno, eu anulei meu voto, sob um olhar estarrecido do meu filho. Abri mão de escolher.
Mas nada disso me preocupava.  Não dava para acreditar em nenhum deles, dos que se candidatavam a me representar.
Senhora Dilma e senhor Aécio não me representam. Nem antes, nem agora.
PT, PMDB ou PSDB, não me representam, então, não me resta outra coisa, senão aguardar os rumos.
Mas fico preocupada em ver um país tão apaixonadamente dividido.
Como se a racionalidade, bem maior em uma situação como esta, deixasse de existir, em nome dos EGOS inflados de cidadãos que se acham donos da verdade.
E mais, acreditam em uma imprensa manipuladora. Que quer mudanças aos trancos e barrancos. Em favor de uma troca de situação benéfica para quem?
A saída de Dilma vai mudar os rumos das investigações? aqueles que roubaram sempre e muito, e antes, vão ser investigados também?
O PT herdou uma maneira nefasta de governar e de se manter, fez crescer o que já existia de errado.
Eu quero punição para todos. Não apenas para Dilma e Lula, mas para cada um dos representantes do executivo e do legislativo que não apenas roubou para seus partidos mas também enriqueceu com dinheiro de empresas que querem se manter nos negócios e negociatas.
E se é possível um juiz agir fora da justiça, que o faça para todos, não apenas para um lado da balança. Há muitos escândalos engavetados. Passem à limpo esse Brasil. A hora é agora. A opinião pública quer a lavagem de roupa suja às claras, toda, completa. Mesmo que nos custe a dignidade enquanto cidadão de um planeta em regeneração, onde já há alguns países caminhando sem essa doença cruel que é a corrupção. Fica visível nosso estado pouco evoluído, mas e daí? a hora é de dar exemplo aos mais novos.
Temos coragem para mudar, mas mudar de verdade. Novas leis, punibilidade mais séria, justiça  e democracia integral para todos.

sábado, 12 de março de 2016

Entre o 11 e o 13

Nira, minha avó paterna, nasceu dia 11 de Março. Arthur, meu filho, nasceu dia 13. Sempre fico a pensar na importância desses dois seres em minha vida. E no miolo que me preenche, da massa que fui feita e que me alimentou, como ser humano.
Muito embora tenha mãe e avó materna guerreiras, maravilhosas e cheias de lições de vida, eu sempre estive a refletir sobre minha avó paterna, ao observar como ela viveu e de que forma isso me impactou. Minha avó teve grandes perdas _dois filhos se suicidaram, aparentemente por motivos fáceis de resolver, um filho jovem médico, que morreu de AVC dentro do consultório, uma outra filha (de criação) de aneurisma, e meu pai, com cirrose. Ela enterrou a todos com tristeza e resignação. Nunca vi minha avó revoltada. Vi algumas vezes, falar que Deus havia esquecido dela, pois para ela, viver perdas era ruim e filho não deveria morrer primeiro que os pais. Mas ela me ensinou, com sua postura resignada, a compreender que a vida é feita também de morte. Vamos ver morrer quem amamos e vamos morrer e deixar quem amamos ao longo do caminho. Ao meu filho, tenho tentando fazê-lo entender a naturalidade desse percurso, ele que acabou de perder um primo irmão, amado e fica de vez em quando, se questionando sobre a presença da morte em vida.
Nunca vi minha avó ociosa, estava sempre entre linhas e panelas, bordando ou cozinhando, coisas deliciosas ou lindas. E sempre para os outros. Era uma mulher de doação.
Com ela observei o valor do trabalho, de estar sempre ativo, de buscar aprender sempre. Nira comemorou aos 89 nos o fato de  aprender  uma técnica nova de entrelace e até morrer, aos 96, fez muitas toalhas com pontos variados e cada vez mais difíceis. Só eu tenho pelo menos umas seis lindas toalhas que ela me deu, com essas franjas trabalhosas e bonitas.
Eu penso que herdei muito de Nira.
Nunca fico parada. Estou sempre acumulando serviço, dizendo sim a coisas que ocupam tempo, que dão trabalho. E aprendendo coisas novas.
E Arthur segue pelo mesmo caminho. Faz judô, xadrez, teatro, inglês, espanhol... é estudioso, participa dos escoteiros. Não se nega a nada, muito companheiro e participativo.
E assim vamos densificando e cristalizando nossa morfopensene. Nossa forma de lidar com pensamento, sentimento e energia, pautada em uma realidade construtiva diante da vida, que muito me alegra. Não quero deixar grandes heranças materiais.
Mas esta sim, que herdei e estou vendo que Arthur herdou, esta sim, me deixa satisfeita.

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher, maternidade e outras questões da minha condição de gênero

Ser mulher não é uma condição muito fácil. Diz a piada espírita que uma reencarnação como mulher, vale mais que algumas como homem. Vivemos em balança hormonal ( e hormônio é o combustível da normalidade na vida biológica humana), temos um ranço enorme de uma sociedade milenar machista (e calcada em dogmas religiosos que nos impôs condições diferenciadas e subalternas na convivência com o outro, o que tem pênis) e para completar, no Brasil (país de desigualdades sociais e raciais), as desigualdades de gênero só aumentam.
Pois bem, essa introdução é para falar de mim. Mulher e mãe.
Como mulher, vivi muitas vezes o fato de ganhar menos em mesmas condições de trabalho, nas Emissoras de televisão. Era visível que eu ganhava menos que meus colegas masculinos, que conseguiam  sustentar casa, mulher, filhos e veículo, sendo repórteres, iguais a mim. Solteira e sem filhos, eu sempre tive dificuldade em me sustentar em comida, pagar aluguel, manter carro e andar arrumadinha como a profissão pedia. Tenho certeza, até pelas conversas de corredor, mesmo sem ter tido acesso aos seus contra-cheques, que eram salários diferentes (eu e meus colegas repórteres). Tanto que em todas as vezes, nas rodinhas em horários de lazer, em que estávamos, e o assunto era salário, se desconversava na hora de falar em acordos. Sim, haviam acordos diferentes, para uma mesma função, e, em muitos casos, eu era formada em Jornalismo, e alguns dos meus colegas homens, não eram. Não que isso no interior desse rincão chamado Brasil, tenha muita importância. Fui repórter em Cuiabá, Campo Grande, entre Bahia e Pernambuco (Juazeiro e Petrolina) e nas cidades baianas de  Feira de Santana, Itabuna e Salvador (foram mais de onze anos de jornalismo), e sim, ganhava menos que meus colegas homens.
Quando me afastei do Jornalismo diário, nas TV´s, meu salário último, depois de anos de carteira assinada e comprovada experiência, foi R$880,00 (oitocentos e oitenta reais), em 2003. Esse valor  não correspondia sequer a três salários mínimos, para trabalhar de domingo a domingo, em muitas semanas de plantão, em horários complicados, em dias de feriado, em períodos de festas, como carnaval. Não tinha nada extra em dinheiro, nenhuma hora sequer. Apenas recebia em banco de horas, em forma de uma segunda-feira morta, que poderia ficar em casa.
Eu era  formada, com  pós-graduação, iniciando um mestrado, ensinando já na UESC e já com um filho, então decidi largar a profissão e mergulhar na vida acadêmica. Mas confesso que adorava a falta de rotina da TV, no sentido de todo dia poder tratar um tema diferente. Mas a desvalorização profissional e mais, de gênero, me levou a abandonar o telejornalismo, que era a minha praia. (LINK de uma atuação como repórter).
Como mulher, tenho memórias de tantas situações esdrúxulas, com relação a assédio, a piadas tortas e comentários ridículos, em que a questão sexual era exposta sem qualquer critério. Destaco duas: um professor da UESC, quando eu fazia Direito (sim, fiz dois semestres), ao ver que eu não gostava dos seus comentários machistas em sala de aula, me reprovou, como forma de me punir ao não entrar no jogo de piadas e insinuações que ele fazia com todas as mocinhas da sala (lembro que ele dizia, 'quem tem como me pagar nada me deve', quando dava chance a uma aluna de trazer exercício em outra aula, deixando claro que o pagamento era com favores sexuais, a piada era tema de muito riso com os colegas homens da sala, enquanto as poucas mulheres, daquela classe noturna, em 1989, ficavam sem graça, com olhares baixos). Eu retruquei com voz grossa, deixando claro que não achava aquilo certo e não deu outra, fui punida. Naquela época não se falava em assédio moral, nem tampouco sexual. A outra situação cruel, foi em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, quando era fotojornalista freelancer, no ano de 1995, prestando serviço para a Associação dos Magistrados daquela cidade, fui fortemente assediada por um Procurador Geral e ao dar queixa aos gestores da associação, fui dispensada sem qualquer explicação. E meu namorado na época, um namoro sério, de anos, riu de minha indignação, achando que eu não deveria ter dado queixa do procurador. Que fiz uma tempestade em copo d'água. Como fiquei chateada com ele.
Penso que em pouco tempo tivemos muitas conquistas. Hoje duvido que um professor daquele, sobreviva em sala, sem queixas formais. Ou que alguma mulher não saiba o que fazer quando um homem a assedia como aquele procurador o fez comigo. Lembro que fiquei em tão mal estar que fui trocar um filme cheio e acabei jogando o filme no lixo, e tive que procurar na lixeira, tal meu estado alterado de emoção, diante do absurdo de ser assediada daquela forma.
Nas minha memórias também coleciono uma série de caras e bocas que vi no rosto de muitos homens e mulheres, quando relatava que escolhi não casar com o pai do meu filho, ainda grávida. Eu fiz essa escolha consciente, no final da gravidez,  por perceber, já naquela época, que éramos muito diferentes sobre como lidar com muitas questões, inclusive com paqueras e relações extra-conjugais. Sim, eu percebia que ele era mulherengo, que haviam outras pessoas na vida dele e resolvi que não tinha como lidar com aquilo. Saí de vez da relação quando o menino tinha um ano e oito meses depois de um flagrante da traição dele. E fui mãe integral durante dez anos. Passei no concurso da UFRB e vivi em Cruz das Almas anos, sem um único parente e tudo era eu, mãe 24 horas. Meu ex longe, pai de telefone e web cam, por anos.
Quando ele voltou de viagem, após curso fora do estado da Bahia, só via nosso filho nos finais de semana, e nem por isso recebeu uma única crítica por ter ido estudar fora dois anos, por ter se relacionado com outras mulheres enquanto ainda estava comigo. Nunca vi ninguém falar nada sobre isso. Pois bem, há pouco mais de dois anos, ao decidir mudar de casa, e mudar com isso minha rotina de vida, eu e o pai do meu filho decidimos que o nosso filho  ficaria de segunda a sexta na casa do pai, que trabalha na cidade, enquanto eu trabalho fora, e tudo seria mais complicado, por conta de babá, distância, etc., eu ficaria nos finais de semana com ele. Meu Deus! minha mãe, a mãe dele, minha ex-sogra, a irmã dele (que era minha amiga), e mais um milhão e meio de pessoas, me crucificaram.
Minhas escolhas não condiziam com meu papel de mãe e de mulher. Eu tinha um papel e abandonei no meio (era o que eu ouvia).
Hoje eu e meu menino ficamos 24, 36, 48 horas ligados... de verdade. Fazemos coisas juntos, de verdade, como eu sei que muita gente não faz. A qualidade das nossas horas juntos supera em muito a quantidade. E isso me faz ver o quanto ser mãe é relativo.
Mas minha mão direita pipoca em alergias, que os dermatologistas não explicam e nomeiam de desidrose por stress. Meu acupunturista pergunta se há algo do feminino mal resolvido. Sim, há uma maternidade social que está em aberto, pelo fato de meu filho assumir que mora com o pai. Eu sou a que fica apenas dois dias por semana.
Nem mesmo eu, em meu psiquê rançoso de milênios, me aceito como mãe de finais de semana. Muito embora, na racionalidade de quem trabalha em uma universidade, saiba que meu filho tem orgulho de uma mulher guerreira que sei que sou.
Meu menino é inteligente, interessado em bons livros, em bons filmes, em teatro, esporte, boas atividades lúdicas, é espírita e já se interessa pela conscienciologia, que estudo. Sei que ele tem muito de mim, que me admira. Mas nem isso provoca em meu inconsciente a minha redenção. Eu sou culpada, pela minha cultura machista. E só peço ao universo que eu consiga educá-lo para um futuro sem diferenças de gênero, já que ele está sendo educado em um sistema de partilha diferenciado e vê, na mãe, uma mulher diferente das outras. Eu sou o exemplo vivo da mudança, muito embora pague na carne, com minhas feridas da alergia, o preço de mudar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Youtuber, novo comunicador

Ah, se na minha época de recém formada alguém me oferecesse a oportunidade de ter meu próprio canal de comunicação, eu teria criado um, sem dúvida. Assunto não faltava. E ainda hoje, acho que há público para tudo. A internet permite a segmentação máxima.

Por isso, pensando no quanto há de conteúdos possíveis, levei meu amigo Jorge Filhu, criador de  canais Youtube, para uma palestra na UFRB, para meus alunos de Teoria da Imagem. Tenho 18 alunos nesta disciplina e ainda abri 22 vagas para quem pudesse vir assistir. 40 em uma sala comum é razoável. Que decepção, menos de 15 pessoas foram. Nem mesmo todos da turma apareceram.

Tem horas que dá um desânimo ser professora de Universidade e formadora de novos profissionais. Penso que boa parte dos estudantes que se matriculam não tem ideia do que é mesmo ser um futuro profissional em comunicação. Não tem emprego na esquina. Quase não há concursos para comunicadores.

Vivo dizendo que os cursos precisam ensiná-los a gerenciar seus conhecimentos e a serem fomentadores, gestores, criadores de oportunidades.

Pois bem, o Jorginho tem experiência como criador, youtuber, ganha dindin com seus canais ou criando canais para outras pessoas. Durante duas horas ele foi super didático, deu conceitos,  trouxe dicas de como criar, buscar bons conteúdos, monetizar, falou de softwares, hardwares necessários para ter seu negócio, mostrou seu trabalho,  etc. Claro que a platéia pequena foi participativa e acredito, a palestra pode render frutos.

Eu até me animei e acho que vou criar meu canal sobre o Inevitável, página que já tenho no Face. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Imagens Vivas, na poética da Galeria

Tá, foi coisa demais, quatro exposições paralelas e ainda convidei quatro fotógrafos para estarem conosco. Sim, eu queria mesmo mostrar todo o trabalho que venho desenvolvendo nos grupos de estudo em imagem, o Galeria Recôncavo, o Poesia e Imagem, o Comunicação e Saúde, na série Gordofobia, além de mostrar os produtos dos estudantes da disciplina Fotografia I e também me colocar enquanto curadora, artista, fotógrafa e poetisa.



Sem contar em proporcionar o prazer de ter imagens de Jomar Lima, de Guilherme Bronzatto, de Tony  Caldas e de Seu Zé, expostas juntas. Coisa mais linda de se ver! Daí o Imagens Vivas ter tanta coisa para expor.





Na Galeria, foto de Seu Zé!



                                                      A instalação de Flora, maravilhosa, com fotos de celular




                                                   Jomar encantou a todos com as mulheres da Boa Morte

Tony e o menino do rio

A série Gordofobia foi um exemplo da fotografia que denuncia, expõe e exige mudanças

Poéticas do Cotidiano, da turma de Artes Visuais, série que revelou outros olhares sobre o dia a dia



Gordofobia gerou manifestações


A Galeria dos velhos ofícios, de Daniele

Camilla trouxe as festas populares de Cachoeira

Dinha trouxe a tradicional festa do Agricultor no Recôncavo




 Era tudojuntoemisturado, em imagens vivas de verdade



Os textos de primeira e segunda realidades para localizar o leitor sobre o contexto e o texto


teve festa