domingo, 26 de novembro de 2017

Fotojornalismo: Informação, Técnica e Arte - 20 anos de estrada


Eu comecei a fotografar na Instamatic do meu pai, ainda menina. E nunca mais parei. Em 1993 eu comprei minha primeira câmera com recursos. Foi quando estava a cursar fotografia I e II na UFMT, em Cuiabá. A professora Kátia nos deixava ficar todo o dia a fotografar, revelar e ampliar nos laboratórios da universidade. A pentax K1000 era nossa companheira. Tirei dez de média. Foi ali que eu percebi a magia da imagem.
Quando eu fui para a UFMS, em Campo Grande, o curso era noturno. Não havia um laboratório como na UFMT, não havia uma professora como a Kátia. E eu senti uma apatia nos meus colegas. Frequentei, como aluna ouvinte, as aulas de fotografia na turma da Daiane, mais adiantada que eu, que era com um professor substituto, publicitário do mercado. E ele não falava nada muito interessante. A metodologia também era bem questionável (ele ficava a mostrar suas próprias fotos e a explicar como as realizou). E depois na minha turma, com outro professor substituto, o Prof. Sérgio, mais preocupado com a didática, percebi que dar aulas na UFMS era uma situação de muitas limitações: sem laboratório e sem livros específicos da área. Sérgio nos levou a laboratórios externos, fez passeios fotográficos aos sábados, enfim, foi criativo.
Então eu fiquei a me questionar se era possível escrever algo mais substancial na área. Também percebi que não haviam fotojornalistas com formação acadêmica em MS e que nossos coleguinhas não tinham nenhum interesse em seguir a área.

Minha melhor amiga em Mato Grosso do Sul, colega de turma, a Rosangela, escutou com interesse a minha preocupação. A Ro era uma editora maravilhosa, tanto de texto quanto em diagramação. Falei do meu interesse no final de 1996, e começamos a agir. Revisamos os livros de jornalismo que existiam na Biblioteca da UFMS para ver o que os autores falavam sobre o tema e era muito pouco (isso teria dado um bom artigo).
Naquela época a internet começava. Eu já tinha em casa um computador e um aparelhinho barulhento (o modem) que me ligavam ao mundo e fiz minha inscrição em listas como a JornalBR e FotoBR. Passei a dialogar por listas de discussão, com fotógrafos e jornalistas. No início de 1997, a pesquisa se efetivou, e um dos tópicos era observar o mercado. Como era a rotina, os valores dos pagamentos do mercado ao fotojornalista e as condições de trabalho em MS e aonde minhas possibilidades na internet alcançassem.
Foram quatro meses de pesquisa, com muitas entrevistas, tanto presenciais quanto virtuais, por e-mail (naquela época não exista web 2.0).
Depois foram dois meses a escrever o texto a quatro mãos, a diagramar, a fotografar imagens ilustrativas que faltavam. A Ro era uma bordadeira do pagemaker e do coreldraw. Ela ficava horas diagramando uma página. Um trabalho primoroso. Eu mergulhava nas entrevistas e nas fotografias.
 Aqui destaco a capa, uma tarde com nosso querido Antonio Marques, colega de sala. o Toni topou a ideia de um ser humano que pega carona com o desconhecido quando se aventura a fotografar no mercado jornalístico. A Ro dirigia o carro ao fundo, eu, deitada no asfalto da Avenida Afonso Pena, a tentar colocar na imagem a ideia mental de um fotojornalista.
Fizemos um material que tentava abarcar um pouco de tudo, para auxiliar um professor e um profissional.
É claro que rapidamente a questão técnica ficou defasada. Em 1997, a San Disc colocou no mercado um milhão de cartões de memória e isso foi o impulso que as empresas precisavam para qualificar a produção das câmeras digitais. A década de 2000 assistiu a queda do filme analógico, o definhamento da Kodak e claro, o livrinho passou a ter um enorme capítulo obsoleto.
Mas a parte de linguagem, de história e de mercado ainda eram importantes.


Eu fiz questão de enviar uma cópia para 15 universidades espalhadas pelo Brasil. E a UFMS, na pessoa do meu querido Professor Hélio Godoy, co-orientador, que passou  a dar aulas de fotojornalismo, responsabilizou-se pela segunda edição, em 1999, com 300 cópias.

A parte de linguagem tinha o que encontramos de mais importante em autores consagrados.















Mas a Biblioteca da UFMS não tinha alguns autores que, hoje acredito, eram imprescindíveis, e o livrinho carece, coitado. Não havia Freund, Barthes, Flusser, Machado, Sontag, Joly, Bourdieu... e tantos outros que hoje são como livros de cabeceira para mim.

Mas o capítulo sobre o mercado, através das entrevistas, eu considero o mérito do nosso trabalho. Entrevistamos todos os fotojornalistas de Campo Grande, Capital do Mato Grosso do Sul.

E entrevistamos, através da internet, dez fotojornalistas espalhados pelo Brasil, em redações como a do Jornal do Brasil e Folha de São Paulo. Também conseguimos relatos de dois fotojornalistas do cenário internacional, um em Nova Iorque e o outro em Buenos Aires, e ganhamos ainda uma crônica, de um fotojornalista que estava na Europa.

A crônica, do Antonio Ribeiro, fala do banho que deu em sua bolsa de fotógrafo. Vale a pena ler...




Para ilustrar com maestria, um colega nosso, Paulo Moska, nos honrou com seus desenhos. São lindos e atuais.


Por causa desse trabalho, eu tive o prazer de ganhar amigos que saíram do virtual para o real e que os cultivo até hoje, como Tibico Brasil, de Fortaleza, que encontrei em Feira de Santana e depois convidei para minicursos e palestras na UESC,  Rogério Madureira, fotógrafo e editor de imagens em Friburgo, e Arthur Max, do Rio e agora pelo mundo, com a ONU.

Destaco uma pessoa, durante todo o processo de produção do livro, que foi de uma generosidade incrível: o fotógrafo e professor Amado Becquer Casaballe. Uruguaio naturalizado argentino, sócio da revista Fotomundo, ele me enviou livros, revistas e artigos, pelos correios, para nossa pesquisa. Telefonava-me da Argentina e contribuiu imenso nos capítulos sobre a história da fotografia e sobre o mercado de trabalho. De 1996 a 2011 nós nos correspondemos por email, pelo menos a cada quatro, cinco meses. Em 2011 eu fui à Argentina conhecê-lo pessoalmente.

Passei 12 dias em sua companhia, a conversar sobre fotografia, conheci a Fotomundo, e penso que Bec se tornou uma das pessoas que amo incondicionalmente. Ele faleceu ao final de 2013 e eu guardo até hoje cópia de alguns mails, onde ele me falava de fotografia com poesia.
Outro ser mágico que este trabalho nos trouxe foi o Flávio Rodrigues. Flarod era editor chefe de fotografia no Jornal do Brasil. Flarod me ajudou imenso. Colocou-me em contato com André Arruda, Arthur Max, Evandro Teixeira e tantos outros fotojornalistas.

Flarod acabou sendo convidado a vir ao MS para estar na nossa banca de avaliação. Eu e a Rosangela resolvemos buscar patrocínio para pagar a viagem e a hospedagem do Flávio. Vendemos 100 cópias do livro a dez reais com esta finalidade. Agradeço a cada amigo que esteve no lançamento e colaborou. Flávio e Annie, sua esposa, ajudaram-me imenso e queriam muito que eu ficasse no Rio de Janeiro. Morei com eles por alguns meses, após formada, e ele me levou a conhecer várias redações e agências, como a do JB, a de Rogério Reis e a equipe de O lance. Estive com Flávio em 2016 e ele me disse que eu era motivo de frustração entre ele e Annie, que não conseguiram me segurar no Rio. E eu só o disse que a juventude é burra. Eu fiquei com medo do Rio.

Flarod faleceu este ano e meu coração aperta porque eu deveria ter ficado por lá, vivido mais perto desse homem cheio de magia da imagem.











O nosso livrinho foi o primeiro projeto de conclusão do curso de Jornalismo da UFMS a receber uma nota máxima (10). Muito nos honrou como o Reitor se referiu ao nosso papel colaborativo e de  produção do conhecimento para o curso, quando fomos convidadas a ir ao seu gabinete. Também muito nos honra a forma como fomos tratadas pelos nossos orientadores, o querido Sérgio Borgatto, calmo e colaborativo, Hélio Godoy, sempre com textos e livros, palavras de incentivo e dicas, pois éramos muito ocupadas, eu e a Ro, e vivíamos sempre temendo que não daria tempo terminar tudo como queríamos. Eu tinha dois trabalhos (era repórter e assessora, além de fotojornalista, prestadora de serviços em 04 empresas) e a Ro trabalhava em uma gráfica, como gerente e também na área de edição.
E, com a revisão da memória afetiva após 20 anos de terminada a tarefa da graduação, o meu imenso agradecimento a Jorge Kanehide Ijuim, Maadakay, eterno mestre, que até chá nos preparava nas sessões de orientação. A ele e a Jaque, sua esposa, minha eterna gratidão. Jorge nos chamava de a arretada e a valente. Eu e Ro, uma dupla dinâmica.
Trabalhar com a Ro neste projeto nos custou suor, risos e amor. Foi trabalho duro mas sempre prazeroso. Um amor para sempre. Depois de 20 anos, separadas por milhares de quilômetros, pois eu voltei para Bahia e ela foi morar em Brasília e depois São Paulo, nós nunca nos deixamos separar afetivamente. A gente se fala sempre, antes era email, depois telefone e agora what's app.
Daquela época, no exercício de uma descrever a outra, mantenho a Rosa Leão. Ela é determinada e doce. Uma combinação perfeita. Sempre que dá, a gente se reúne. Na foto, eu, Ro, Jorge e na barriga o Victor, segundo filho da Ro.

Vinte anos depois, passada a euforia de ser repórter de rádio e TV, de ter sido fotojornalista free lancer, eu percebo que é a estudar a fotografia que eu mais me realizo. Eu gosto da Teoria da Imagem. Estar em Portugal a estudar o espontâneo é uma realização que me é cara e venturosa. E é um prolongamento desse início, onde o fotojornalismo já era, para mim, técnica, história e arte.




sábado, 18 de novembro de 2017

Mãe de what's app

A proposta de vir fazer o doutorado em Portugal foi analisada e discutida entre mim, Arthur e Cristiano, como possibilidade, desde que eles colaborassem com uma comunicação efetiva e, no caso de Arthur, afetiva, no sentido de minimizar a distância. Eu já sabia que a saudade e a sensação de estar perdendo grandes momentos da vida do meu filho seriam constantes.





Quando Arthur era pequeno, tinha 1 ano, Cristiano iniciou o curso para piloto de avião e eu fui a primeira a incentivá-lo. Eu tinha webcam. E fiz questão de todos os dias ligar a web para Arthur ver e falar com o pai. Cristiano levava muitos meses longe. E foi a relação virtual que fortaleceu o contato, a ponto do bebê dizer "saudade papai" como algo natural, construído pelo contato diário.
E foi a partir desse experimento que eu imaginei também ter uma ação e emoção ativa entre Salvador/Braga, diária e irrestrita, com Arthur, através do what's app.





Confesso que ele as vezes some, passa dias sem dar atenção.  Diz "oi, mãe, tô bem. Saudade. Um beijo. Te amo". Mas tem dia que se anima, liga, ficamos por meia hora ou mais a falar do dia a dia. Algumas vezes eu fiquei triste quando dois dias se passavam e ele nem lia ou ouvia meus áudios. Mas retomei meu terapeuta via skype. E Paulo me fez ver que um menino de 14 anos que faz inglês,  teatro, que está na oitava série, que joga no play... tem o dia a dia cheio. E se por dois dias não me responde, não é que não me ame ou não sinta minha falta. Mas é que mãe não é mesmo prioridade de adolescente.
E é o preço da distância.
Nas horas em que ele me esquece, eu corro para o pai: Cris!!!! O menino sumiu. Ele prontamente me conta o que está acontecendo. E isso acalma meu coração de mãe. Durante este um ano e cinco meses que cá estou, as grandes novidades chegaram por fotos e vídeos. Por ligações de wapp. E eu acredito que embora não tenham a mesma força da presença física, foram importantes no processo de troca e interação que chamamos educação e amor. Houve um período em que Arthur estava sem consciência alguma do seu importante papel dentro da casa do pai, deixando tudo muito desorganizado. As constantes brigas e discussões foram queixas que ouvi de Arthur e também de Cris. Eles não se entendiam nesse ponto. Pedi a Paulo que os atendessem. Paguei seis sessões de terapia para Arthur. Paulo conversou e me garantiu que Arthur é um menino ótimo. Mas claro, é adolescente. Normal a bagunça. Mas o fez ver que ele é parte de uma engrenagem chamada lar. Precisa contribuir mais. E que ser grande e ter independência tem contrapartidas. Mas Paulo percebeu que também precisava conversar com o pai do menino. Lá foi Cris também para uma sessão. E Cris me contou que Paulo ofez ver o quanto era militar em casa e com seu filho. Assim, eu, daqui, estava atenta e participativa.
Isso diminui minha sensação de culpa de estar longe. Mas eu sei que ele está com quem o ama tanto quanto eu. E ele sabe que estou aqui por mim e por ele. Meu futuro melhor garante a ele também um futuro melhor.
Arthur veio à Braga em 2016. Passou 47 dias comigo. Foi ótimo.



 Agora chegará em meados de dezembro. Já estamos a programar sua estadia.
Gostou muito daqui. E talvez essas viagens sejam a contrapartida da minha distância. Vir sozinho para a Europa. Passou por Madri. Agora virá por Lisboa...
Cresce este menino. Cresce esta mãe.  Viver é crescer.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Porque caí - nada na vida é por acaso

Logo nos primeiros dias da minha lesão no joelho, eu fiquei paralisada numa cama e lamentando: "Oh meu Deus, mas porque isso aconteceu comigo?". Sozinha, num país estranho, blá blá blá... enfim. Eu me achei tão vítima.
Nunca, em nenhum dos meus delírios mais malucos que me tomaram a alma na hora em que decidi morar fora, eu pensava que iria perder a mobilidade num lugar em que estou sozinha.
Por isso a queda foi um motivo de grande preocupação, causou-me insônia, tristeza, etc.
Mas com a visão espiritualista desta vida, é claro que a percepção sobre a queda foi reconfigurada.
Meses depois, já bem debilitada, após uma noite de sonhos cheios de diálogos com pessoas que eu nem conhecia, acordei com parte da conversa na cabeça:
Eu fui a minha algoz. Eu passei o ano sentada, a estudar e comer. Eu não fiz um único exercício físico em um ano. Eu engordei mais de seis kilos. Eu fiz escolhas equivocadas. De que adianta querer melhorar o intelecto se eu não tiver um corpo sadio?
Eu levei bronca dormindo! E de desconhecidos!
Tudo verdade.
E não foi por falta de incentivo. A minha amiga e colega de sala, a Cris, ia nadar todo dia! falávamos de endorfina, serotonina, e das vantagens de nadar, e eu ... nada. Então eu era mesmo a culpada de estar naquela situação.

Daí fui procurar um ginásio com piscina, iniciei uma hidroterapia e também uma musculação funcional. Leve, apropriada para quem está com o menisco lesionado. Agora a minha vida mudou. Vou quase todos os dias ao ginásio de atividades físicas.
Lá no ginásio uma professora de educação física fez uma avaliação e constatou que estou com excesso de massa gorda, com pouca resistência muscular e pediu que eu mude  a dieta. Reduzi  arroz, pão e batata,  reduzi drasticamente o consumo de guloseimas (que eu exagerei mesmo, pois cá em Portugal eles são mestres em doces), introduzi mais frutas no meu cardápio e mais importante, segundo ela, estou a comer a cada duas ou três horas, nem que seja uma fruta, um chá, algo para não deixar o estômago ficar vazio.
E já há diferença mesmo no peso. As roupas começam a ficar mais confortáveis. Estava tudo muito apertado.
Há também alterações no sono, no humor. Não sei como posso ter esquecido do corpo de forma tão profunda.
Então hoje repenso minha ideia sobre a queda. Penso que foi a forma do Universo me mostrar que não vai adiantar ser doutora doente. Não vai adiantar saber muito sobre algo se ainda não sei como conservar o corpo, estrutura que me foi destinada para que o intelecto, o emocional e o espiritual se manifestem.
A queda foi reconfigurada em minha história.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Um atendimento errado e tudo se complica

Quando caí, de forma boba, não imaginei que tivesse sofrido algo grave. Mas em alguns dias procurei o hospital público de Braga, com meu joelho super inchado e sem conseguir por o peso sobre a perna. Eu fui atendida por um clínico, que nem tocou em meu joelho, apenas perguntou o que eu sentia e me encaminhou  para tirar uma radiografia. Tirei e nem vi a radiografia. Nem recebi a radiografia para levá-la comigo. No retorno ao clínico,  recebi o diagnóstico que "não quebrou: agora é repousar". Ele me deu uma receita com quatro medicamentos e depois fui encaminhada para um enfermeiro, que aplicou-me uma injeção, deu-me ainda um remédio embaixo da língua. Paguei 21 euros, fiquei quase seis horas dentro do hospital, não fui encaminhada a um ortopedista, e toda a orientação que recebi foi que deveria repousar sem tempo definido. Ele não me disse o que eu tinha. Então achei que não tinha nada grave. Fui ler sobre entorses. E fiquei dez dias de cama, em casa. Até porque meu joelho travou. Eu não conseguia estender ou dobrar a perna. E, sem orientação correta, achei que dez dias eram repouso suficiente.
Estou sozinha, a vida continua, fiz o que tinha que fazer, ir à Universidade, fazer compras, pagar contas, etc. Mancando lá fui eu. Consegui muletas, um mínimo apoio.
Confiei no diagnóstico inicial. Na verdade, eu não tinha nenhum conhecimento técnico sobre joelhos. Se o médico falou que estava tudo bem e era questão de tempo, eu acreditei e esperei.
Mas a dor e o inchaço  que não passavam, a minha perna  não estendia ou dobrava totalmente, para dormir era um sofrimento, não tinha posição confortável.  Meu corpo, que a cada dia doía num lugar diferente (claro, compensando o peso, pois só dava conta de andar mancando), demonstrou que era preciso investigar. Fui a um fisioterapeuta particular, ele fez uns exercícios extremamente dolorosos e destravou o joelho. Pediu-me que eu fortalecesse a musculatura. Também pediu que eu fizesse uma ressonância magnética e procurasse um ortopedista.
Fui ao hospital saber como ter consulta com especialista: só na emergência, novamente, naquela triste triagem.
Fui a três postos de saúde e não consegui atendimento com especialista, só havia senhas para consultas de enfermagem.
Tentei por duas vezes ter médico de família, no órgão de regulação central daqui de Braga, mas estou numa lista e ficaram de me ligar. A mesma resposta, duas vezes. Fui em novembro de 2016 e fui em agosto de 2017, já com muletas e nada.
Então acabei pagando 45 euros pela consulta de um especialista, no Hospital Privado, quase três meses depois da queda, e ele me pediu uma ressonância. Depois de procurar em diversas clínicas, achei uma mais barata, ao custo de 135 euros. O resultado foi uma clivagem horizontal no menisco medial e a necessidade de uma intervenção cirúrgica.
O primeiro especialista só opera no Hospital privado de Braga e tal cirurgia custa cerca de 2 mil euros e pode ter custos adicionais se o médico usar um determinado equipamento (que confesso, não entendi a explicação da gestora de saúde do hospital).
Encontrei outro especialista, cuja consulta foi 60 euros. Este opera em um outro hospital, em outra cidade, com custos de 1.400 a 1.500 euros, segundo ele. Passou-me exames (tudo particular), por falta do médico de família. E para mostrar os exames ao médico, teria que pagar 30 euros pelo retorno (uma semana depois da consulta).
O dinheiro está contado. O euro está em alta.
Mas enfim, esse post é para dizer que se eu tivesse tido as primeiras orientações corretas, a história poderia ter sido diferente. Conversando com amigos que já foram ao Hospital Público, já coleciono relatos parecidos. E o serviço privado de saúde está apenas preocupado em lucros. Nós, no Brasil, tivemos mesmo de onde herdar.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Braga ardeu em tristeza e incêndios ao seu redor

Esta semana vivemos uma situação de tristeza e insegurança cá em Braga e é claro, eu precisava escrever sobre o que vi e como eu me senti.
O domingo finalizou com os arredores e as estradas que circundam Braga a arder em fogo. Mas quando digo arder em fogo, não é nada do que conhecemos no Brasil. Lá há sim muitos incêndios em parques e estradas, mas não em torno de uma cidade.
Imagine florestas de eucaliptos, de árvores bem altas. Imaginou? Assim são as margens das estradas cá. Agora imagine estradas bem estreitas, onde passam dois carros bem coladinhos, imaginou? Assim são as estradas nacionais, as estradas pelas aldeias e pequenas cidades do interior. Claro que existem grandes rodovias, são as autopistas. Mas elas foram construídas após a criação da União Europeia, há cerca de 30 anos. Antes o país era interligado pelas estradas nacionais, estradas estreitas, que não cobram pedágios, que aqui se chamam portagens.
Pois bem, essas estradas vivem cheias de tráfego, primeiro porque são lindas, a gente passa pelas pequenas cidades, construções antigas, plantações de parreiras, as uvas podem ser vistas em suas diversas fases, nos quintais das casas. Agora mesmo é época da colheita e as aldeias estão lindas. Mas há longos trechos de plantações de eucaliptos. As aldeias são rodeadas de plantações de árvores que se prestam a virar papel e lenha.
Esse último verão foi quente. Havia meses e não chovia. Eu mesmo viajei diversas vezes, pois fui para Barcelos, Esposende, Apúlia, Póvoa do Lanhoso, Parque do Gerês... enfim, eu vi a estrada e sua situação.
Neste domingo aconteceu algo que eu nunca imaginei. Eram 15 horas e vimos uma névoa estranha na cidade, e logo se soube que havia incêndios nas estradas.

Eu fui encontrar amigos por volta das 17 horas, e dava para ver pontos vermelhos nas montanhas. Ficamos em um bar fechado, todos conversando e éramos um grupo grande, estávamos a comemorar o fato de ser dia do professor e somos quase todos professores no Brasil, viemos para mestrado e doutorado nas mais diversas áreas.
Saímos do local era 21 horas e tivemos uma triste surpresa, todo o céu estava avermelhado.
A névoa havia virado fumaça. Respirar era complicado, víamos o fogo em labaredas pros lados das montanhas onde ficam os Santuários do Sameiro e do Bom Jesus, duas lindas referências de Braga. Soubemos que muitos moradores dos bairros de Falperra, Nogueiró, Tenões (onde eu morei), Lamaçães e outros, já não podiam entrar em casa, os locais estavam sendo evacuados, havia casas pegando fogo. A fumaça já fazia vítimas também, eu mesmo fiquei com a garganta ardendo, olhos lacrimejando e uma dor estranha na cabeça.
Soubemos que as estradas que ligam Braga à Povoa do Lanhoso e à Guimarães estavam ardendo e havia gente que perdeu a vida em carros pulverizados.
Que triste.


A cidade foi tomada por uma sensação de inconformismo, de inoperância do governo, pois há cerca de três meses aconteceu o incêndio de Pedrogão onde morreram mais de 60 pessoas.
Fala-se cá que esses incêndios são fogo posto, gente que, querendo ou sem querer, põe fogo para que as florestas queimem, boa parte são pessoas desatentas que jogam seus restos de cigarro sem prestar atenção onde, ou ainda pessoas alcoolizadas que sentem prazer em atear fogo e ver os vizinhos perderem tudo, ou ainda investidores em função do preço da madeira, que mandam queimar áreas inteiras...
Este ano mais de 50 pessoas foram presas acusadas de fogo posto nas florestas, em todo o Portugal.
Há investigações, inquéritos, para saber de quem é a culpa. Os jornalistas acham que o fogo posto é uma espécie de terrorismo capitalista. Muita gente morre sem motivo, por manter-se uma floresta sem diversidade mas que gera renda, pois papel, lenha, são a base da manutenção dessa enorme floresta em todo o norte de Portugal. Por causa dela, inocentes perdem casas e tudo o que têm.
Há quem diga que o governo de Portugal precisa tomar medidas urgentes para melhorar a questão ambiental e demarcar as plantações de eucaliptos que são de fácil combustão. Limpar melhor as margens das florestas e estabelecer distância maior entre as florestas e as aldeias.

O certo é que o clima está cada vez mais quente, e ano a ano, os incêndios têm feito muitas vítimas dessa floresta sem diversidade, dessa floresta de lenha. Há ainda pesquisas que indicam que os incêndios sejam, na verdade, resultado da auto-combustão dos óleos voláteis libertados pelo eucalipto, especialmente em dias muito quentes, e em locais com muita concentração da planta.
Nós, no Brasil, não valorizamos nossas matas diversas, nossa vegetação tão diversificada, mas creia, cá a paisagem é uma só e cansa a visão. Cansa também saber que é essa vegetação de monocultura, de uma única planta, que causa tamanha tragédia, que destrói muitas vezes o pouco que a população mais pobre do interior possui, e que causa tamanha tristeza no país inteiro.

sábado, 14 de outubro de 2017

Sexta-feira 13 de terror em Montalegre

Lá fomos nós, eu e um grupo de amigos, para a cidade de Montalegre, para viver uma noite de sexta-feira 13 numa cidade a 77 km de Braga, por conta de toda a propaganda que a cidade faz em torno da festa.
A propaganda pode ser vista neste link. É mesmo uma propaganda fantástica. A cidade toda enfeitada, os moradores a vivenciar o clima de fantasias do terror.
Mas é preciso muita paciência e logística para dar conta da festa. Eu vivi a pior sexta-feira 13 de minha vida (até o momento). Sem superstições, penso que foi uma noite que tinha tudo para ser agradável e engraçada e foi um caos. Já na estrada, na entrada da cidade, um engarrafamento como nunca tinha visto em Portugal. Ficamos mais de uma hora andando e parando. E descobrimos que todos estavam parando os carros na estrada. Mas eu estou com a perna ainda machucada, andando com tensor reforçado e muletas, quando em declives e aclives, e isso não nos permitia por o carro na estrada. Mas ao chegarmos no acesso ao centro da cidade, nos deparamos com a polícia a impedir o acesso e o jeito foi parar no acostamento. Sem saber a distância, lá fomos nós, caminhando. A cidade fica num buraco e tivemos que descer por 2 km uma super ladeira. Eu, com muita dificuldade, imaginava que iríamos de carro, que não teria que andar tanto. Amigos me ajudando e amparando, chegamos ao centro. A temperatura em Braga estava 20 graus. Quando chegamos em Montalegre, estava 10 graus. Todos com muito frio, pois os nossos casaquinhos não suportaram a brusca mudança.
A festa era muita gente e nenhum lugar para sentar.
Saímos da área da festa para um restaurante perto para tomar sopa e havia um grupo de Bombeiros Voluntários. Minha amiga Karla explicou a situação a um deles que logo se mostrou prestativo e me levou no carro dos bombeiros de volta aonde estava nosso carro. As meninas tiveram que voltar andando todo o percurso e no frio. E na volta enfrentamos novo engarrafamento. Chegamos cansadas, sem ânimo, nossas fantasias de bruxas pareciam tão fora da proposta...
Da festa, concluí que há muita propaganda e ela é eficiente. Atrai um mundo de gente, mas a cidade não está preparada para toda a população que atrai.
Eu não volto mais numa sexta-feira 13 à Montalegre, muito embora tenha achado a cidade bonita, espero voltar de dia, em dia normal, pois me encantou a paisagem.
Hoje, com dores na perna doente e no outro lado do corpo por compensar tanto em um declive, penso que é mesmo um risco ir a um lugar sem conhecer nada sobre ele, mas não há nada que diga que o acesso é tão complicado. Por isso esse registro, para que quem intencione ir, pense nas alternativas
mais viáveis para enfrentar tal maratona.