quarta-feira, 23 de setembro de 2015

As grades dos relacionamentos doentes

As vezes precisamos atuar em situações de conflito, em vidas alheias, que nos faz pensar muito sobre o que é felicidade.
Minha mãe tem um sobrinho afilhado, o Márcio, que, de quando em quando, somos chamadas a ajudar em algumas questões importantes da vida dele.
Menino abandonado pela mãe, ele foi criado por minha avó materna até os treze anos, quando ela morreu e depois ele ficou até os 15, em diversas casas, até se tornar responsável por si. Foi ser caseiro de propriedades, onde muito embora não tenha aprendido nada significativo, tinha teto e terminou o segundo grau.
Acho que ele sempre buscou uma 'mãe' em seu imaginário e aos 17 anos, ele se apaixonou por uma mulher duas décadas mais velha que ele, já com dois filhos. Virou marido antes mesmo de virar adulto. E assumiu muitas responsabilidades.
Ele foi bom marido por um bom tempo. Até querer ter seus próprios filhos e ela não podendo mais, ele teve uma filha fora do casamento, há quase cinco anos. Ela perdoou, virou uma segunda mãe da menina, aos finais de semana, quando ele tem a guarda da criança.
Uma filha fruto de uma relação extra-conjugal resultou em confiança quebrada, e as brigas começaram.
Eu morava longe e observava tudo de fora, mas com a vinda para Salvador, tive mais oportunidade de encontrar o casal.
E em todos os nossos encontros, era obrigada a participar de uma sessão terapia, onde acabavam me contando em detalhes como a relação estava deteriorada. Eu observava um homem de 37 anos agindo como adolescente. O whats app e a internet trouxeram um universo ainda mais complicado para o casal. Sites de relacionamento, namoradas virtuais e falta de respeito.
Eu ouvia, tentava aconselhar a cuidarem um do outro com respeito, com consideração, pois via que isso era o mais complicado. E muitas vezes argumentei que a separação pode ser mais feliz que a união estável dotada de infelicidade.
Ela dizia claramente que não dava conta de ficar sozinha. Ele dizia que ela não o deixava ir embora.
As questões financeiras, uma única casa, tudo prendia aquelas almas.
Mas ontem eu soube que ele comprou uma passagem de avião. Largou casa, largou tudo.
Falou que estava desesperado. Que não suportava mais a relação, que vivia triste. E foi. Conheceu uma moça, da idade dele, em outro estado, que o acolheria. E foi, cheio de novos planos.
Em um primeiro momento eu o achei maluco.
Depois eu compreendi o quanto o menino ainda está lá, menino que foi obrigado a crescer e não viveu nada de menino, de adolescente e de homem jovem.
Ela me ligou arrasada. E eu só pude dizer para ela se cuidar, se olhar, se amar, porque ela foi também suportando humilhações que a deixaram tão insegura, a ponto de suportar viver com alguém que não a amava mais.
Passei parte da noite pensando naquelas almas em conflito. Nos sentimentos de medo e tristeza que deveriam estar no coração dela. Nos sentimentos de liberdade e expectativa do coração dele.
Porque ainda somos tão pouco evoluídos em nossos relacionamentos, nós, humanos?
Fiquei lembrando de quando estive em Cuba e conheci Yadira e José. Um casal separado que se dava muito bem. Ao final do amor, tinham se separado e o governo tinha mantido Yadira na casa maior, com a filha do casal e dado a José uma casa menor para ele viver. Eles não brigavam por causa de pensão, de escola, de nada. O sistema permite que a menina estude em boa escola, que tenha todas as ferramentas para ser bem educada. Os dois viraram amigos. Naquele ano, festa da revolução, em 01 de janeiro de 2009, passei meu revellion com eles, todos juntos, brindando um novo ano. E compreendendo como casais as vezes forjam grades em relacionamentos doentes, muitas vezes por conta de posses, com medo de se separar para não ter que dividir o que tem no nosso sistema capitalista.
Mas no caso do Márcio, o moço que ontem resolveu se libertar, a prisão era por falta de dinheiro, por falta de condições. O capitalismo também amarra em grades, os casais pobres.
Eu fiquei em um redemoinho de sentimentos. Porque acho que gente nasceu para ser feliz, e ele está correndo atrás disso. Mas eu sei que ela deve estar vivendo um pesadelo duplo, abandonada e sem profissão. Como os dois filhos dela estão criados, sei que não estará desamparada materialmente, mas há um abandono de alma que precisa de cuidados.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Meu pertencimento acadêmico

Rever meus amigos da UESC me fez pensar em o quanto o local que trabalhamos interfere em nosso bem estar. Estar entre pessoas generosas, alegres, que torcem umas pelas outras, é sempre o ambiente ideal de trabalho.