sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Porque caí - nada na vida é por acaso

Logo nos primeiros dias da entorse de ligamento de joelho, eu fiquei paralisada numa cama e lamentando: "Oh meu Deus, mas porque isso aconteceu comigo?". Sozinha, num país estranho, blá blá blá... enfim. Eu me achei tão vítima.
Daí um dia, após uma noite de sonhos cheios de diálogos com pessoas que eu nem conhecia, acordei com parte da conversa na cabeça:
Eu fui a minha algoz. Eu passei o ano sentada, a estudar e comer. Eu não fiz um único exercício físico em um ano. Eu engordei mais de seis kilos. Eu fiz escolhas equivocadas. De que adianta querer melhorar o intelecto se eu não tiver um corpo sadio?
Eu levei bronca dormindo! E de desconhecidos!
E não foi por falta de incentivo. A minha amiga e colega de sala, a Cris, ia nadar todo dia! falávamos de endorfina, serotonina, e das vantagens de nadar, e eu ... nada. Então eu era mesmo a culpada de estar naquela situação.

Daí fui procurar uma hidroterapia, após indicação de um profissional, também uma musculação funcional. Agora completa um mês que minha vida mudou. Vou quase todos dias ao ginásio de atividades físicas.
Lá no ginásio uma professora de educação física fez uma avaliação e constatou que estou com excesso de massa gorda, com pouca resistência muscular e pediu que eu mude  a dieta. Neste um mês, procurei não comer arroz nem batata, estou a diminuir o consumo de pães e guloseimas (que eu exagerei mesmo, pois cá em Portugal eles são mestres em delícias do pão), introduzi mais frutas no meu cardápio e mais importante, segundo ela, estou a comer a cada duas ou três horas, nem que seja uma fruta, um chá, algo para não deixar o estômago ficar vazio.
E já há diferença mesmo no peso. As roupas começam a ficar mais confortáveis. Estava tudo muito apertado.
Há também alterações no sono, no humor. Não sei como posso ter esquecido do corpo de forma tão profunda.
Então hoje repenso minha ideia sobre a queda, sobre a entorse. Penso que foi a forma do Universo me mostrar que não vai adiantar ser doutora doente. Não vai adiantar saber muito sobre algo se ainda não sei como conservar o corpo, estrutura que me foi destinada para que o intelecto, o emocional e o espiritual se manifestem.
A queda foi reconfigurada em minha história.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Um ano em Portugal

Esta semana completou um ano que estou a residir em Braga, ao Norte de Portugal. Uma amiga, que mora na Itália, questionou porque escolhi Portugal, logo que a comuniquei, e disse-me com todas as letras, que era uma escolha equivocada. Mas eu tenho muito a comemorar neste um ano.
Para quem me pergunta, o fato de ter escolhido Portugal para o meu doutorado, lembro do meu percurso e da minha necessidade:
Como todo professora de uma universidade, eu fui obrigada a buscar qualificação. Para quem não sabe, um curso só é bem avaliado pelo MEC, Ministério da Educação, se todos os professores daquele curso, forem bem qualificados. Então somos todos obrigados a fazer doutorado, pós doutorado, enfim, professor tem que estudar a vida toda. Então eu já tinha onze anos de concursada e estava esperando meu filho crescer, antes de me aventurar a fazer um doutorado. Eu precisava encontrar um bom programa de doutorado na área de fotojornalismo e semiótica, que é a área que eu estudo. Fora da Bahia, eu encontrei um em Santa Catarina, outro no Rio de Janeiro e também em São Paulo. Mas depois de analisar os prós e os contras de uma mudança de vida dentro do Brasil e de relatos de colegas que estudaram fora do Brasil, eu achei que a contrapartida de viver em um outro país seria interessante. E nesse estudo, nessa análise, eu acabei escolhendo ter uma experiência em Portugal por três grandes motivos:
1. Proximidade linguística, afinal escrever uma tese em outra língua é duplicar o desafio de tese.
2. Conhecer o colonizador. Eu sempre quis entender um pouco mais de Brasil e penso que vir a Portugal seria fazer um caminho às avessas.
3. Custo de vida reduzido. Eu vim sem bolsa, então eu tinha mesmo que buscar viver com pouco (salário de mestre, seco, retirado todas as ajudas de custo, inclusive auxílio saúde).

Eu fiz seleção em três universidades portuguesas. E passei nas três. Mas escolhi a Universidade do Minho, sediada em Braga. A UMinho está entre as melhores universidades jovens do mundo, pelo ranking Times Higher  EducationYoung University Rankings. Pelo quinto ano consecutivo, a UMinho está entre a elite mundial num dos mais prestigiados rankings internacionais. Esse ranking contempla um novo grupo de instituições universitárias de topo que, num curto período de tempo, atingiram um nível global de excelência em ensino, investigação, inovação e internacionalização. É uma lista com instituições com menos de 50 anos de idade.

Eu soube da UMinho, porque a Universidade em que eu sou concursada, a UFRB, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, tem convênio internacional com a UMinho na área de Educação. Muito embora não tenha em Ciências da Comunicação, que é o Programa em que eu passei para cursar. Cá na UMinho eu faço parte de uma turma de doutorandos, com oito alunos, onde tem três portugueses, quatro brasileiros e um nepalês.

Eu acabei escolhendo a UMinho também porque ela está sediada numa cidade muito interessante: Braga.
Braga é a cidade mais importante de uma grande região ao Norte. Perto da Espanha, a 80 km de Vigo, na Galiza. Braga está a 48 km da cidade do Porto, a segunda maior cidade de Portugal, depois, claro, da capital, Lisboa.

Braga é relativamente pequena, tem cerca de 180 mil habitantes, mas tem tudo que uma cidade grande tem, menos aeroporto perto. O aeroporto mais próximo, está na cidade do Porto.
Fora isso, Braga não deixa nada a desejar. Tem estação de trem, que liga Braga às maiores cidades e de lá para toda a Europa. E tem serviço de ônibus para a maior parte das cidades portuguesas. E o próprio serviço municipal de ônibus é bem organizado. Atrasa muito pouco.

Braga tem bons shoppings. Tem vida noturna, é uma cidade muito cultural. Tem eventos durante todo o ano. E o mais importante para uma estudante brasileira com  pouco dinheiro é que Braga tem um custo de vida acessível para quem não vive de luxos.

Toda pessoa que fala tem o seu lugar de fala. As experiências que nos marcam, elas são vividas pelo olhar que temos sobre elas, não é verdade? O meu lugar de fala é de alguém que veio para aprender.
Para vivenciar, além de todo o conteúdo dado na Universidade, viver também a experiência de estar fora do meu país, logo, fora da minha zona de conforto, de estar em país do colonizador, de estar em País que faz parte da comunidade internacional mais importante atualmente no mundo, a União Europeia. E nesse um ano, penso que vivi de forma muito interessante, pelo olhar estrangeiro, o quanto Portugal é um país encantador.