segunda-feira, 24 de outubro de 2016

É tudo novo de novo

Dois meses cá. Dois longos meses...
Sabemos que mudar de casa dá trabalho, de cidade mais ainda, exige-nos um esforço grande em adaptação. De Estado então... mudei para Mato Grosso, depois Mato Grosso do Sul, fui parar no Rio de Janeiro, depois em Pernambuco com Bahia... sei bem que temos a Unidade BR mas no fundo temos cá nossas diferenças dentro do mesmo país.
Eu já viajei pela América do Sul e Central, tive experiências interessantes nos países de língua espanhola, mas nunca tinha saído de mala e cuia, para morar fora. Don´t is easy!
O primeiro grande impacto em terras portuguesas: a língua.
Pasmem! no início, eu não conseguia entender 70% do que falavam os portugueses. Aqui no norte do país, além de fonemas muito abertos, eles falam muito rápido. Há a supressão de muitas letras na pronúncia. Então eu me vi sem entender o que diziam os condutores de autocarros (motoristas de ônibus), não conseguia compreender a atendente do mercadinho, enfim... nos primeiros dias tudo era complicado.
E as primeiras aulas e palestras? acompanhar o raciocínio dos palestrantes e professores, que difícil.
Porque há palavras de sentidos diferentes do nosso, nos confunde, nos tornam lentos para assimilar e responder.
Pior, somos, nós brasileiros, altamente metafóricos e eles não. Os portugueses são literais. Então se eu digo em uma frase: perdi o autocarro, dancei! ele te olha com um olhar reprovador e diz 'não dançaste, como dançaste, desculpa lá, mas estás parado'.
E você fica em uma diálogo sem nexo. Aconteceu todo tempo comigo. Então controlar nossas gírias, nossas metáforas, é obrigatório.
Outra questão da linguagem: falamos uma língua tosca, com muitos erros grosseiros para os portugueses, que primam no uso da concordância verbal e no uso dos pronomes. Pois bem, falamos 'brasileiro' (segundo eles) e com isso é muito fácil encontrar quem nos trate mal após ouvir nosso 'sotaque' tupiniquim.

Também por ser mulher brasileira, vi muitas expressões estranhas no rosto de quem me ouvia em lojas, em restaurantes. Ninguém me olhava, até eu abrir a boca e falar 'brasileiro'... então os olhares de curiosidade e uma expressão nova para mim, um olhar de cima a baixo, para minhas roupas, como se quisesse saber da minha alma. Nunca tinha vivido isso.

Cá em Portugal, muitas brasileiras vieram para prostituição e ao sentir esse olhar estranho, nos damos conta dos preconceitos.
Um dia um senhor idoso ficou me olhando com um olhar muito invasivo. Penso que ele só não me perguntou por quanto eu faria um 'programa' porque eu estava com a cara muito fechada, feia mesmo.

Por isso,  eu ando mais calada que nunca, em terras portuguesas. Falo só o necessário. Penso que temos um tempo para deglutir tantas diferenças. Dois meses. E eu ainda sob impacto de tantas mudanças.
É tudo novo, de novo, nessa minha vida.






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