terça-feira, 9 de agosto de 2016

Pelas Lentes do Recôncavo, Um Recôncavo de Possibilidades

Foram meses reunindo textos, selecionando fotos, trabalho de correções, organização de documentos e autorizações para a editora, e cá estão eles, os dois livros que celebram os dez anos da UFRB em Cachoeira.







Fiz parte da Comissão de Organizadores e formamos uma equipe afinada e muito cheia de vontade de fazer bem feito: Eu, Gaio, Wilson e Sílvio. E claro, a boa vontade de Prof. Sérgio Mattos, da EdUFRB, que mesmo na crise, garantiu a impressão.

As coletâneas reúnem mais de 30 autores, com seus artigos e ensaios e 30 fotógrafos, todos da comunidade UFRB, entre docentes, discentes, técnicos e egressos.



No dia do lançamento, que fizemos com muitas ações compartilhadas, foi uma festa! pura alegria nos discursos, nos encontros, no orgulho de ver que os livros ficaram bonitos, com uma qualidade inspiradora. Agora é torcer que venham mais dez, mais vinte anos de UFRB e com eles, mais livros e mais conhecimento. Ariel e Igor Sky cantando músicas lindas, DJ Anderson Bio animando, e todo mundo no clima de confraternização. Uma bela forma de finalizar o semestre.  



domingo, 3 de julho de 2016

Passo a passo na burocracia

Estudar fora. Participar de uma seleção. Organizar documentos. Eu não tinha ideia de como era esse processo e confesso, fiquei assustada com tanta burocracia.
Eu me formei em 1997. Um Diploma de uma Universidade Federal (MS), que foi usado para seleções públicas, concursos, mestrado. Nunca duvidei da autenticidade do meu diploma nem da importância dele, guardado com cuidado nestes quase 20 anos. Pois bem, não é que para participar de uma seleção de doutorado em Portugal, eu precisei reconhecer firma de cada assinatura do meu diploma (reitor, secretários, pró-reitor de graduação daquela época)! e também nas assinaturas do histórico e ainda no diploma e histórico do mestrado, que foi em 2005, em Ilhéus, na UESC. E fiquei me perguntando como documentos validados por instituições federal e estadual podem precisar ser 'autenticados'?
E esse foi só o começo, pois depois de autenticados em cartório brasileiro, lá fui eu validar cada um deles, no Consulado Português. Processo caro. Cada documento custou R$66,00! Não fica barato organizar a documentação.
Enviei as candidaturas e esperei, para prosseguir no processo. Em média esperei um mês pelos resultados e passei nas três seleções que fiz. A decisão mais difícil: ir para qual universidade, para qual cidade (pois eram três cidades diferentes em três programas doutorais de áreas diferentes: Sociedade, tecnologias e cultura - em Lisboa; Ciências da Comunicação em Braga; e Educação (multimedia) em Aveiro.
Escolhida a Universidade, imprimi carta de aceite e fui em busca do visto de estudante. Novos documentos, diversas declarações. Tudo o que foi assinado por mim, tive que reconhecer firma e tudo o que foi assinado por outros, também. Não aceitam declarações de internet, como por exemplo, o de antecedentes criminais. Precisa ser solicitado na PF e reconhecer firma do delegado que assinar.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Caminhos do Doutoramento

Desde que terminei o mestrado, em janeiro de 2005, jurei para mim mesma que só faria doutorado se tivesse a sorte de encontrar outro orientador como o da graduação, meu Mestre Doutor Jorge Ijuim ou como meu Doutor amigo Alexandre Schiavetti, do mestrado. Explico: por mais complicado que seja escrever e pesquisar para produzir conhecimento, quando somos bem orientados, sabemos exatamente onde estamos indo e isso nos fortalece.
Mas também jurei fazer algo que me desse prazer e que fosse de retorno social, como acho que foi o livrinho da graduação, O Fotojornalismo: Informação, Técnica e Arte, que duas universidades assumiram como livro da Bibliografia Básica, em 1998. E também, de menor impacto, mas importante, a história ambiental e o registro estatístico das RPPNs no sul da Bahia, em meu mestrado.
Por isso minha insistência em cursar disciplinas da FACED, na UFBA, e do PPGEDUC da Uneb, como aluna especial, na esperança de conhecer um professor que me encantasse e topasse me orientar, acreditando que a área de Imagem, da qual sou apaixonada, pudesse somar para a área da Pedagogia. Infelizmente isto não aconteceu, muito embora tenha encontrado professores maravilhosos nesta caminhada. E que muito acrescentaram em minha vivência como professora universitária.
No ano passado, pela felicidade de ser a primeira liberada por quatro anos para o doutorado em meu colegiado, tomei coragem e fui pesquisar fora da Bahia, os programas que mais trabalham com imagem. Achei na UEL, Londrina, mas mestrado, na PUC SP, na UFF, Niterói e em Santa Catarina. Fiquei analisando o trabalho que daria ir morar fora da Bahia por quatro anos e vi que não ia ser fácil. Mudança, aluguel, adaptação, etc. E sem nenhum tipo de contrapartida cultural.
Depois de saber de algumas amigas que tinham feito sanduíche ou doutorado integral em outros países, eu me animei. Pois se era para mudar e ter trabalho, que ele fosse justificado pela contrapartida de conhecer algum lugar distante, interessante e culturalmente rico.
Pois bem, comecei a pesquisar, ver as questões de validação de diploma, o nível das universidades, lembrando que eu já tinha pesquisado sobre  isso quando estive em Buenos Aires e em Montevidéu, por  gostar das cidades, mas não havia gostado dos programas doutorais.
É estranho como temos uma forte herança portuguesa, mas pouco conhecemos sobre Portugal. Apesar de ter como referência na minha área um autor português, o Professor Dr. Jorge Pedro Sousa, que escreve muito sobre Fotojornalismo, eu pouco sabia sobre a qualidade das universidades ou de vida nas pequenas cidades daquele país. Apenas sabia curiosidades sobre Lisboa e um ou outro detalhe por amigos que sempre a visitam.
Depois de extensa pesquisa, fui ler os programas doutorais e me surpreendi. Gostei particularmente de  três e me inscrevi. Fui selecionada nos três, fiz a escolha tendo em vista o ranking da universidade, as linhas do programa e a qualidade da cidade, que está entre as melhores cidades a se morar na Europa.
Ainda não sei quem será meu orientador. Já identifiquei alguns docentes que trabalham com imagem e rogo ao universo que eles sejam meus professores e que sintam simpatia por minhas temáticas de pesquisa.
Tenho pesquisado sobre pose e empoderamento, gordofobia e gerascofobia, selfie, nudes, etc. Mas não descarto enveredar-me por outros caminhos de pesquisa. Também imagem, filosofia e educação me dão forte motivação, retomando Flusser.
Agora estou na expectativa de organizar documentação e ir em busca dessa realização, um doutorado em minha área de atuação, com um orientador que seja fraterno e generoso. Espero voltar aqui para contar o fim dessa saga.



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Novela da vida real

Fui ao INSS para pegar uma certidão de tempo de serviço para averbar em minha instituição, já que comecei a trabalhar ainda muito jovem e depois de dez anos em órgão público, é hora de somar e saber quanto de tempo eu já tenho de contribuição à previdência pública.
Agendei há exatos cinco meses e lá fui eu, 45 minutos antes da hora marcada (capricórnio me governa, como perco tempo estando sempre adiantada ou no horário!). Ao chegar, como sempre costumo fazer, observo o ambiente com discrição, mas imaginando as histórias de vida de alguns rostos expressivos ou quando algum fato me chama a atenção para um determinado personagem.
Eu tomei consciência do que significa previdência, quando me deparei com tanto idoso, gente com aspecto de acidentado, com muletas, curativos, andando com dificuldade e para diminuir um pouco o peso da energia reinante, havia mulheres grávidas e outras com crianças de colo.
Sim, todo mundo em busca de seus benefícios.
Duas mães me chamaram a atenção. A mim e a todos. Por isso relato aqui os dois episódios.
A primeira mãe chega com dois meninos. Um maior, com uns sete anos e o outro, com menos de quatro.   O maior ficou na dele, arrastando um carrinho no chão. O menor,  já chegou choramingando, grudado na roupa da mãe, que andava com certa dificuldade, e dizia: não quero entrar, vamos para casa. Ela sentou-se em frente à recepcionista da triagem e enquanto ela explicava uma determinada situação, a voz dele passou a ser mais alta e o choro mais intenso, e os gritos imperativos do menino para ir embora dali. Ela calminha, nem dava bola, ou acariciava ele e dizia para ter calma. Vi todo mundo começar a ficar incomodado. O menino já berrava, puxava a roupa da mãe, já dava para ver a barriga. A sensação era que ele rasgaria a roupa da mãe. E ela educadinha. Nos rostos das pessoas eu ia lendo uma certa indignação, como se faltasse punho da mãe. Havia desaprovação geral com relação ao comportamento do menino. Até que a atendente pediu diretamente ao menino que se comportasse. Como se a mãe nem estivesse ali. Ele nem deu bola.
Já rolava mais de cinco minutos de berros, quando essa mãe se virou devagar, ajeitou a bolsa e deu uns tapas no guri e disse: 'olha aqui, rapazinho, você não se comanda. Eu estou operada, me respeite, daqui a pouco nós vamos, cale a boca e se comporte. Tá pensando que eu não bato só porque tá na rua? quem quiser que fale mal de mim. Menino mal educado!'. Vi que todo mundo mudou a expressão. Havia um olhar de aprovação em todos aqueles velhinhos ali. A atendente disse 'calma mãe, é só uma criança'.
Confesso que eu senti um alívio por esta mãe. Ela agiu na hora certa e muito embora não seja permitida palmada, discursos de violência à parte, eu achei que era preciso estabelecer limite e ela o fez, mostrou que não criava de qualquer jeito. E eu fiquei pensando na hipocrisia de uma sociedade que não sabe o limite entre violência e educação. Não queremos palmadas. Mas como aquela mãe poderia ou deveria se comportar?
A segunda mãe entrou silenciosa,  trazia um bebê no colo, acordado mas quietinho, sentou-se afastada. Olhei para ela e para seu bebê. Era um bebê com a cabeça pequena, de formato diferente. Uma vítima da microcefalia. Vi que muitas pessoas a olhavam.
Fiquei observando os olhares. Eles refletiam pena e curiosidade. Vi que pessoas acompanhadas comentavam entre si. Fiquei pensando no quanto essa mãe deve enfrentar isso no dia a dia. E em que tipo de energia isso se reflete para ela e seu bebê.
Ela era prioridade e logo foi para outro setor. Quando fui chamada também para este novo setor, vi que ela dava de mamar ao bebê e após algum tempo, ela o beijava, com carinho, brincava com ele, sem se importar com nada. As pessoas olhavam e havia olhares de admiração, de aprovação e de carinho. Olhares mais tranquilos. Novas energias no ambiente. E eu vi ali o sentido da maternidade, da proteção e do amor mais profundo que uma pessoa é contemplada quando se é mãe de alguém.
Conto os dois fatos, enquanto dramas reais de duas mães e do social em volta. Desta que tem a tarefa mais árdua, de educar, criar a sociedade do futuro. Daquela que constrói a cada momento o destino da humanidade. A sociedade não valoriza suas mães. Elas são vítimas de julgamentos de todo tipo, desta novela que é a vida real.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Evolução e a ética hacker no mundo atual, um breve apanhado

Esta semana reli o livro do Pekka Himanen, sobre a ética hacker. Gosto muito dessa obra e vale registrar as impressões. O mundo assiste ao crescente da produção de programas de computadores (os softwares) a partir de construções coletivas, onde diversos tecnólogos entusiastas (programadores), denominados Hackers, doam tempo e conhecimento, em prol da evolução desses softwares. Eles estão em todos os lugares do planeta onde há redes de computadores, falam línguas diversas, tem culturas diferentes e já atuam há décadas, sempre de maneira coletiva. Esses programadores criaram o movimento do software livre e um sistema operacional que disputa com as mega-gigantes Microsoft e Apple, seus usuários. Estou falando do Linux, e da ação conjunta de pessoas unidas por uma causa, que trabalham em horários alternativos para que sistemas operacionais e programas sejam cada vez melhores e distribuídos para mais pessoas. 
A análise dos métodos de trabalho, da cultura e do comportamento desses grupos Hackers tem gerado muitos estudos. Li VLEF, do Tiago Melo, há alguns meses e ele fala muito desse universo. Também é sobre inteligência coletiva e algumas peculiaridades de comportamento e valores dos hackers, que Pekka Himanen trata em sua obra. 

O livro tem três partes, assim divididas: A ética do trabalho; a ética do dinheiro e a ética da rede. Os temas são desenvolvidos em sete capítulos, que traçam um paralelo entre a ética protestante e o espírito do capitalismo (com base na obra de Max Weber, escrita em 1904) e a ética dos programadores com este espírito cooperativo de rede, na era da informação. O livro tem prefácio de Linus Torvalds e posfácio de Manuel Castels. A versão em português tem uma capa com ilustração estranha, já que o livro não trata dos crackers ( os programadores que invadem sistemas) e mais, utiliza um segundo subtítulo ‘a diferença entre o bom e o mau hacker’, que em momento algum é tema da obra. A capa, em português, parece um atrativo para vender o livro, em contraposição à divulgação da grande mídia que teima em associar a palavra hacker aos processos ilícitos que acontecem na internet.

O prólogo de Linus Torvalds, criador do Linux, é uma explicação sobre as forças que contribuíram para o êxito do hackerismo. Com a ‘Lei de Linus’, Torvalds estabelece as três categorias de motivações que nos levam a um processo evolutivo na vida. Pela ordem, o autor nos apresenta a motivação da sobrevivência, básica a qualquer ser humano. Em seguida, a nossa vida social, que nos leva a querer ser aceitos, viver em sociedade e até, em um extremo dessa motivação, a morrer pela pátria. Por fim, a terceira motivação seria o entretenimento, definido como exercício mental extremamente interessante e capaz de plantar desafios. Para ilustrar seus argumentos, ele exemplifica o extremo da terceira motivação: alguém que pula de pára-quedas e põe em risco a própria vida (em contraposição à motivação da sobrevivência), está buscando um desafio para não morrer de tédio.

Dinheiro, sexo, comida, guerra... para o autor do prólogo, tudo isso interfere na sobrevivência, se for só para manutenção do homem, mas na atualidade, envolve processos sugestivos que desafiam o ser humano, e por isso estão classificado como entretenimento. Ganhar mais dinheiro do que se possa gastar, fazer sexo sem necessidade de procriar, a gastronomia enquanto hobby ou a guerra enquanto conquista televisionada em nível internacional, se transformaram em ‘jogos’.

Por fim, Torvalds analisa os hackers e sua motivação para o trabalho que desenvolvem. Criar um programa proporciona grande entretenimento e ainda se alcança repercussão social (segunda motivação).

Pekka Himanen inicia a primeira parte do livro com uma análise sobre a ética dos hackers no trabalho. Para um hacker, o computador é pura diversão, cujo processo de programação envolve ludicidade e excitação. O desejo de continuar aprendendo também os motiva, é como dominar a máquina, e programar se torna um estilo de vida apaixonante. O autor encontrou paixão igual no processo de aprendizagem que envolvia Platão e seus discípulos, os artistas, artesãos, pesquisadores e aqueles que trabalham com meios de comunicação.

Himanen não fala sobre ética individual dos programadores, mas sim do comportamento em rede, que põe em juízo a ética protestante de trabalho, que há tempos vigora na sociedade capitalista e exerce influência em nossa vida.  Há mais de cem anos Max Weber  (1864-1920)  descreveu a noção de trabalho no espírito capitalista. A obrigação de ter uma profissão, com horários e regras determinadas e retorno financeiro que permita a sobrevivência. O trabalho como vocação, fim absoluto em si mesmo. Himanen cita autores que escreveram sobre o trabalho (principalmente autores ligados à religião) e faz um contraponto entre o trabalho em rede colaborativa. O Hacker trabalha sem horário fixo, sem a pressão do patrão exigindo resultados, sem visar o lucro ao final da tarefa. E mesmo sem essas pressões, há disciplina, motivada pela paixão em obter resultados que o tornem reconhecido por seus pares. Para o autor, a lógica dessa ética está justamente em burlar o já conhecido comportamento vigente no capitalismo.

No segundo capítulo, a relação do tempo dedicado ao trabalho na ética protestante é comparada ao uso do tempo no universo hacker. Se tempo é dinheiro, é perda de tempo se dedicar a um trabalho sem remuneração? A relação com o tempo dedicado ao trabalho, na ética protestante, se limita à obrigação de trabalhar em horário pré-determinado em horas e dias, pois trabalho é sacrifício. Na era da informação, o tempo ganhou uma racionalização ainda maior, pois a velocidade das inovações tecnológicas propõe o imperativo da corrida contra o relógio. Para os hackers, trabalho é prazer e eles trabalham em horários alternativos. A flexibilidade propõe o trabalho lúdico, onde e quando quisermos, por isso é possível ser feliz em horário comercial, e usarmos a madrugada para trabalhar, pois a rede não pára. Assim o hacker trabalha quando a criatividade o motiva, cumpre suas tarefas e não sua jornada e assim, tem tempo para ‘viver’.

Himanen analisa ainda a ética do dinheiro, como motivo e interferindo no processo de vida e aprendizagem do ser humano. Na ética protestante a semana era dedicada ao trabalho e o domingo era dia sagrado ao descanso. Mas se dinheiro é um fim em si mesmo e a lógica capitalista dita o tempo (ritmo de trabalho), então domingo atualmente é dia de labuta, pois o consumo é motivação. Diferente do ritmo de trabalho hacker, que concebe um domingo de trabalho, se na quinta ou sexta o tempo foi dedicado à família. No capitalismo o domingo de trabalho é puramente para aumento dos lucros.
No campo da aprendizagem, para o capitalismo as boas idéias são propriedades de quem as teve, principalmente se geram dinheiro. Então compartilhar informação, como bem poderoso e positivo não se explica. Mas um grupo se difere, até mesmo no capitalismo, com um modelo aberto de gerar conhecimento: a comunidade científica, que historicamente sempre trabalhou partindo de um problema ou objetivo no qual o indivíduo tem interesse pessoal e é um entusiasta, acha sua solução particular e qualquer um poderá utilizar, criticar e desenvolver esta solução. Mais importante que qualquer resultado final é a informação ou cadeia de argumentos subjacente que produziu a solução.  As fontes sempre são citadas e a nova solução não pode ser mantida em segredo e sim publicada novamente. E esse modelo sem ausência de estruturas rígidas, que congrega paixão e trabalho em grupo, está na prática hacker, que parte em busca da solução de problemas e submete seus resultados a diversos testes. Aprender cada vez mais é o objetivo desse universo e um professor ou pesquisador, neste universo, é alguém que, muitas vezes, acabou de aprender e já quer ensinar. Himanen denomina esse processo de ‘Academia da Rede’. 
Na última parte da obra, o autor fala sobre a ética da Rede e a netiqueta (boas maneiras observadas na comunicação na Rede) e sobre o espírito do informacionalismo. Segundo ele, quanto mais eletrônica se torna nossa era, mais deixamos vestígios ao navegar pela rede, fazer compras nas lojas, preencher cadastros em repartições ou ao responder questionários em sites de pesquisa. Nossos dados estão a todo momento sendo analisados, construindo um perfil de usuário, que deixamos ao usarmos cartões de crédito, fazermos transações bancárias, utilizarmos a internet e até mesmo o celular. Por isso os Hackers estão preocupados com a privacidade e com a proteção dos dados dos usuários da rede e prezam pela segurança no mundo virtual. A autoprogramação, o aumento do tempo dedicado à Rede, a necessidade de manter-se atualizado com as inovações crescentes, que teimam em nos deixar obsoletos com relação aos conhecimentos gerados na nova tecnologia, nos faz dedicar cada vez mais horas ao  trabalho. E esse é o espírito do informacionalismo.
No informacionalismo, há o resgate de virtudes do desenvolvimento pessoal, no sentido de racionalizar o tempo e o esforço gastos nas atividades, já que há informações demais, é preciso filtrar, selecionar e tomar as melhores decisões. Por isso é preciso ter determinação, tranqüilidade, otimizar os processos _ ser efetivo no ‘agora’; ser flexível _disposto a mudar conforme as necessidades; ter estabilidade  _ manter a constância na busca do objetivo; ter dedicação; ter consciência do valor do dinheiro necessário para realizar desejos; contabilizar resultados. E são essas virtudes que transformam a rotina nesses novos tempos: a rotina dos processos nos negócios está em alteração, as linhas de produção desnecessárias são eliminadas, as lentas são remodeladas de tal forma a serem efetivamente produtivas, afinal a automação elimina tempo perdido. E todo esse sistema passa a ser metáfora para explicar a ética que rege o informacionalismo. Com esta ética virtual em voga, o autor percebe dificuldades na aplicação da ética real. A lógica da velocidade, que tanto impera no informacionalismo, é talvez a pior barreira para que a ética real aconteça. Como se, em busca pela otimização, automação, e tudo o mais que rege esta era que vivenciamos, a ética fosse algo à parte. E é exatamente isso que preocupa o autor, que vê na ética Hacker um caminho diferente de comportamento na Rede.
Por isso Himanen propõe sete valores da ética hacker: paixão (entusiasmo que move a aprendizagem); liberdade (com o código aberto que permite o compartilhamento de conhecimento; com o tempo, que os livra da rotina e da jornada de trabalho e os deixa livres para trabalhar como e quando querem); valor social e abertura (que possibilita receber reconhecimento ao compartilhar conhecimento, tornando-o comum a todos); atividade (que envolve a liberdade de expressão em ação e privacidade para proteger seu estilo individual de levar a vida e desprezo frente à passividade): e cuidar (se preocupar com o futuro da sociedade virtual de tal forma que oportunize a todos uma garantia de acesso). Esses valores juntos, levam ao último estágio, quando o hacker se torna criativo porque utiliza suas habilidades, superando-se, e dando ao mundo contribuições valiosas.
Por fim, a obra nos apresenta um posfácio, escrito pelo sociólogo Manuel Castels, que retoma o contexto em que vivemos e as mudanças do paradigma da era industrial para a era da informação.
A ética Hacker e o espírito da era da informação é um livro positivo, porque aponta para uma cultura e uma ética mais humana neste contexto vigente que é o capitalismo. É muito bom ver luz no fim do túnel. As transformações éticas que vinculam tecnologia, democracia e desenvolvimento social e humano já começaram. Mas sem ingenuidade, pois é um  processo ético lento, que envolve uma minoria, pois o capitalismo tem teias amplas e o dinheiro ainda é um valor forte em si mesmo, mas pelo menos, é um começo. E tomar consciência que a colaboração é o caminho humano que resta. 
Vale a pena ler este livro. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A morada doente

 “Minha casa é o meu castelo” _ Esse é um ditado incontestável. A morada de um homem é seu recanto, local de descanso e conforto, destinada ao essencial da vida: comer, dormir, amar... enfim, é em casa que refazemos as forças para o dia a dia de lutas e embates.

Se o meio ambiente natural é a floresta, os mangues, as restingas, cerrados, etc., o ‘meu’ ambiente é onde escolhi viver, as quatro paredes que me aquecem e me protegem das intempéries. Então, meio ambiente de gente, inclui a casa onde se mora. Mas até que ponto nós temos casas sadias?

Um amigo meu, o Engenheiro Civil Dermivan Barbosa, há algum tempo me contou do número de pessoas que conhece, que estão doentes por conta de suas moradias que apresentam uma série de problemas: Casas sem ventilação, onde a luz solar e o vento não adentram, onde há muita umidade, verdadeiras concentrações de fungos e ácaros. No inverno, elas são escuras, exigem um gasto enorme com luzes acesas e os armários estão cheios de mofo. Já no verão, são verdadeiras estufas, cheias de calor e exigem ventiladores ligados todo o tempo. E ele nem conhece Cachoeira tão de perto. Ele me contava de Itabuna, cidade onde realiza obras de construção e reforma. 
Ah, se ele tivesse que viver em Cachoeira... 
      
A cidade tem um deficit imenso de casas sadias. Duas estudantes universitárias que conheço bem, pois cheguei a dividir espaço com elas, viveram situações complicadas com casas assim, estufas no verão e geladeiras escuras, no inverno. 
Tenho um amigo, ex-aluno, que veio de fora e está com problemas sérios de alergia. Há mais de um mês procura casa para mudar. Casas em que os quartos não têm janelas são as mais disponíveis. E essas casas não estão nos bairros mais periféricos. Ficam nos centros de Cachoeira e São Félix. 
Este assunto deveria ser tratado como um problema de saúde pública,  porque os moradores dessas casas, invariavelmente, estão com alergias, rinites, sinusites, problemas respiratórios de toda ordem e quando o caso é muito sério, desencadeiam depressão, tristeza, por conta de um lar que não atende as condições mínimas de conforto e bem estar. Nosso sistema único de saúde, com certeza, tem que responder por demandas dessa ordem. 
Arquitetos e engenheiros das prefeituras deveriam propor soluções alternativas para os moradores. Talvez uma reforma simples levasse os quartos para a parte de trás da casa, possibilitando uma janela em cada ambiente ou o corredor longo, dessas casas antigas, ganhar uma entrada de circulação de ar, para viabilizar um frescor na vida de seus residentes. 

domingo, 12 de junho de 2016

Os amores inventados

Há períodos que precisamos inventar um amor. Vivi um longo período assim. Andava triste, sem me apaixonar há um bom tempo, achando a vida tão sem graça. Mas então que conheci alguém interessante, cativante e bom de conversa, com uma energia de alegria que tinha muito a ver comigo. Ele se dizia carente de amor, que precisava também viver algo especial. E criamos um universo só nosso, capaz de nos enganarmos de tal forma que nos vimos apaixonados. Por causa desse amor, fiz uma revisão na forma de lidar com filho, com família, com trabalho, com dinheiro. Aprendi com ele a ser mais voltada para mim e para nós.

E foi muito interessante mudar. Vivi experiências diferentes do dia a dia, apenas por enxergar o mundo do outro, como nunca tinha feito antes.

Mas a minha forma de amar incluía fidelidade e a dele, não. Incluía sonhos conjuntos, e a dele, não.
Eu percebia as distorções, mas estava tão crente no universo criado que me imaginei poderosa a ponto de mudar o outro, de torná-lo fiel ao que eu acreditava.

Não enxerguei as falhas de roteiro, os dramas desnecessários, não enxerguei mentiras. Penso que eu me iludi na ideia maravilhosa de viver, em vida terrena, o mito da alma gêmea.

Demorei a ver em que peça havia me enfiado, com um papel distorcido. Era um amor inventado por mim e mantido pelo outro, pelo papel cômodo em que ele se encontrava, de me enganar de forma tão perfeita, que se viu acomodado, acreditando que o cenário era bom para mim e para ele. Mal sabe ele o quanto fez mal a nós dois. Foi virando uma relação intoxicante. Sempre com o mesmo desfecho. Eu descobria algo que significava traição, ficava com raiva, terminava, de forma sempre descontrolada, e lá na frente, cheio de desculpas, de juras, de promessas de mudança, eu acreditava em novo enredo e acabávamos voltando. E os ciclos se repetiam.

As vezes temos a sensação de que fracassamos quando um amor acaba. Ele dá certo por um tempo pequeno, quando acreditávamos que duraria uma vida. E com medo do nosso fracasso, vamos mantendo algo que não é saudável, achando que melhor com ele, pior sem ele. Enfrentar o vazio que a perda produz é muito complicado. Na verdade, eu sentia que precisava me sacrificar, ou então eu perderia a oportunidade de construir a melhor história de amor da minha vida, mas percebi que meu sacrifício era ao mesmo tempo uma forma muito cruel para comigo, quando eu tinha que convivr com alguém que se acostumou a me machucar, que agia de forma duvidosa e no fundo, devia rir de mim todo o tempo, consciente de que nunca mudaria. Minha auto estima ficou gravemente abalada.

Mas eu tenho uma qualidade. Eu consigo enxergar situações tóxicas e quando elas não se alteram por um bom tempo, eu traço rotas de fuga psicológicas que diminuem a dor normal das perdas, dos rompimentos. Minha saúde emocional precisava se reequilibrar. Então procurei criar novos desafios para minha vida. Preencher com trabalho, com uma mudança na vida, daquelas que incluem arrumar caixas, jogar coisas fora, alterar endereço. E o ciclo se rompeu.

Mas além de um sofrimento real, percebi que eu havia inventado um amor para meu ego. Este amor, que não era amor de verdade, me fez ver que sou capaz de amar muito, de fazer concessões, de rever minhas atitudes equivocadas. Foi uma história que me fez crescer como pessoa, que me fez perceber rotas de fuga improdutivas e rotas extremamente produtivas, que me fez rever minha postura com relação à minha vida profissional e espiritual. Ele me fez melhor em diversos aspectos e isso eu o agradeço muito.

Hoje, dia dos namorados, foi um dia triste ainda, depois de alguns de muita alegria. Eu sinto não ter a quem dar esse tanto de amor e paixão que solavanca meu peito. Mas também foi dia de esperança pois sei que se sou capaz de amar, o universo deve reservar novas histórias de amor para mim.