sábado, 12 de abril de 2014

sobre a vida e sobre a dor

"Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência. Às vezes, usa a raiva, para que possamos compreender o infinito valor da paz. Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono. Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar sobre a responsabilidade do que dizemos. Às vezes usa o cansaço, para que possamos compreender o valor do despertar. Outras vezes usa doença, quando quer nos mostrar a importância da saúde. Deus costuma usar o fogo, para nos ensinar sobre água. Às vezes, usa a terra, para que possamos compreender o valor do ar. Outras vezes usa a morte, quando quer nos mostrar a importância da vida".
Fernando Pessoa ******** Convivendo de perto com a dor, a dor do outro, a dor de quem amamos, faço reflexões todo o tempo. A maior delas: como a dor é individual, subjetiva e oscilante. Por mais solidária que eu tente ser, não tenho como sentir a dor do outro. Nem o outro, sentir a minha. E como eu me resigno diante da dor inevitável, quando sei que ela faz parte do processo, eu não entendo como o outro blasfema e mal diz a dor, sabendo que ela é uma dose mínima do milagre da vida. Mas compreendo. Se a dor é de cada um, e sente quem a tem, como eu, saudável, posso experimentar, por menor que seja, a sensação da dor lancinante de quem teve o peito aberto? Quando a dor oscila, e entra momentos de riso, penso que a dor se foi. No quanto a vida simplifica sem dor. E ela volta, de forma até maior que os primeiros dias do pós operatório, e penso como a cura, em alguns casos, é um processo cruel. Esquecer uma dor física é tão bom. E o retorno dela, ainda mais forte, traz uma sensação de que algo errado está ocorrendo no organismo. Será que há algo inflamado? será que algum ponto interno se rompeu? será que ficou algum equipamento cirúrgico ou produto hospitalar dentro do organismo? Não é pra rir, mas a dor traz fantasmas enormes... inseguranças e neuras. Enquanto isso, minha cabeça viaja nas mil reflexões diárias de quem, estando sem dor, só ora para que a dor do outro passe logo.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Contradições hospitalares

Estou 'quase' internada em um grande hospital de referência em cardiologia da América Latina. Acompanhante de um interno, que fez uma cirurgia complexa, eu fiquei impressionada com o atendimento da equipe médica, a competência dos cirurgiões. E só tenho a agradecer o fato do Brasil ter, pelo SUS, a possibilidade de salvar vidas com tanta eficiência. Afinal, como professora universitária, que tem impostos descontados em folha, eu fico contente de ver o meu dinheiro sendo bem usado pelo poder público. Na página institucional do hospital, que tem vínculo com a USP, está escrito que a instituição 'é reconhecida tanto nacional como internacionalmente, como mostram as citações na imprensa leiga, nas publicações científicas e nas inúmeras participações e comunicações de seus profissionais a congressos nacionais e internacionais'. Maravilha!!!! Mas por outro lado, depois de uma semana aqui dentro, estou vendo de perto as incoerências de um lugar como esse. Comecemos pelo pré-operatório. Imagina uma pessoa aguardando para operar do coração, em uma cirurgia que vai retirar parte da aorta e colocar um tubo, com todas as ligações arteriais possíveis, e, faltando algumas horas para essa cirurgia, com os nervos abalados, chegam três enfermeiras em menos de uma hora e meia, para tirar sangue dessa pessoa? Quem gosta de receber tanta perfuração? porque não apenas uma enfermeira para coletar tudo de uma vez? desorganização? e mais, duas delas ao mesmo tempo, disputando veia e fazendo algumas perfurações e dizendo que o paciente não é bom de veias? quem não é bom? quem deveria acertar? É de dar nos nervos... Cirurgia efetuada, pessoa acorda na UTI. Imagine uma madrugada na UTI, escutando duas enfermeiras, ou técnicas em enfermagem, impossível precisar, duas senhoras, falando de namoro, de paquera, de que o namorado de uma delas faz e acontece... e pela manhã, na troca da equipe, entram enfermeiros novos, dois deles, uma mulher e um homem, dançando forró? e um paciente se anima a cantar, e parte da equipe de enfermagem canta com ele. Achou que eu exagero? Não, eu queria que fosse exagero, mas meu companheiro desceu tendo vivenciado isso e depois eu conheci outras pessoas que estavam na UTI e vivenciaram também algumas dessas situações. Um deles, o Zé Roberto, entubado, com secreções causadas pela introdução do tubo, tossiu, não tinha como se mover e começou a colocar a secreção pela lateral da boca, porque não encontrou ninguém para ajudá-lo e só apareceu um técnico muitos minutos depois para ajudá-lo. A sensação, ele me contou, foi que poderia morrer a qualquer momento, engasgado com secreção e sem nem poder falar por conta do tubo. Também viu show de forró entre a equipe, dias depois, e também um grupo de enfermeiros organizando uma vaquinha para arrecadar dinheiro para o pastel, com direito a ironizar, dizendo que se sobrasse dinheiro, trariam pasteis para os pacientes também... ora, convenhamos, quem, tendo passado por quatro, cinco, seis horas de cirurgia, peito remendado, se sentindo estropiado com tubo na boca, marca-passo, dreno, cateter, tem paciência para esse tipo de comportamento de equipe de enfermagem de um grande hospital? Então meu companheiro veio para o quarto. Tudo bem mais calmo do que na UTI (que coisa!). Os pacientes ficam em enfermarias com dois leitos e seus respectivos acompanhantes, por sinal, super mal acomodados em cadeiras quebradas. Mas ainda assim a paz que se sente saindo da UTI é impressionante. Todos que conversei relatam que a UTI é um local complicado. Além dos dois internos que tivemos o prazer de dividir a enfermaria em dias diversos (o Sérgio e sua esposa Leny, depois o Zé Roberto e sua mãe), teve ainda os relatos do Josevelto e sua mulher, a Val, que conhecemos no pré-operatório e de uma mocinha que a mãe pegou infecção generalizada na UTI e já estava há 22 dias nesta unidade. Então são opiniões de pessoas que passaram por cirurgias cardíacas e estavam extremamente debilitados, fragilizados, inseguros, precisando de tranquilidade e paz e mais da mocinha que passava, há 22 dias, pelo menos uma hora e meia na UTI visitando a mãe. Bom, nas enfermarias é impressionante como conhecemos, a cada dia, equipes de cinco a dez profissionais diferentes, entre técnicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, médicos... Alguns chegam com tanto cuidado, tanto carinho, com um jeito maravilhoso de lidar com o paciente. Fiquei encantada com os mais novos, gente muito jovem, com um sorriso compreensível no rosto e dando todo tipo de explicação para os procedimentos. Mas também vi, entre técnicos de enfermagem e enfermeiros, pessoas que parecem estar com raiva do mundo e toca o paciente com rispidez, faz e tira um curativo como se estivesse carpindo, e acaba machucando sem necessidade, quem está ali tão carente, porque tudo está doendo muito e, mais uma dor, mesmo que de um repuxar no corte, não é apenas mais uma dor, é uma dor desnecessária, causada por um profissional que está ali para aliviar os traumas... Outra questão que me fez ficar decepcionada foi a higiene do lugar. Depois de cirurgias tão complexas... imagina que os médicos manipulam corações!!! então, uma infecção por aqui, colocaria à perder o trabalho de verdadeiros artistas da medicina. Pois é, então a assepsia deveria, DEVERIA, ser prioridade, certo? Ledo engano. Vi cabelo na comida, vi cestos de lixo com mais de 30 horas sem recolher, vi chão sem varrer e sem passar um pano com desinfetante também por mais de 30 horas, vi banheiro que tive nojo dos azulejos e pia que, penso, mais facilita infecção que limpa o que tá sujo... Será que eu estou observando o que não deveria? será que estou exigindo mais do que um hospital público, de referência cardíaca deveria oferecer? Eu, como fofoqueira social oficializada por bacharelado(jornalista), não consigo ficar sem registrar isso. E penso, no país da copa 2014, deveria haver também eficiência na saúde, como um todo. Se um hospital referência, na maior cidade do país, é desse jeito, o que pensar dos outros hospitais públicos por aí?

quinta-feira, 27 de março de 2014

Com o coração nas mãos

A pessoa especial que o universo me presenteou, é mesmo muito especial para mim. É especial para muita gente. E nesse momento estamos todos em energização, enviando para ele o que há de melhor no universo, em função de uma cirurgia cardíaca que acontece hoje. Mas eu queria falar da minha experiência em estar ao lado de quem vai operar do coração. Operar é sempre uma barra... eu operei da garganta, aos seis aninhos, para retirada das amígdalas (coisa tão 'out', mas moda nos anos 70), fiz um procedimento cirúrgico para retirada de um cisto no seio em 1999, algumas pulsões, também para eliminar cistos, e há alguns dias fiz core biopsy também no seio. E só. Meu medo de hospital e de procedimentos invasivos é tão grande que eu não quis operar para ter filho e fugindo da regra, aos 33 anos (na época, era considerada gestação idosa), eu não quis cesariana e tive Arthur de parto normal e sem anestesia. Sim, fujo da faca. Pois bem, é sem essa referência de dor, de período de convalescência e de sofrimento em pós operatórios, que convivo com um homem que já operou duas vezes do coração e está indo hoje para a terceira. Sim, ele tem. Ele já sentiu o que é ficar numa maca, entrando em uma sala, para dali a instantes iniciarem uma manipulação do seu órgão vital mais falado, mais sentido. Aquele que dispara, que bate todo tempo e avisa que a vida pulsa. Então, para ele, operar coração remete a muitas sensações, emoções e sentimentos. Soubemos há um mês que ele operaria no final de março. E desde então venho lidando com os medos dele e os meus. Os dele são os mais variados possíveis. Medo das horas que precedem, dos procedimentos, desde as enfermeiras que furam braços e aplicam injeções e enjoos do cateterismo, que ele já fez ontem e temia tanto, e das dores dos cortes, dos pontos após e da dor nas costas e no peito, porque manipulam o tronco por horas e ... enfim, ele me descreveu tantas vezes as cirurgias que até eu senti dor. E os medos existenciais... medo de sequelas, de falhas, medo de ir e não voltar... medos humanos de quem sabe que ficará com o coração nas mãos dos outros (dois médicos vão operá-lo). Foi um mês difícil. Nervoso, irritado, vi ele brigar com tudo e todos, inclusive comigo. Até tratei com minha terapeuta a minha dureza, ao dizer a ela que achava que ele estava manhoso demais. E ela, que já operou o coração também, me falou de cada etapa, das dores, e de como é difícil lidar com essa questão de manipulação de um órgão tão vital. Puxa, que insensibilidade a minha, me toquei. E pedi desculpas a ele, há cerca de uma semana, por não ter a referência de dor, como a dele e as vezes parecer que acho tudo fácil de ser superado. Ele, talvez por conta da ansiedade, passou muito mal por dois dias antes de viajarmos e eu, ao seu lado, só rezava e rezava... Com a falta de referência de quem nunca operou, mas que tem um apego espiritual ao princípio que a Divina Providência protege e providencia o melhor, eu só o conforto e digo todo o tempo: confie! Estamos em São Paulo, no Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese. Consegui acompanhá-lo nesse momento difícil e estou participando de todo o processo do pré-operatório. Antes de ontem fez cateterismo. Ontem já ficou internado, nos procedimentos que antecedem a cirurgia. Conheci um dos médicos que vai operá-lo ontem, e ele nos explicou que, como meu amado tem duas cirurgias anteriores, os médicos precisam primeiro ir garimpando, para achar o órgão com cuidado, pois é um coração já manipulado duas vezes, há procedimentos anteriores que modificaram a estrutura original, então é nisso que levarão um certo tempo, para não desarrumar o que foi feito, e depois, fazer o novo procedimento, neste caso, a substituição de parte da aorta que está dilatada. Vejo os olhos do meu bem se encherem de lágrimas. Vejo um homem forte virando um menino... Pois bem, acompanhei o pós cateterismo no hospital e o pré-operatório. As diversas picadas (três enfermeiras em duas horas vieram tirar sangue, um absurdo! porque uma não tira tudo????)... conversas com cirurgião, com anestesista, com equipe que auxilia, um super ritual... Eu fico tensa, imagino ele! Depois de amanhã, sábado, ou no domingo, quando ele voltar da UTI, eu serei sua acompanhante. Já soube que fica complicado tudo, que dói demais, e espero um 'moço menino bebê' para eu cuidar. Mas eu espero mesmo, é que Deus coloque ele no colo, que o universo conspire para que os cirurgiões façam o melhor, inspirados pela espiritualidade amiga, e que todas as orações dos pais, dos filhos, dos irmãos e das pessoas amigas, que o querem muito bem, o ajudem a passar por tudo isso. Ps: volto aqui para dar retorno. Hoje é dia 28. São 16:10h. Foi uma cirurgia complexa, mais de seis horas, terminou ontem por volta das 20h, com dificuldades nas primeiras horas. Superou após a madrugada. Acordou depois das 8h de hoje e já está conversando. Vai ficar em observação na UTI, mas se Deus permitir, desce para quarto amanhã as 13h. Vou 'internar', serei acompanhante. A todos que enviaram boas energias, meu muito obrigada. O Universo, com sua lei do retorno, com certeza, devolverá a cada um, em boas energias, tudo o que desejou a meu amado.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Para Arthur Frederico (senta, que lá vem história...)

Completo amanhã mais um ano de vida e preciso escrever para esse menino outra vez (lembrando que é a terceira... Lá vem história I e lá vem história II . Eu fui muito afortunada, meu pequeno. Nasci em uma família que me recebeu com muito amor. Eu me lembro de quando pequena, sempre ter vivido em ambiente de muito carinho, mas se rolasse bronca, castigo ou tapão, tinha uma razão, e tudo ficava bem depois. Lembro de sempre ter sido incentivada a estudar, a aprender, a ler muito (meu pai era um leitor ávido. Pouco de TV, muito de livros). Meu pai era de conversas longas, sobre qualquer assunto. Ele me parecia um 'google' ambulante (fazendo uma analogia com os dias de hoje). Tudo eu perguntava a ele. Mas sempre o vi, na dúvida, recorrer a uma enciclopédia enorme que tínhamos e que era maravilhosa. Hoje vejo você agoniado se falta luz (porque o Play e a TV param), ou se não tem internet (e vc fica sem seus vídeos), naquela época, sabe o eu fazia quando não tinha o que fazer? eu sentava com um grande livro no colo, eram 20 volumes grandões, daquela linda enciclopédia. Foi nela que descobri que baratas sobrevivem até a explosão nuclear. E tudo sobre dinossauros, sobre vulcões ou cataclismos... ah, muito conhecimento. Devo ao meu pai essa sede por saber sempre mais. A minha mãe era diferente. Não era de TV também, não era de leitura, não era de bordado, nem de comidinhas elaboradas. Rapaz, minha mãe era de organização, de casa limpa, de roupa cheirosa, de tudo no lugar... Minha mãe era de atenção completa. Ainda é. Faz tudo pelos filhos. Precisa fazer tudo por ela. Anda simples, come simples, veste simples, vive simples. Preciso ensinar a minha mãe que ela é o centro da vida dela. Vai ser uma guinada!!!! Mas enfim... minha avó Nira era a referência sempre. Mulher forte, uma rocha. Tudo desabava sobre ela, e ela firme. Ai de nós, Nydia, Mara, Lícia, Tereza, Rita, Alene e Nícia... ai de nós se formos menos que Nira! não podemos. Antes de Nira, Lavínia. Viveu por quase 91 anos. Nira, faltava uma semana para 96 anos quando se despediu... sim, meu filho, somos gente que vive muito, se doença dos sistemas coronários e vasculares não atacarem, ou câncer ou suicídios... Convivi muito de perto com suicídios. Três tios se foram assim. Um choque, um baque, mas é preciso estar atento e forte, filhote. Suicídio é deixar problemas se acumularem. É ficar sem se comunicar, sem gritar socorro. Talvez por isso eu grite tanto. Tenho medo de sucumbir à falta da química humana e deixar a alma viajar. Ela quer ir embora sempre dessa prisão que chamamos corpo físico. Meu avô, eu menina, era um homem forte, montava cavalo, estava sempre envolvido com trabalho da fazenda, mas tinha uns pequenos mimos que me deixava muito feliz: lembro dele sempre comprando melancia e dizendo que ela era nossa, minha e dele. Eu devia ser já uma 'magali do Maurício de Souza', com relação a melancia. Meu avô gostava de jogar buraco e quando eu era a parceira dele, nós sempre ganhávamos. Joãozinho tinha fama de avarento, mas não deixava faltar nada em casa, e sempre socorria os filhos, principalmente os que eram desorganizados financeiramente, como meu pai e tio Zelito. Mas o que eu mais percebia nele era uma certa impaciência com minha avó. Aquele foi o primeiro casamento que vi, em que não havia harmonia. Dos meus tios, Nivaldo era o mais querido. Meu padrinho. Não era de carinho. Era de apoio material. Era de palavras poucas. Mas sempre nos recebia com todo cuidado e atenção, nós, os sobrinhos do interior (nois era jeca). A família de meu tio, tia Lícia, Nícia e Neto, uns queridos sempre. Primos de querer ficar perto todo tempo, porque o tempo, pra menino, é um monstro ingrato. Demorava tanto pra chegar as férias... elas voavam quando estávamos em Salvador ou no Conde. Tio Zelito, duas breves passagens apenas. A que mais lembro, eu na rua, aos 9 anos, caminhando com ele, que pegava em minha mão, me perguntando da cidade. De presente me deu uma correntinha de bijuteria, com um coração que abria. Tem algo que menina goste mais que caixinhas e objetos que podem guardar coisas dentro? foi naquele coração de bijux que coloquei a foto de Charles, a primeira paixão adolescente. Quando a paixão acabou, aos 14, o coração não tinha mais cor... Mas o que ficou mesmo sem cor foi que Tio Zelito se suicidou. E a referência dos suicídios começou aí. Pouco mais de uma década depois, foi Tio Nivaldo. Um choque. A vida se fragilizava diante dos problemas, diante da depressão... até eu compreender que pode ter genética e química envolvida nisso, eu achava uma coisa tão egoísta, esse tal de final com próprias mãos. Por fim, tio Tourinho, marido de Tia Nydia, que era talvez o tio de maior referência. Nem era sangue, mas era o tio que eu mais convivi. Homem tranquilo. Conversava pouco comigo quando eu era menina, mas lembro da conversa sobre lavar as mãos quando chegava da rua (ele não fazia nada se não lavasse, até beijar os filhos, coisa que eu estranhava, porque meu pai primeiro nos beijava, para depois lavar as mãos). Vi que tio Tourinho estava certo. Depois me contou sobre os problemas que dava ao conviver tocando bichinhos todo tempo (ele era um cirurgião veterinário renomado, professor da UFBA) e eu nunca mais deixei um cachorrinho, mesmo limpinho, perto da minha cama ou de minhas coisas pessoais. Já mocinha, eu via tio Tourinho convivendo com tia Nydia, sempre com tanto carinho, respeito, um companheirismo que eu admirava. Era assim que eu desejava um casamento. Como o deles. Quando ele se foi, em um suicídio estúpido, eu já sabia das questões de química a menos no organismo e ficou fácil perdoar. Meu tio estava sofrendo. E está em minhas orações, para que sua essência esteja se recuperando. Tia Nydia, outra fortaleza, fruto da convivência com Nira, é a minha madrinha. Desde sempre conto com ela pra tudo, apesar de aprender com ela e com minha mãe, que não se deve ser fardo para ninguém. Então importuno menos que posso, mesmo sabendo que posso contar sempre. Dinha hoje, para mim, é a matriarca dos Lins. Carrega suas dores como quem carrega o mundo. Mas viaja, sabe tirar as compensações dessa vida difícil. Tenho aprendido sempre com ela. Da minha mãe, filha única, as referências eram minha avó e bisavó. Hilda e Antonia. Hilda era triste. Não era de abraços. Não era de conversa. Era de dar presentes, mesmo sem poder. Como me dava presentes, aquela avó. Morreu nova, aos 64 anos. Foi dormir e não acordou. Sofria do coração e nem sabia. Antonia, minha bisa, mulher pequena, falava baixo, educada e simples. Tinha sempre lições na ponta da língua. Espírita desde sempre. Não tinha uma casa para ela. Vivia com os filhos. Por isso sempre viajava, indo de uma casa pra outra. Morreu aos 80. Já o pai de minha mãe, devo ter visto umas seis vezes, sempre em visitas rápidas, morava no Rio de Janeiro, e vinha visitar seus parentes na Bahia. Mas lá em casa era visita de médico. Vovô Josaphat é o antepassado que não tenho nenhuma referência. Sei que era educado e carinhoso com minha mãe, mas todo mundo que nos visita é assim, não é? Arthur, referências... é bom saber de onde viemos... Agora você sabe. Eu, tendo vivido mais de 40, penso que cheguei na metade, se bala, trânsito ou doença não me atingirem. Daqui em diante, tenho percebido, sou um misto da minha vida com a de todos eles que estão relembrados aqui. Sempre paro e fico relembrando minha convivência com um deles. E me pego reavaliando o que pensava ao longo dos anos. Reescrevendo. A memória nos trai e lembro apenas cenas não o fato todo, esqueço detalhes, revejo imagens do que ficou, um ou outro aspecto, uma ou outra característica. Peço desculpas a cada um desses meus antepassados, meus antecessores, porque teve momentos em que não dei a devida atenção que eles mereciam, queriam, desejavam e esperavam de mim (a juventude só enxerga o próprio umbigo). E agora, que muitos se foram e estou envelhecendo, vejo que serei tratada da mesma forma. Já não vejo sobrinhos, quando estou perto deles não há muito o que falar. E até você, meu filhote, eu sei, fará escolhas, onde eu estarei, muitas vezes, na última das opções. Enxergamos mães como pessoas que tem obrigação conosco, e muitas vezes deixamos de ver a pessoa que está ali. Como hoje vejo o quanto Mara deixou de viver por mim, JR e Marcelo. Não falei deles aqui porque há uma postagem sobre cada um, e você os conhece, são maravilhosos. Mas hoje, cheguei a uma conclusão e precisava compartilhar. Aprendi mais com as mulheres da minha família do que com os homens. Eles me ensinaram lições meio tortas. Elas não, são retas. Mas penso que retas demais. Quero ficar nas curvas dos dois lados, em trechos retos e outros nem tanto, me permitindo errar e me perdoar. E perdoar a todos que estão à minha volta, exigindo menos de quem humano é e encarnado está. Se perfeito fosse, não estaria aqui. Apenas espírito seria. Estamos aqui porque erramos e somos pequenos, meu filhote amado... Então, perdoe a mamãe. Eu, antes de ser mãe, estou humana, viu? Grande beijo sempre. E vamos esperar você crescer, um dia ler tudo isso, e risadas iremos dar. Te amo

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Medicina que intimida

Ontem vivi uma experiência diferente. Fui fazer uma core biopsy monitorada por mamografia (um processo que retira pedacinhos do tecido da mama para teste que diagnostica câncer), por conta de uma área suspeita. Confesso que a gente fica temerosa com esses assuntos, mas fui confiante, até ver o ambiente e a forma do exame. Fui recebida em uma sala gelada, com aviso na porta que era local com aparelho de radiação mas nem prestei muita atenção. Uma equipe com três mocinhas (enfermeira e técnicas) e um médico me aguardavam. Uma delas pediu que eu tirasse blusa e sutian e deitasse de bruços na maca, com meu peito direito enfiado em um buraco, que seria olhado por baixo pelo médico e por um aparelho de ultrassom (monitorado por uma das moças). Deitei e fui dar uma 'endireitadinha' no corpo para ficar mais confortável e logo o médico se manifestou, pedindo que eu não me movesse mais. Meu peito ficou preso entre duas peças do aparelho (como em uma mamografia) e eu me vi numa tensão como em poucas vezes na vida. A conversa era de linguagem técnica, procurando o quadrante onde haveria os disparos, números... ok ok, não dá pra entender muito. A maca foi movida, subiu e o médico ficou embaixo e logo senti anestesia e pequenas perfurações com som de pistola a vácuo (a pistola de punção), que retira pedacinhos de nódulos suspeitos. Não deve ter durado mais que meia hora tudo, com curativo ao final. Mas que meia hora tensa. Eu me arrependi de não ter procurado saber mais sobre tal exame e antecipadamente, saber o que me aguardava. Há alguns meses foi uma ressonância de joelhos que me deixou com sensação estranha também. A medicina avança e lidar com máquinas e exames diferentes serão uma constância, mas me intimida essas experiências. Ficou a lição: buscar informações e ver videos que antecipem os procedimentos, assim talvez a tensão diminua na próxima.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mãos à obra!!!

Minha primeira casa própria, eu tinha 26 anos. Planejei e reformei quase toda, aproveitando espaços que nem se imaginava. Era uma casa com mais de 40 anos que nunca tinha passado por uma reforma tão radical. Quem gostou foi quem a comprou de mim. A segunda casa, onde hoje mora a minha mãe, apesar de ter tido engenheiro e arquiteto responsáveis, fui alterando, ampliando. A terceira, de Cruz das Almas, comprei usada, já bem arrumadinha, mas criei um quarto novo com uma suíte e uma área de serviço super funcionais. Quando vendi, quatro anos depois, não tirei o investimento que fiz nas reformas, mas a casa tinha outro conforto. O ap de Vila Laura fiz uma reforminha pequena, mas dei outra cara ao imóvel, e foi tão fácil vender. A de Stella, que era mal dividida, com cozinha quase na sala, mudei tudo de lugar, fiz cozinha nova e a moça que comprou, adorou a casa. Agora, o ap da Barra, como de costume, lá vem obras... o negócio é ficar mais confortável, ainda que para isso eu leve boa parte do tempo no desconforto das pequenas obras. Já que com salário de professora não consigo fazer tudo de vez. Há duas semanas estou às voltas com pedreiro. Alterando pra começar, dependências de empregada, coisa já extinta em minha vida, transformando em um quarto pequeno com suíte, bem interessante, porque ainda fiz um pequeno mezanino para colocar coisas que uso pouco, já que tenho um pé direito de 3m (alegrias de apartamento antigo). Também enfiei o dedo na área de serviço e está se transformando em um ambiente alternativo, uma extensão da cozinha, com armários e uma segunda pia. E como esse ap é velho e precisa de quase tudo novo, lá vou eu exercitando o que mais gosto: mudar e alterar o ambiente, deixando-o com meu estilo. Mais dindin emprestado e estou projetando alguns armário e vou transformar também a cozinha, além de modernizar a instalação elétrica dessa região da casa. Apesar de estar acampada em minha casa, eu fico muito realizada ao ver tudo ganhando cara nova, tudo mais limpo, penso que vai ficar lindo. Dá gosto casa ficando do meu jeito. Eu queria era ter 20 anos novamente para fazer arquitetura (rs)...

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Um calçadão de novas expectativas

] Tradição, história, beleza paisagística e geografia privilegiada Com localização peculiar, a Barra fica na ponta da península que é a cidade de Salvador, e a depender de onde se está na orla é possível ver o sol nascer e se pôr no mar. Águas calmas e correntes marítimas que agem levando a sujeira, fazem as praias do Porto e do Farol muito atrativas para banhistas durante todos os dias da semana. O bairro é destino quase obrigatório dos turistas.
Registros antigos de uma charmosa localidade Antiga, a localidade da Barra nasceu no início da colonização do território brasileiro, quando Dom João III doou a capitania hereditária da Baía de Todos os Santos ao donatário Francisco Pereira Coutinho. Com quase todo o litoral cercado por recifes, a Barra era um dos poucos pontos de desembarque seguro para pequenas embarcações. Com a forma de uma pequena baía, o porto foi escolhido pelo donatário Pereira Coutinho para fundar a Vila da Capitania da Bahia. Ele se instalou nas imediações, onde hoje se situa a Ladeira da Barra, em 1534, fundando o Arraial do Pereira. Foi no atual Porto da Barra, que o governador-geral Tomé de Sousa desembarcou com seus homens e fundou a cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, no ano de 1549. A cidade cresceu, mas o bairro da Barra era como um subúrbio, depois se tornou um balneário marítimo e na primeira metade do século XX, após a transformação do Caminho do Conselho na Avenida Sete, se inicia o processo de consolidação como bairro importante. Em 1942, foi construído o Edifício Oceania, marco da arquitetura moderna e o bairro recebeu, durante o século XX, um considerável número de imigrantes. Em meados dos anos 80, a Barra começa a fazer parte do circuito de uma das maiores festas de rua do mundo, o carnaval de Salvador.
Do glamour e da decadência Nos últimos anos do século 20 e início do século 21, apesar dos investimentos em shopping, em edifícios caros e a valorização de algumas áreas do bairro, como o Morro do Gato e a região do Jardim Apipema, a Barra foi entrando em decadência, com um número cada vez maior de prédios antigos sem manutenção, uma orla esquecida, mal cuidada e com balaústre desgastado, além do descaso com a limpeza e a estética dos monumentos históricos. Tudo isso, somado ao fato de ter belas praias e ser de fácil acesso, fez da localidade um ponto de moradores de rua, pedintes, que exploravam o grande número de turistas e visitantes. Agora, depois de anos sem qualquer tipo de investimento em infraestrutura, o governo municipal está colocando em ação um projeto de orla, com calçadão e prioridade para o lazer. O fato está gerando muitas expectativas. A comerciária Luciene Souza, 43 anos, moradora da barra, sempre traz seu cachorrinho de estimação para passear na região do Farol. Para ela, apenas obras não adiantam: “não é só infra-estrutura física que precisa melhorar, mas todos os cuidados com segurança”.
Mãos à obra até a copa Novo paisagismo, mais iluminação, implantação de calçadão usando toda a largura da rua, com dutos subterrâneos, definição de espaço para a prática do ciclismo e caminhada, piso tátil para pessoas com deficiências, rampas de acesso à praia, quiosques para informações turísticas e para comércio de coco e acarajé, sanitários públicos, posto salva-vidas, entre outras intervenções. A primeira etapa das obras está prevista para ficar pronta até junho de 2014 e custará R$ 57 milhões, com recursos do governo federal, através do Prodetur, e da Prefeitura. O público poderá conhecer de perto como vai ficar a estrutura da Barra, através de protótipo do projeto que será instalado em um espaço de 50 metros de extensão na Avenida Oceânica, nas proximidades da Rua Dias D’Ávila. Há também um Centro de Informações, localizado ao lado do Forte Santo Maria. Apesar da previsão de entrega da obra ser em junho, a prefeitura garante que o circuito que começa na Barra e segue até a Ondina, o ‘Osmar’ estará com cara nova no Carnaval e não sofrerá alterações. O calçadão não será totalmente intransitável para carros, mas apenas veículos autorizados vão poder trafegar na área reformada. Segundo a Odebrecht, responsável pelas obras, o piso utilizado tem o conceito de ‘espaços compartilhados’, que suportam peso mas tem cara de calçadão. Nesse modelo, que existe em cidades dos EUA e da Europa, pedestres dividem o espaço público com veículos, bicicletas e equipamentos públicos. A velocidade dos veículos nessas vias será mínima, de apenas 20 quilômetros por hora. Segundo a prefeitura, parte da Barra vai se tornar um parque urbano, onde a orla, revitalizada, passa a ser um bem público, que pode ser usado por aqueles que querem passear, fazer caminhadas, andar de skate, bicicletas e onde veículos deixam de ser prioridade. A professora aposentada Marilene Silva, 67 anos, que mora em Itabuna mas sempre vem visitar uma filha que mora na Barra, acredita que para os idosos que gostam de se exercitar, a Barra vai se tornar o bairro ideal.
Fontes • TAVARES, Luis Henrique Dias, Editora Ática, História da Bahia, Sétima Edição, 1979. • RISÉRIO, Antônio, Versal Editores, Uma história da cidade da Bahia, 2003. • Assessoria de Comunicação da Prefeitura Municipal de Salvador.

Projetos que renovam a vida

Em uma dessas coincidências da vida, a minha nova morada era de uma jornalista. Aposentada, depois de dois avc's, ela estava se desfazendo de bens muito preciosos, o apartamento em que morou 17 anos e um jornal que escreveu e editou por 16 anos. Trocamos muitas figurinhas, por conta da mesma profissão, por termos trabalhado em TV e jornal, por gostarmos de coisas parecidas e ela me falou da tristeza de deixar de produzir seu jornal, por conta da doença. Não contei conversa e falei que poderia ajudá-la a retomar e renovar o jornal. Meu trabalho seria também no esforço dela me facilitar a compra do apartamento, já que eu estava financiando uma boa parte e ainda assim faltaria dinheiro para documentos. Então se ela topasse, poderia pagar uma parte do apartamento em trabalho no jornal e assim eu teria como transferir a documentação. Ela confiou em mim, e eu, mesmo sabendo que teria que pegar meus finais de semana e transformá-los em mais trabalho, achei que valeria a pena. Vi que o jornal era mais um guia de negócios do que um veículo de informações, mas ela me deu certa liberdade para criar, para convidar conhecidos e amigos especialistas para escrever sobre coisas interessantes, para criar campanhas... um jornal localizado, para o bairro que passei a viver e desejar que esse local melhorasse a cada dia. Então achei desafiador, um jornal que tivesse também uma função social para esse bairro. E nos últimos dois meses, tempo em que estou na nova morada, meus finais de semana foram dedicados a pensar o jornal, escrever duas colunas, uma de informações e uma que incentivasse uma mudança de comportamento (campanha da vez) e convidar pessoas para escrever, fazer algumas fotos... Pois bem, fui editora, fotógrafa e colunista e me lembrei da época em que estive ativa na profissão que escolhi. Por conta do débito do apartamento, devo fazer mais algumas edições, mas não foi trabalho, porque confesso que senti um enorme prazer. Por esse motivo vou postar aqui um dos materiais editoriais que produzi. Esse é um daqueles projetos que nos renovam!!!