quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Um ano de nova morada

Casa. Moradia. Lar... eu precisava resgatar as minhas relações com esse espaço.
Há anos vivia dilemas com o local escolhido para morar...
Vamos voltar no tempo. Moradia sempre foi problema na minha história de vida. Aos sete anos, muito menina ainda, lembro-me de um lindo apartamento (soube depois que era financiado), todos comendo em volta da mesa, meu pai avisa a minha mãe que vendeu o apartamento e seríamos obrigados a mudar e morar de aluguel. Tinha bons amigos naquele lugar (Aldrin e Ro, Tita e suas irmãs, Maruse e Carlesson, entre tantos outros). Lembro da minha mãe engasgar. E dela ficar muito triste. Anos depois soube que meu pai jogava  cartas e de ter perdido o apartamento no jogo. Perda da casa. Primeira referência de perda do lugar agradável. Mudamos. Aluguel. Uma casa grande, porém velha, em rua que sofria com enchentes e um dia acordei com minha mãe nos tirando da cama, em pânico, porque a água estava beirando o estrado. Ela disse ao meu pai que não ia admitir mais um susto daquele. Ele comprou um terreno em bairro super distante e resultado, lá fomos nós morar em local complicado de acesso. Longe de amigos, de primos. Meu pai faliu de vez. Vendeu carro. Ficávamos duas horas em pontos de ônibus para ir e voltar da escola. Os amigos iam pouco em nossa casa. Tudo era complicado. Tinha que dormir na casa das amigas se tivesse uma festinha para ir, porque não dava para sair à noite. Isso dos nove aos dezenove anos. Uma relação de ódio com aquela moradia, onde a casa era confortável e o bairro era um inferno.
Aos 20 anos, quando conseguimos convencer minha mãe a voltar ao aluguel, fomos morar em casa pequena, mas bem localizada. Mas as paredes eram coladas uma casa na outra e dava para ouvir tudo o que os vizinhos faziam e ouviam. Odiava aquilo.
Aos 22 fui morar em Cuiabá. Bairro distante. Não conhecia a cidade. Engordei dez quilos em três meses, trancada dentro de apartamento pequeno, sem varanda, em cidade que eu não dava conta de andar só, quente e complicada.  Com seis meses o destino foi um local central, em apartamento bom, bem dividido, prédio com piscina e eu voltei a sentir prazer de morar.
Mas seguindo um noivo que pediu transferência, lá fui eu para Campo Grande, morar em casa velha novamente, tendo que conviver o tempo inteiro querendo reforma.
De volta à Bahia, Juazeiro, salário curto demais, fui morar em casa nova em bairro distante. Novamente a música da vizinhança me incomodava.
De volta à Itabuna,  para a casa que construí e sonhei envelhecer, acho que foi o período mais tranquilo de moradia, mas com a chegada de Arthur, a necessidade de uni-lo ao pai, largo eu mais uma vez meu sonho de casa e no interior, depois de penar em três alugueis, consigo comprar uma casa em Cruz das Almas. Boa, grande, porém em bairro distante (em frente ao estádio da cidade, perto da BR 101). Rua de lama na chuva, de poeira na seca e sempre, sempre, isolada.
Fugindo dessa solidão, vim para Salvador, no esquema dias no interior, finais de semana na capital, desta vez em Stella Maris, para mais uma vez, aproximar Arthur do pai. E eu, isolada. Em uma casa com vizinhança mais uma vez com música alta e que não combinava comigo.
Até que... Barra!!!!
Um ano de Barra. Prédio velho. Apartamento velho, mas amplo. Uma reforma de formiguinha. Que não terminou, mas que já tem me deixado feliz, porque consegui me livrar do que estava sujo e feio.
Um ano de andanças à pé. Um ano de mar perto, de mercado perto, de restaurantes e calçadão perto.
Um ano onde chego em casa sabendo que não tenho vizinhos que incomodam.
Mas para isso tive que deixar Arthur mais com o pai e ver meu filho apenas nos finais de semana.
Mas ele já tem 11. E eu precisava mesmo resolver essas pendências de moradia. Porque se nossa casa é nosso castelo, eu era uma rainha revoltada no meu, até então. É claro que meu amor me influenciou a vir morar no bairro em que ele morava. Havia um sentido em estar mais perto dele. Mas sem dúvida, estar na Barra é estar onde há uma das maiores qualidades de vida nesta cidade ingrata que é Salvador.
Hoje sinto meu território como ninho e cada vez mais reafirmo a necessidade de morar onde nos sentimos bem para compensar todo o esforço do dia a dia.
Agradeço ao universo esse desfecho. Eu resolvi uma pendência de uma vida inteira!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Yumara 80 anos... meu pedacinho de ancestralidade familiar

Desde pequena escutava meu pai e minha avó falarem dela: 'sua tia Yumara... sua tia atriz... a peça Apareceu a Margarida, em que a sua tia estava ótima... sua tia é uma atriz premiada...' e por aí vai. E sei lá porque, cargas d'água, ninguém, ninguém, nem pai, nem avó, nunca fizeram a ponte. Até 2010, quando tia Nydia me ligou e disse: 'sua tia Yumara está com peça em cartaz, você quer ir comigo?' Não pensei duas vezes!!!!
A peça era 'O Monstro', um roteiro criado especialmente para mostrar todas as obras em que ela atuou e todas as personagens que Yumara Rodrigues construiu.
Na vida real, Yumara, cujo nome real é Lígia Lins, foi uma mulher que deixou uma família e uma situação confortável e segura, na pequena Conde, para viver seus sonhos, e fez do teatro seu palco de vida. Não casou porque sempre que se apaixonou, foi questionada sobre largar o teatro caso abraçasse o casamento. Casou com o Teatro. Foi premiada várias vezes. O Governo da Bahia, em reconhecimento ao talento dela, homenageou-a com livro e documentário. E uma edição primorosa, que ganhei e fiquei super feliz quando fui visitá-la. Ganhei ainda uma molheira que pertenceu ao pai dela, a molheira do meu bisavô.




Essa mulher considerada 'dama do teatro baiano', tem em seu currículo uma experiência maravilhosa da arte cênica, e só por ter um dedinho de sangue de artista nas veias, penso que minha paixão pela atuação pode ter sido um traço herdado dela. Pois bem, hoje é dia de Yumara. 80 anos.

 Uma vida inteira de histórias ricas, muitas ligadas ao Teatro e outras tantas da vida familiar e das histórias de meu bisavô, pai de meu avô João, que muito estimava e convivi até meus 17 anos. Eu, sobrinha neta do interior, que também sempre fui apaixonada por teatro, e adoro histórias orais familiares,  tentando resgatar um pouco dessa convivência que não aconteceu antes.
Yumara é uma mulher de vanguarda. E sabendo um pouco mais de sua história, eu sinto um orgulho imenso de ser da família dela e sinto ainda uma identificação... pensei logo ' devo ter puxado alguma coisinha dessa guerreira'...




domingo, 24 de agosto de 2014

Reencontro com a adolescência

Um palco, músicas e duas bandas... e um reencontro com meu passado. Ontem vi BLITZ e RPM e viajei no tempo...
Meu primeiro encontro com a RPM foi em meados dos anos 80. A primeira vez que vi um show tecnológico... tinha até raio laser!!!
Mas esse show de ontem foi especial porque no primeiro, aos 17 anos, lá estava eu com meu primeiro namoradinho. E no de ontem, lá estava eu com meu amado, que me disse ao ouvido: ' estás com o eterno namorado agora'.

sábado, 28 de junho de 2014

Planos para maioridade

A gente pensa que vai ser jovem para o resto da vida e esquece de planejar a velhice. Minha ficha caiu há alguns anos, quando meu querido Alexandre Schiavetti comentou sobre os melhores lugares para envelhecer e eu me toquei que Salvador não é a cidade ideal para viver a  maior idade. Se o universo permitir que eu envelheça, quero vivenciar essa fase em lugar tranquilo. Quero poder andar pelas ruas com acessibilidade garantida, pois sei da fragilidade de quem já não poderá correr, de quem vai ter um equilíbrio comprometido, que necessitará de boas calçadas e quero, principalmente, estar rodeada de pessoas que respeitem os idosos. Quero uma cidade com modernidade, mas sem pressa, sem violência tão exacerbada, que faz dos velhinhos o alvo preferido dos malandros.
Desde 2010, quando estive pela primeira vez em Montevideo e reparei na qualidade de vida que a cidade oferece e na quantidade de idosos que transitam pelas avenidas largas,  praças e ramblas (calçadões da orla), eu venho elencando a capital do Uruguay como o mais provável lugar que quero envelhecer.  Desde que começamos a namorar, falava para meu bem que eu precisava voltar ao 'paíszito' e apresentá-lo à ele. Ele começou a ler e assistir tudo o que passava sobre o Uruguay e, aproveitando a baixa estação e o fato da copa do Brasil atrair todo mundo para cá e as passagens para o exterior terem ficado bem em conta, nós largamos a Barra, em Salvador, um dos palcos mais famosos da Funfest e partimos para a nação Celeste. A semana foi mágica. Vivenciamos experiências de turistas e de moradores locais.




A escolha de onde se hospedar foi em função dessa proposta. Queríamos um bom bairro residencial. Ficamos em Punta Carretas. Pensamos em alugar um apartamento, mas o frio nos deixou em dúvida. Um hotel nos ofereceria mais tranquilidade se tivéssemos problemas com roupas, calefação, lavar louça, etc. E escolhemos bem. Um apart hotel, o Punta Trouville, simples, limpo, bom preço, onde era proibido fumar, com café da manhã farto e delicioso, com ótimos funcionários,  rua super tranquila e com muitos lugares para deixar o carro estacionado, numa rua paralela à rambla, rodeado de bons restaurantes,  lojas e perto do shopping mais bonito da cidade. Como era apart, tinha microondas e fogão elétrico, tudo de cozinha que nos permitiu ir à super mercados e comprar iguarias para pequenas refeições no hotel. E o legal é que no dia seguinte, ao sairmos para passear, voltávamos e encontrávamos tudo  muito arrumadinho e trocado. Foi ótimo! 
Alugamos um carro Spark, da Locadora Canin, que o meu amigo Gustavo já aluga há mais de dez anos e foi ótimo. Preço bom, carros novos, e uma disponibilidade maravilhosa. Tratei com o José Luis, dono da locadora, por whats app e email. Ele nos enviou o carro no aeroporto e já saímos de lá motorizados. Com o frio, chuva e vento, estar de carro foi uma 'mão na roda'.   



A semana nos reservaria estar no olho do furacão na notícia mais quente da copa no período. Assistimos o jogo do dia 24 na pequena cidade de Piriápolis, a 90 km de Montevideo. A Celeste ganhou, a mordida do Suárez  passou despercebida naquele dia e curtimos com o povo na rua. A nação estava muito feliz.  Aliás, com frio de 7ºC, o povo Uruguaio fez o clima esquentar depois da vitória contra a Azzurra. E fiquei impressionada como os jovens uruguaios saem do 'normal' na comemoração esportiva. Vi, tanto em Piriápolis quanto na rambla próxima ao hotel, muitos jovens exagerando no álcool e dirigindo, impedindo motoristas de prosseguir, criando muita algazarra. Polícia perto, mas nada de violência ou de notícias sobre episódios violentos em função disso.   Complicado foi entender e lidar com os ânimos uruguaios, nos dias seguintes, quando o assunto era a punição da Fifa ao jogador. O Suárez é muito querido. Camisas nas ruas, só do 9, canecas com a frase 'Deus salve o Rei', em Inglês, e com Suárez usando coroa. E propaganda com o rosto dele em todas as esquinas. Enfim... o moço era a grande esperança. Eu achei excesso a mordida, achei que esse moço, tendo mordido dois outros jogadores anteriormente, deveria ter passado por um tratamento psicológico para não repetir tal comportamento sob pressão e, na minha cabeça, mesmo que tivesse sido injusta a quantidade de jogos que ele ficou impedido, ainda assim, a Celeste e a nação já sofriam por terem que suportar um fato como este. Mas daí a tirar do Suárez a responsabilidade da ação e culpar a 'máfia brasileira' que queria que a Celeste fosse penalizada, hum,  não entendi muito. Pois bem, Celeste desclassificada. Muita tristeza. Eu que torço pra Celeste já há algum tempo, fiquei sentida e não esperava ver, mas vi, Uruguaios torcendo pelo Chile, e um garçom que nos tratou mal em pleno Mercado del Puerto, porque éramos brasileiros. Mas de maneira geral, observei muita educação, simpatia e cortesia naquele país. E já sou uma uruguaia de coração. 

Pensando na Maior Idade, fizemos atividades de quem nada tinha para fazer. A sede não era de ficar correndo atrás das atrações. Percorremos boa parte do bairro à pé.  Andamos horas pelas ruas do centro da Ciudad Vieja. Observamos o ritmo, as pessoas, turistas e moradores, artistas, vendedores ambulantes... Sentir o tempo sem pressa... Por conta disso estávamos  na praça mais importante da capital e participamos de uma manifestação popular contra a FIFA e o excesso de punição ao Luiz Suárez. 


Um dos lugares que mais gostei de ir, o MAM, Mercado Agrícola de Montevideo, com restaurantes mais simples mas de boa qualidade, doces variados e onde experimentamos uma cerveja artesanal com muita variedade de cores e sabores. O Tannat uruguayo é famoso no mundo inteiro, mas eles adoram cervejas!!!



Outro lugar ímpar foi o restaurante La Perdiz, com a linda e simpática Jéssica (que não gosta de foto) e que nos atendeu exercitando o português dela. Lá experimentamos uma tábua de mariscos, com dois peixes, lulas, vieiras e camarões, maravilhosa! Falam muito da carne uruguaia, mas eu destacaria também os pescados, mariscos, a diversidade do jamón (presuntos e fiambres maravilhosos) e as pizzas retangulares.

Neste restaurante, no aeroporto Carrasco, eles cultivam as rúculas que vão nas pizzas. Maravilhosas.


Em 2010 eu achei linda a fachada do Teatro Sollís. Na época fiquei apenas um final de semana e não consegui ver um espetáculo. Dessa vez, mesmo com grana curta, compramos ingressos em lugares baratos, apenas para entrar, conhecer e ter a experiência de vivenciar o ambiente do teatro.  Lindo demais!!!! Foi muito interessante ver como os idosos saem à noite, vivenciam mais o que o cidade tem a oferecer. Diferente de cidades brasileiras do nordeste. Aqui, acho que pela violência, pelos desconfortos, o idoso acaba mais isolado em casa ou só faz programas com família. Lá, muito normal, ver idosos sozinhos, em grupos ou casais, em todos os lugares. Os pontos de ônibus estão sempre com muitos idosos.  No Sollís, por exemplo, acho que eu era uma das pessoas mais novas da platéia. 


















É claro que eu tinha que mostrar ao meu bem as atrações  turísticas e também fomos a alguns lugares que são obrigatórios, como Mercado del Puerto e o Prédio Legislativo. O fato de ser inverno limitou muito, mas eu já tinha ido no verão e visto o quanto a cidade tem praias maravilhosas, que ficam cheias e animadas (apesar de não ser praias oceânicas, mas não perdem em nada, pois é o maior rio em largura, do mundo, na Bacia do La Plata). Por isso queria sentir mesmo o clima de frio, os restaurantes com as churrasqueiras imensas, onde ficam as carnes divinas. Todos os lugares que entramos, tiramos os casacos, pois tudo com calefação, em temperatura de 24, 26, 28  graus, super confortável.
Como estávamos de carro e ficávamos rodando pelas ruas também, descobrimos a confeitaria '25 de Mayo',  única, 'rica', um mimo de lugar, cheia de confeiteiros super simpáticos, onde estivemos por duas vezes, comprando o melhor suspiro que comi na vida, além dos docinhos divinos (na foto da mesa com a ceia dá pra ver), brioches e rosquinhas de dar água na boca.

Bom, foi a segunda viagem ao paíszito, e se Deus permitir, outras virão. E um belo dia, se esse Brasil não mudar, irei de vez, viver naquele lugar calmo e onde as leis funcionam.

sábado, 31 de maio de 2014

As seis malas de um casal

Eu sempre soube que ao longo da vida vamos nos enchendo de informações, impressões, conteúdos, conhecimento, experiências, percepções... enfim, vamos vivenciando e guardando, no consciente e no inconsciente, o resultado disso tudo. E assim vamos montando a mala que nos acompanha. Esta mala sempre se abre quando temos novas experiências. Ela se abre e tudo o que está lá dentro se apresenta, pronto para ser comparado, demonstrado, revelado, ampliado, retratado, as vezes, vomitado, por nós, diante do outro, que vivencia conosco aquelas novas experiências. E as vezes o conteúdo da mala nem sempre é identificado antes de ser revelado, o que pode nos provocar surpresa, porque falamos algo ou fazemos algo sem pensar. Exemplo prático: na vida à dois, quando uma briga acontece, acabamos falando coisas que vem direto da mala. Coisas que lemos, que ouvimos falar, que vimos em um filme, que sentimos em brigas anteriores e engolimos, enfim, tudo vem, de todos os lados... E as vezes nem temos consciência que fazemos isso. Terapia ajuda a dar uma revisada nessa nossa mala de vez em quando. Mas o que eu nunca tinha parado para pensar e que minha terapeuta me fez ver esta semana, é que temos ainda mais duas malas conosco. A de nossa mãe e a do nosso pai. Não integralmente, apenas as que eles, com ações, palavras, nos marcaram. É como uma herança que recebemos e nem percebemos. E as vezes são heranças que pesam, porque apenas nos chegam aquilo que eles fizeram e o que nós percebemos que foi feito. Sem a explicação deles do porquê de determinados atos ou palavras. Ah, e o nosso companheiro também tem as malas dos pais. Dito isto, vou dar o exemplo que tenho vivenciado e que só agora estou compreendendo as 'caras e bocas' que faço e as palavras que digo sem nem mesmo sentir. Contextualizando parte do que compõe minhas malas: Eu fui criada em um clima de insegurança financeira em minha família. Aos 13 anos comecei a perceber que meu pai era instável financeiramente. Ele abria muitos negócios que não iam a lugar algum. Ele dizia que não tinha dinheiro para fazer a feira completa da semana, mas chegava em casa com vinho, cerveja, carne para churrasco, whisky e cigarros. Isso nunca faltava. E eu, cá, formando os pacotes da minha mala... A insegurança financeira dele fez minha mãe tomar algumas atitudes. Ela voltou a estudar, fez concursos, começou a dar aulas na rede municipal e estadual, entrou na universidade e passou a sustentar a casa. Ele, enciumado, com despeito, que eu percebia mas não analisava, via um marido cada vez mais grosseiro. Um pai que eu admirava ia se transformando também em uma referência de 'marido indesejável' aos olhos de uma mocinha. Meus sonhos de casar terminaram ali. Tudo ia pra mala. Meu pai cada vez mais sem grana, minha mãe cada vez mais dona da vida financeira da família. A insegurança financeira de meu pai me levou a mudar de escola, saí da escola que eu gostava (era particular, onde estudei da 1ª série primária ao 1º científico), para ir para uma escola estadual _ a maior da minha cidade. Parei de me preparar para um vestibular e fui fazer magistério. Aos 16 anos eu fui trabalhar em um projeto do governo municipal como monitora de crianças de 4 aninhos (projeto Educar). Passei em concurso da prefeitura e no vestibular para Letras aos 17 anos e aos 18 fui dar aulas na escola que eu estudei a vida toda, à convite das Freiras da instituição, que gostavam de mim, na Ação Fraternal de Itabuna. Ao final dos 18 anos eu tinha independência financeira. Minha mãe entrou na universidade, meu pai vivia de bicos. Eles se separaram eu tinha 22 anos. O resultado disso tudo, hoje analiso, foi uma mocinha temerosa com relação à relacionamentos e ao uso do dinheiro. Sempre fui muito econômica. A ponto de meus irmãos acharem que eu não sabia curtir a vida e de Cris, pai do meu filho, me achar avarenta. E não consegui casar. Tive pessoas importantes em minha vida que me propuseram casamento. E eu acabei fugindo. Achei todos os defeitos neles!!! Como se eu fosse perfeita!!! Mas agora, em análise com minha terapeuta, vemos que era apenas meus mecanismos de defesa em ação. Não eram os defeitos alheios que me afastavam da possibilidade de conviver maritalmente com alguém. Era a possibilidade de repetir o modelo dos meus pais. As três malas sempre se abrem. As nossas e as dos nossos pais... Mas vejam, minha mãe é filha de uma relação mal sucedida. Meu pai também. Meus avós maternos não moravam juntos. Meus avós paternos moravam, mas dormiam separados e meu avô tinha amante. Olha que horror!!! Imagine as malas que meus pais carregavam... Então eu sou fruto de um bom número de malas complicadas no quesito 'casamento'. Agora, convivendo com meu namorido, não moramos em uma casa comum, mas tendo vida muito próxima, vejo um homem que é fruto de um casamento cheio de carinho e ele, apesar de estar no quarto relacionamento, busca ter algo parecido com o que seus pais construíram. Eles se amam muito (pude ver isso na convivência diária, por 15 dias, com os pais dele). O pai dele, que sempre foi provedor, nunca deixou nada faltar. A relação dele com o pai sempre foi de segurança financeira, de tranquilidade. Então, quando ele me vê economizando e com dificuldade em gastar comigo, ele estranha. E eu, quando o vejo comprando coisas caras (que as vezes acho supérflua), mas que para ele são naturais e prazerosas, faço caras e bocas sem sentir. Mas se não sou eu quem vai pagar, se é o dinheiro dele que é gasto, de onde vem minhas caras e bocas? Descobrimos, na terapia, que vem da minha mãe, da minha adolescência, das vezes que vi meu pai chegar com coisas para ele, em detrimento do que nossa casa, nossa mesa e geladeira precisavam, e de mim, de minha mãe e meus irmãos. Carrego as caras e bocas das minhas malas... E é esse é apenas uma agulha desse enorme palheiro. Urgente meus tratamentos!!! analisar as malas, identificar que conteúdos são esses, que precisam ser reciclados, retirados, modificados... Tenho achado a terapia de família, essa que me leva a um consultório a cada 15 dias, o remédio que me cura a alma. Quero deixar as malas leves. Elas tem pesado sobre mim e impedido minha evolução. Sinto que sem esses conteúdos eu vou dar conta da 'felicidade nossa de cada dia' de forma mais tranquila. Quero que as malas virem sacolinhas!!!!

terça-feira, 29 de abril de 2014

'Eu não nasci de óculos', mas eu adoro viver de óculos!!!

Não, não é balcão de ótica. É minha pequena coleção de óculos... Como começou essa história? Eu tinha 15 anos. Fui a uma lanchonete com minha turma de amigos e lá a galera pedindo lanche e eu não conseguia ler o painel com o cardápio. Como assim???!!!!! o Rafael Dórea, que usava óculos, tirou os dele e colocou-os em mim: Milagre!!! eu enxergava o mundo. Escolhi meu lanche e de quebra parei de ter a fama de metida a besta porque não falava com as pessoas (eu não as enxergava). E aí, comprar óculos era necessidade e se fosse diferente, eu ficava fã... pena que eles não duram uma vida, senão eu teria uma hiper super coleção!! Acho que óculos diz muito da gente. E eu até tenho lentes de contato, mas meu contato com elas é sempre um pouco problemático. Uso descartáveis quando tenho um evento pra ir. No dia a dia, são eles, meus companheiros de rosto, que estão comigo. Hoje conheci o Francisco Ventura Júnior. Um designer de óculos, que além de óptico, é pesquisador e escritor. O livro, Olhar atento, da editora Senac, que ganhei, autografado, depois de uma entrevista que fiz com ele, é maravilhoso, porque conta as histórias da sua ótica, da sua marca, da sua família e de como escolher um belo par de óculos e valorizar seu rosto. Além de histórias engraçadas sobre pessoas e suas escolhas. É ele quem cria os óculos da Marília Gabriela. Assisti uma palestra dele e conheci a loja exclusiva na Barra. Linda loja. Não resisti e comprei um par para mim (e que bom que eles dividem em várias vezes, porque pude comprar um modelo lindo, do jeito que gosto, inovador). O Francisco busca inovar de verdade. Tem óculos para quem tem hipermetropia e dificuldade para se maquiar. Uma lente sobe enquanto o olho na outra lente auxilia quem precisa enxergar para se maquiar e vice-versa. Fantástico. Tem óculos esportivo que não desgruda fácil e outro, tão miniaturizado que fica menor que um celular. Ideal para usar escondidinho no terno. Ou ainda um óculos colar para colocar em dia de festa e compor a vestimenta... Muito criativo. Mas o que gostei mesmo foi da ideia de vestir os óculos. De poder ser mais que um rosto com lentes. E se Herbert já afirmava que se eu estou triste eu tiro os óculos e não vejo ninguém, mais um motivo para ter um monte de modelos. Porque quero sempre ver tudo, e estar muito feliz para enxergar esse mundo maravilhoso!!! E que legal que hoje existem artistas que se dedicam a fazer objetos tão úteis. Olha a família do Ventura aí: Ele, a esposa, co-autora e sócia, a Débora e o filho lindo do casal, o Felipe.

sábado, 12 de abril de 2014

sobre a vida e sobre a dor

"Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência. Às vezes, usa a raiva, para que possamos compreender o infinito valor da paz. Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono. Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar sobre a responsabilidade do que dizemos. Às vezes usa o cansaço, para que possamos compreender o valor do despertar. Outras vezes usa doença, quando quer nos mostrar a importância da saúde. Deus costuma usar o fogo, para nos ensinar sobre água. Às vezes, usa a terra, para que possamos compreender o valor do ar. Outras vezes usa a morte, quando quer nos mostrar a importância da vida".
Fernando Pessoa ******** Convivendo de perto com a dor, a dor do outro, a dor de quem amamos, faço reflexões todo o tempo. A maior delas: como a dor é individual, subjetiva e oscilante. Por mais solidária que eu tente ser, não tenho como sentir a dor do outro. Nem o outro, sentir a minha. E como eu me resigno diante da dor inevitável, quando sei que ela faz parte do processo, eu não entendo como o outro blasfema e mal diz a dor, sabendo que ela é uma dose mínima do milagre da vida. Mas compreendo. Se a dor é de cada um, e sente quem a tem, como eu, saudável, posso experimentar, por menor que seja, a sensação da dor lancinante de quem teve o peito aberto? Quando a dor oscila, e entra momentos de riso, penso que a dor se foi. No quanto a vida simplifica sem dor. E ela volta, de forma até maior que os primeiros dias do pós operatório, e penso como a cura, em alguns casos, é um processo cruel. Esquecer uma dor física é tão bom. E o retorno dela, ainda mais forte, traz uma sensação de que algo errado está ocorrendo no organismo. Será que há algo inflamado? será que algum ponto interno se rompeu? será que ficou algum equipamento cirúrgico ou produto hospitalar dentro do organismo? Não é pra rir, mas a dor traz fantasmas enormes... inseguranças e neuras. Enquanto isso, minha cabeça viaja nas mil reflexões diárias de quem, estando sem dor, só ora para que a dor do outro passe logo.