domingo, 6 de maio de 2018

Vida em grupo

Estar em Portugal fez-me redescobrir a importância de ter muitos amigos e fazer atividades em grupo.





Grupos do doutoramento, grupo da UMinho, grupo de convivência a partir do facebook. Amigos de amigos, que nos são apresentados, e passam a conviver conosco. As vezes não há intimidade, não há muitos interesses em comum, mas somos todos estrageiros e temos tanto de parecido na rotina que as afinidades estão ali: na necessidade da convivência.

Eu senti, principalmente depois da queda e de estar debilitada, a importância de ter boa companhia.



 Eu me sinto mais forte, pois sei que tenho um grupo que posso contar. Nem sempre todos os amigos estão disponíveis ou dispostos para tudo. Não importa. Não existem cobranças.




Quem pode e quer, participa. Quem não pode, justifica-se e pronto. Outras oportunidades surgirão.


Vivemos a criar oportunidades: os aniversários; as defesas; as despedidas.



Muitos chegam  e se vão. As recepções: há os que chegam e integram-se. Há os eventos culturais. Há os feriados. Dificilmente passamos uma semana sem um único encontro. Nem que seja um almoço ou lanche.




 Com quem puder, com os que  estão por perto. Na UMinho, pelo centro da cidade. Há também os passeios ou os pequeniques. Encontramos motivos.





As vezes é só pra jogar conversa fora. Uma espécie de terapia brazuca, da saudade de falar bobagens que só quem é de uma mesma cultura entenderá. As vezes são nestas ocasiões que a terapia é mais profunda. Momentos em que tudo o que se quer é falar das faltas, das ausências. Quem resolveu ficar longe da terra natal e dos parentes bem entenderá.  Preencher a alma. E sempre com muita comida e bebida. E muitas risadas. Sim, redescobri em Portugal a amigoterapia. Confesso que foi uma das mais ricas trocas nesta aventura de cá estar.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Quando os nossos problemas se apequenam

Uma amiga está com câncer, que cá se diz cancro. De mama. Em novembro ela descobriu a doença. Em alguns dias, entre sentir o caroço, ir ao médico e confirmar o diagnóstico, vi uma pessoa alegre e cheia de atividades temer pela vida e perceber que precisava mudar. E mudou radical, mudou dieta (açúcar e carne vermelha fora do cardápio, inclusão de frutas e muitos legumes, e principalmente, comida sem embutidos, sem refrigerantes, sem doces), tentou diminuir o ritmo de vida na medida do possível (pois trabalhava demais), e mudou a forma de encarar a vida (antes reclamava da vida dura _ porque era mesmo dura) e passou a ter uma atitude de gratidão ao fato de estar viva.
Mas a luta contra a doença é árdua. Vi os cabelos caírem. Vi as sobrancelhas caírem. Vi o astral ter uma pequena queda (ela sempre tão alegre). Não é para menos. Nós mulheres adoramos nossos cabelos. Como ficar sem eles? "é pela vida", diriam os mais racionais. Mas os mais sensíveis hão de reconhecer, não é psicologicamente fácil lidar com determinadas perdas.
Então eu a convidei para um ensaio, mesmo careca, mas bonita, bem maquiada, com roupas e acessórios, para demarcar esse momento. Um momento em que o corpo reage, em que os cabelos se perdem para que a vida ganhe. Abaixo uma das imagens, essa, bem simbólica.



Ela ainda não viu as imagens. Eu e Sandrine estamos a produzir também um documentário sobre esse processo que envolve fé e transformação. Sandrine está na fase da edição e acredito que em breve o doc estará pronto.
Sabe o que mais me surpreendeu em conviver de perto com quem enfrenta um câncer? é que a vida não se resume só à doença. Os outros aspectos estão lá, os mesmos problemas, agigantados.
A minha amiga recebe salário mínimo do trabalho que tem cá. É assistente em uma escola. Com o câncer, foi afastada para o tratamento de quimioterapia e surpresa: o salário veio pela metade. Como assim governo português, como assim? a pessoa doente agora precisava se preocupar com dinheiro para pagar aluguel e comprar comida.
De novembro a fevereiro vi a minha amiga preocupada em como pagar as contas. Ela dá aulas de inglês à noite, sempre trabalhou muito para se manter com dignidade. E mesmo afastada do trabalho diário, multiplicou os bicos para manter-se, mas a quimio debilita (unhas fracas, roxas e doloridas; nariz que sangra; náuseas, fraqueza e enjôos). Vi minha amiga dizer que não estava dormindo bem, as contas se acumulavam.
Então eu e um grupo de amigos começamos a agir. Uma vaquinha, no mês passado, onde quem podia dar 5, 10, 15, 20 euros e assim foi... ajudamos no aluguel. Agora vamos fazer uma ação, um evento. Com música, rifas e alegria. Para somar nessa corrente do bem. Porque a minha amiga vai ainda fazer uma cirurgia. Tirar o tumor, passar um tempo de cama, sem levantar braços, debilitada e já imaginamos o quanto essas contas que não param de chegar lhe consomem o juízo.
Os meus problemas (perna, dores, fisioterapia), tudo ficou pequeno. A vida pede passagem. A amizade também. 

Retorno hoje, dia 12 de abril, para dizer que o evento foi lindo. Cheio de gente disposta a ajudar. E garantimos um valor em rifas que ela vai poder pagar o aluguel deste mês e sobrar um pouco para completar o do próximo mês. Toda essa ação foi muito interessante, pois demonstrou a união do nosso grupo. Seguem fotos:







segunda-feira, 12 de março de 2018

Meu menino agora é meu rapaz. E meu amigo.

Desde que eu me tornei mãe, eu sempre imaginava o dia em que todo e qualquer diálogo seria possível com Arthur Frederico. Aqui vale uma observação: esse blog foi criado em 2008, com essa finalidade, para que eu pudesse escrever logo após um acontecimento ou sobre um assunto que um dia eu poderia dialogar com ele. Um blog de coisas 'adultas' ainda pouco acessíveis para o universo do meu menino. O menino cresceu. Esse dia chegou.
Meu guri esteve em Portugal de 18 de dezembro a 25 de Janeiro. Comprovei que aos 14 anos, meu rapazinho já conversava de tudo. Mesmo quando não dominava bem o assunto, sabia ouvir e muitas vezes procurava pesquisar do que ouviu e retomava a conversa já com um posicionamento mais definido. Lembrou-me a mim mesma na adolescência. Eu pesquisava em uma grande enciclopédia de 15 volumes que tínhamos em casa. Ele vai à sites especializados. Gostamos do conhecimento.
Mas Arthur é um menino, gosta de games, muitas vezes prefere ficar no playstation ou no notebook, a fazer outros programas. Mas quando saíamos juntos, sozinhos ou com amigos, mostrou-se um jovem atencioso e sempre procurou interagir, conversar, olhar nos olhos dos interlocutores e participar ativamente da programação.
Por conta disso, todos os meus amigos que o conheceram fizeram elogios sobre ele. E diziam-me que era inteligente e comunicativo. Houve até quem ficasse surpreso ao saber que ele só tinha 14 anos, tal o nível de interação.

Penso que estas qualidades nos atuais dias, onde há tantos jovens alienados em seus mundinhos virtuais, é mesmo uma dádiva.
Uma amiga em especial, a Daiane, que ao conhecê-lo, disse-me que eu o incentive ao que ele almejar, mesmo que seja um curso universitário fora do país, pois ela o achou de um domínio excelente do inglês.
Outra maravilhosa constatação ao sair com meu filho, é que tenho um parceiro para uma coisa que adoro: experimentar delícias e coisas exóticas.





Arthur come de tudo. Experimenta tudo. Adora experiências degustativas. Isso também surpreende os amigos.
Meu rapazinho foi a melhor das minhas companhias aqui em Braga e por onde passeamos. Desta vez fomos à Lisboa e Coimbra.
Aqui por perto fomos à Barcelos, Apúlia, Vila do Conde, Guimarães, Esposende e, claro, ao Porto, com direito à visita ao Estádio do Dragão e seu museu interessante. Foram intensos 39 dias de companhia que enchem-me de saudades. Dia 13 de Março meu menino completa 15 anos. Eu completo também 15 anos de uma maternidade feliz. E da experiência de viver um amor maravilhoso com este que já é meu melhor amigo, como meu pai também o foi. 







quinta-feira, 1 de março de 2018

Todo o tempo para o corpo

Eu nunca tive muito tempo e disposição,  confesso, para cuidar do meu corpo. Desde estética aos exercícios físicos, sempre fui relapsa.  Não faço manicure ou pedicure, corto cabelo quando já está totalmente sem jeito, depilação só quando estou pior que o lobisomem. E ginástica, caminhadas??? Argh!!! Era o meu pavor. Por anos fiz pilates por indicação médica mas ia sempre uma vez por semana. Foi assim de 2014 a 2016, antes de vir para Portugal.
O pilates era mais tranquilo, sem aquele ambiente estranho das academias e ginásios. Não gosto da música alta e estridente no meu ouvido. Não gosto de pessoas todo tempo a falar do corpo. Problema meu, né? Porque foi exatamente essa falta de identificação com o ambiente que afastou-me das academias de ginástica.
Cá em Portugal, a rotina de estudos, aula, moradia longe de tudo e sem transporte fácil foram as desculpas perfeitas para ficar um ano sem nenhum exercício. E pilates cá é muito caro.
Resultado? Um corpo sem músculos ativos. Com o atrofiamento dos músculos aconteceu a lesão do joelho. Sem músculos firmes e fortes, só ossos e cartilagens sofrem. No primeiro escorregão, com o corpo acima do peso e sem músculos que sustentem, o resultado foi desastroso.
Agora, com o rompimento do menisco, eu me vejo obrigada a fazer diversas horas de fisioterapia e de exercícios de reabilitação.



Além da fisioterapia tradicional diária, com aplicações de microondas, infravermelho, estímulos elétricos e gelo, eu ainda faço  hidroterapia e musculação funcional 3x por semana, massagens terapêuticas para diminuir dores e câimbras 1x por semana, além de uma sessão semanal de reabilitação para aprender a lidar com as limitações da lesão. Isso me custa 25% do meu rendimento mensal. 



Então a vida ficou mesmo estacionada e tenho que achar alguma diversão em cuidar do corpo. No estúdio acima faço a reabilitação muscular.
Não sei quando vou operar. Então fortalecer a musculatura é mais que obrigação. E ao aprender a lidar com a lesão, a vida fica menos complicada. 
Eu sinto muito por eu ter me colocado na situação em que me encontro. Eu me perdoo por não ter cuidado antes do templo de minha alma. Eu amo este corpo que sustenta esta alma em experiência na terra. Eu sou grata por começar a cuidar-me como preciso e mereço.

Esta nova relação comigo é mesmo um capítulo novo em minha vida.