sábado, 14 de outubro de 2017

Sexta-feira 13 de terror em Montalegre

Lá fomos nós, eu e um grupo de amigos, para a cidade de Montalegre, para viver uma noite de sexta-feira 13 numa cidade a 77 km de Braga, por conta de toda a propaganda que a cidade faz em torno da festa.
A propaganda pode ser vista neste link. É mesmo uma propaganda fantástica. A cidade toda enfeitada, os moradores a vivenciar o clima de fantasias do terror.
Mas é preciso muita paciência e logística para dar conta da festa. Eu vivi a pior sexta-feira 13 de minha vida (até o momento). Sem superstições, penso que foi uma noite que tinha tudo para ser agradável e engraçada e foi um caos. Já na estrada, na entrada da cidade, um engarrafamento como nunca tinha visto em Portugal. Ficamos mais de uma hora andando e parando. E descobrimos que todos estavam parando os carros na estrada. Mas eu estou com a perna ainda machucada, andando com tensor reforçado e muletas, quando em declives e aclives, e isso não nos permitia por o carro na estrada. Mas ao chegarmos no acesso ao centro da cidade, nos deparamos com a polícia a impedir o acesso e o jeito foi parar no acostamento. Sem saber a distância, lá fomos nós, caminhando. A cidade fica num buraco e tivemos que descer por 2 km uma super ladeira. Eu, com muita dificuldade, imaginava que iríamos de carro, que não teria que andar tanto. Amigos me ajudando e amparando, chegamos ao centro. A temperatura em Braga estava 20 graus. Quando chegamos em Montalegre, estava 10 graus. Todos com muito frio, pois os nossos casaquinhos não suportaram a brusca mudança.
A festa era muita gente e nenhum lugar para sentar.
Saímos da área da festa para um restaurante perto para tomar sopa e havia um grupo de Bombeiros Voluntários. Minha amiga Karla explicou a situação a um deles que logo se mostrou prestativo e me levou no carro dos bombeiros de volta aonde estava nosso carro. As meninas tiveram que voltar andando todo o percurso e no frio. E na volta enfrentamos novo engarrafamento. Chegamos cansadas, sem ânimo, nossas fantasias de bruxas pareciam tão fora da proposta...
Da festa, concluí que há muita propaganda e ela é eficiente. Atrai um mundo de gente, mas a cidade não está preparada para toda a população que atrai.
Eu não volto mais numa sexta-feira 13 à Montalegre, muito embora tenha achado a cidade bonita, espero voltar de dia, em dia normal, pois me encantou a paisagem.
Hoje, com dores na perna doente e no outro lado do corpo por compensar tanto em um declive, penso que é mesmo um risco ir a um lugar sem conhecer nada sobre ele, mas não há nada que diga que o acesso é tão complicado. Por isso esse registro, para que quem intencione ir, pense nas alternativas
mais viáveis para enfrentar tal maratona.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Comida, saudade e afeto

Portugal tem sabores fantásticos. Tenho feito fotos de pratos e delícias que já experimentei neste pouco mais de um ano cá e vou falar sobre isso em breve. Mas este post é para falar de comida e afetos.
Eu descobri um mercadinho cá em Braga, especializado em alimentos para brasileiros, então achei pertinente contar algumas curiosidades, descobertas e necessidades que uma brazuca, uma brasileira como eu, sente cá em Portugal.
Quando eu cheguei eu me encantei com os super mercados portugueses. A variedade de frutas, tipo exportação, que no Brasil se paga muito caro, aqui é comum. Em todos os super mercados, nas quitandas, você não vê uma fruta velha, amassada. Tudo é sempre muito bonito. E os preços? parecidos com os do Brasil. Aqui eu pago o equivalente a 4 reais por um kilo de banana. A banana vem da ilha da madeira ou da costa rica.
Mas pago também o equivalente a 4 reais por meio quilo de cerejas, na primavera. Meu Deus! Nunca comi tanta cereja em minha vida. Cereja no Brasil é coisa de rico, eu comia um pouquinho, contadinhas as cerejinhas,  quando achava em promoção.
Maçã aqui é o mesmo preço e pera é bem mais barata do que no Brasil. É aquela pera pequena, portuguesa, deliciosa. Também a uva, de vários tipos e tamanhos, compro barato aqui. Portugal produz muito vinho, tem muitas plantações de parreiras de espécies variadas. Há uma uva bem pretinha e pequena que é um néctar. Deliciosa e baratinha.
Aqui, caro é um mamão. Nunca comi mamão desde que aqui estou. Paguei o equivalente a dez reais por um pedaço de melancia, porque estava com muito desejo, eu adoro melancia e creia, a melancia que comprei estava ruim. Não é igual a nossa.
Paguei o equivalente a seis reais por um pedaço pequeno de abóbora para fazer uma sopa. Porque eu também adoro sopa de abóbora.
Paguei o equivalente a 8 reais por duas bananas da terra, que cá se chama banana de fritar, e só tem em um mercado. E creia, a banana que eu comprei, estava verde e ficou verde a vida toda, não madurou, foi ficando podre e eu querendo aproveitar, cozinhei e nada de amolecer. Perdi meus dois euros e pouco.
Bom, eu sou apaixonada por cuscuz. Então eu trouxe na minha mala um pacote de farinha para cuscuz. Quando acabou, lá fui eu procurar, e achei uma massa de cuscuz marroquino, 500 gramas custam o equivalente a 9 reais.
Caroooo, mas é o custo de ter saudade.
Carne de charque e carne do sol, eu nunca vi. Meu feijão cá tem bacon e linguicinha. E só.
Compro meu feijão em lata, cozido e sem tempero, e aí eu coloco bastante alho e cebola. Fica comível.
Mas Portugal me conquistou pela padaria. Os pães daqui são maravilhosos e baratos.
Compro sempre uma baquete rústica, linda, que custa o equivalente e a 1 real e cinquenta.
Os Croissants, fofos, deliciosos, cada um custa o equivalente a um real.
Há uns brasileiros que já descobriram que vender comida do Brasil dá dinheiro. Descobri um mercadinho que tem café, cocadinhas, paçoquinha, tem goiabada cascão, tem massa para pão de queijo, tem farinha de tapioca. É um paraíso.
Eu tenho uma conhecida que vende uma quentinha com vatapá e moqueca, ela traz do Brasil bastante camarão defumado e azeite de dendê. Ela é carioca, mas morou muitos anos na Bahia, daí ela cozinha, com aquele jeitinho que só uma baiana de alma tem, e ela vende uma porção de moqueca de algum peixe daqui, com alguns camarões e uma porção de vatapá, maravilhosa a comida. A porção dá para comer duas pessoas. Ela cobra o equivalente a 36 reais cada porção. Eu comprei e fiquei comendo de pouquinho.
Comia quase chorando de tanta emoção! Foi tão bom.
No custo da saudade, eu queria mesmo era um acarajé e beber uma água de coco. Comida é mesmo um carinho para alma. Eu sei que ainda vou descobrir muitas comidas gostosas nesta terra lusitana, mas confesso que a nossa comidinha brasileira faz uma falta...

sábado, 30 de setembro de 2017

Sobre verão e inverno em Portugal

Eu cheguei em agosto de 2016 e confesso que não estava preparada para o final do verão europeu. Sofri nos primeiros dias com um calor que me paralisava. Eu já morei em cidades quentes e cá me pareceu uma mistura de Cuiabá com Petrolina. Então foi um susto. Teve dia de 42 graus, sem umidade, uma coisa estranha. Passei muito mal. E havia incêndios em todo o lado. Eu via helicópteros todo o tempo, a carregar água para jogar nos incêndios, pois os arredores de Braga, onde eu vivo, estava em chamas.
Este ano o calor foi mais ameno. Houve um número menor de incêndios, porém houve um incêndio que foi uma tragédia, em Pedrogão, que matou mais de 60 pessoas, encurraladas nas estradas tomadas pelo fogo dos dois lados, pois Portugal tem muita plantação de eucaliptos, pinus, plantas que queimam fácil e estavam bem secas com o calor.
Mas o que mais me intrigava no verão de 2016, eu recém chegada, era ver tantos estrangeiros na cidade e tantas lojas no centro com placa de fechada para férias.
Este ano eu entendi, cá o verão é vivido ao máximo.

Em agosto, as cidades portuguesas são invadidas por franceses, holandeses,  ingleses e por um monte de portugueses que moram fora. Esses portugueses, que  foram embora daqui há anos, atrás de melhores trabalhos, são chamados de  imigrantes. No verão, eles retornam para ver a família que aqui ficou. Eles voltam muita vezes com maridos ou esposas e com filhos que falam outras línguas... então o que mais se ouve é outro idioma nos locais de turismo. Há meio que um preconceito local com os imigrantes, porque esses portugueses que se foram para melhorar de vida, voltam com carrões, gastam muito no turismo e tratam os residentes locais com uma certa arrogância, então virou uma rixa interna. Eu, como observadora, fico comparando com brasileiros que vão trabalhar em serviços braçais em outros países e voltam com seus narizes empinados a articular inglês e dizer que moram nos states... é igualzinho!
Mas o verão cá é mesmo uma festa. Turistas e portugueses lotam as praias, os shoppings, os parques, é uma loucura. Mas é também um tempo de eventos a céu aberto, tempo de shows, de cultura, de alegria.
No ano passado, quando setembro chegou, trazendo o outono, eu fui tomada pela surpresa de observar  os dias com variações  incríveis de temperatura. Este ano foi igual. O clima oscila tanto... Os dias iniciam com 9, 10 graus. Super  frio. No meio do dia, já estamos em 23, 24 graus e lá pras dez da noite, chega-se a 7, 8 graus outra vez. É uma montanha russa para quem tem sinusite como eu. E vi todas as árvores perdendo suas folhas, as folhas ficando amarelas, queimadas, caindo cada vez mais. Para uma brasileira que sempre viveu em áreas tropicais, foi impressionante ver a ação do tempo tão definida sobre os processos da natureza.
Quando novembro chegar, já estaremos no inverno. O inverno cá ao norte é uma fase estranha. Banhos rápidos. Aquecedor no banheiro. As pessoas ficam muito em casa. Não há eventos nas ruas. As pessoas andam cabisbaixas. Muita roupa, para sair de casa, dá uma preguiça. E quando se chega em local aquecido tem que ir descascando a cebola, como se diz por aqui, ir tirando as peças: luvas, cachecol, casaco grosso, casaco interno, as vezes o local é tão quente que se não estivermos com uma camiseta por baixo de tudo, vamos ficar suando. E na hora de ir embora, voltar a vestir a cebola. É uma novela.
Cá em Braga são sete meses de muito frio e cinco de calor. Eu me lembro quando em final de maio consegui vestir uma bermuda e colocar uma sandália. Desde outubro eu só usava botas e blusas de mangas longas. Ver minhas pernas de fora, amarelas, porque sou parda, foi até engraçado.
Então eu estou aproveitando esses últimos dias de setembro para usar minhas rasteiras, enquanto ainda posso. Na semana passada fiz fotos da chegada do outono, cenas cinzas, numa praia linda, de Esposende.

sábado, 23 de setembro de 2017

Os brasileiros descobriram Portugal

Esta semana uma notícia confirmou o que empiricamente eu já vinha observando: os brasileiros estão a invadir Portugal! (risos)
O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras Português divulgou  que os pedidos de visto para residência no país aumentaram 1.300%. Isso mesmo. Antes de agosto eram 300 pedidos de visto por semana, para morar em Portugal. Já na primeira semana de setembro foram 4 mil pedidos de visto ( 4 mil em uma semana!)...
Claro que nem todos são brasileiros, mas sim, os brasucas são a maioria. Mas também há ucranianos, cabo verdenses, venezuelanos, entre outros. Em São Paulo, o consulado português já avisou que um visto, que levava em média 60 dias, agora tem o prazo de 90 dias ou mais. Só no mês de agosto deste ano, o consulado português em São Paulo recebeu mais pedidos de visto do que o total do ano passado inteiro. Esse atraso em emitir os vistos fez com que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras iniciasse um diálogo com as universidades Portuguesas, para que alterem seus calendários de seleções destinadas aos estrangeiros. Os vistos de estudantes são tratados como prioritários, por conta dos prazos para os alunos se apresentarem nas universidades portuguesas.
Mas para além da notícia, eu queria falar um pouco sobre essa moda por Portugal. Portugal está entre os países mais pacíficos do mundo. E suas universidades são bem classificadas na Europa. É como se os brasileiros de dois grupos bem distintos, estivessem descobrindo um novo cenário em terras lusitanas.
O primeiro grupo é o de jovens estudantes. As universidades portuguesas, em sua maioria, aceitam as notas do Enem. Talvez custear um filho em Portugal, seja mais em conta do que pagar uma universidade particular em uma grande cidade brasileira. Aqui sobram vagas de mestrado e doutorado. Há muitas opções de cursos bem diversos, alguns bem tecnológicos. Isso tudo atrai quem quer fazer uma universidade e ter uma experiência fora do país.  
E o segundo grupo é bem específico: são aposentados com uma situação financeira estável. Isso inclui profissionais liberais e funcionários públicos que estão aposentados, conseguiram ter algum patrimônio e querem vida mais tranquila.  
Cá em Braga o grupo de aposentados brasileiros é muito forte e só cresceu neste um ano que eu aqui estou. Eu conheci muitos casais que alugaram seus apartamentos no Brasil e vieram morar aqui. E o grande motivo é a fuga da violência generalizada no Brasil. 
Porque envelhecer é um processo difícil. O corpo  e a mente querem tranquilidade. E qual o idoso que consegue andar em paz nas ruas do Brasil?
Cá em Portugal o que mais se vê são pessoas com mais de 70 anos andando pelas ruas, sozinhas ou em grupos, nos cafés, lendo jornais nas praças. Uma vida muito tranquila. Aqui os motoristas de ônibus urbanos respeitam muito o idoso. Eu vi, diversas vezes, os motoristas aguardarem todos os velhinhos estarem sentados e em segurança, para então prosseguir. E olha que aqui tem é velhinho andando de ônibus. Não há pressa. A segurança, o respeito, são muito mais importantes. Também vemos muitos velhinhos nos eventos culturais. Participando ativamente. Então isso explica o quanto é importante envelhecer em um país que oferece dignidade ao idoso.  

sábado, 16 de setembro de 2017

Motorizada em Braga

Eu já comprei dois carros em menos de um ano em Braga. E eu nem pensava em dirigir por cá.
Mas pensando em melhor me locomover, pois aluguei uma casa em um local que não tem transporte público perto, acabei comprando um primeiro carro para ajudar uma amiga, que estava indo embora.
O primeiro carro eu paguei dois mil reais para a minha amiga, na época, o equivalente a 550 euros. Era uma carro ano 1986. Isso mesmo, um carro com 30 anos (foi em dezembro de 2016).
Super bem conservado, com 56 mil km rodados. Todo arrumadinho, com vidros elétricos, 4 portas! Mas era um carro duro de dirigir, um freio de mão que eu mal conseguia baixar e havia um problema no reservatório de água, tinha que completar todo dia. Então não gostei e acabei vendendo para um português que gostava de carros antigos, mas ele só me pagou 400 euros. Ai prejuízos!
Meses depois, cansada de esperar ônibus em um ponto a 800 metros de minha casa e de pagar taxi em dias de chuva e frio, eu comprei um carro ano 1996, com 270 mil quilômetros rodados. Isso mesmo. É um carro velho. 270 mil. Eu o comprei apenas para andar dentro da cidade onde eu moro.
Uma curiosidade, Em Lisboa o meu carro é proibido de trafegar. As regras da União Europeia proíbem veículos velhos de trafegar em cidades grandes, por conta do excesso de gases tóxicos emitidos por esses carros mais velhos.
Na verdade, eu comprei o carro já pensando no próximo inverno. Porque no inverno fica bem complicado transitar pelas ruas. O frio e o vento cortante são desencorajadores. Então para ir à Universidade e a um mercado fazer compras, o carro é um bem muito útil.
Neste último carro eu paguei 430 euros, mas ele estava com problemas sérios e não passou em um exame de verificação obrigatório e eu gastei mais 270 euros para consertar o que estava complicado e ele passar no exame. Ai prejuízos!
Cá, é possível comprar carros velhos mas em bom estado, desde que não se exija tanto do veículo. Alguns colegas meus, compraram carros por mil, mil e duzentos euros, o equivalente a 5 mil reais. mas são carros ainda muito bons para rodar e poder viajar.
O diferencial aqui, em carros velhos, é a forma de manutenção e a gasolina que é consumida pelo povo português. Uma gasolina de alta qualidade. Meu carro, por exemplo, faz mais de 16 quilômetros com um litro de combustível, na cidade. E na estrada, nas poucas vezes em que ousei sair de Braga, fez mais de 20 quilômetros com um litro. É um carro da marca fiat, um punto, 1996.  Ele é carro simples, de direção manual, não tem alta tecnologia. Mas a boa gasolina ajuda a manter a vida do motor.
Outro diferencial é o asfalto bom. Isso conserva o veículo. Aqui paga-se um imposto sob circulação mas se vê o resultado. O IUC é um imposto anual, eu paguei 38 euros de imposto.
Há ainda mais um diferencial. Todos os anos o carro é obrigado a passar por um exame de verificação de suas condições de segurança, onde se avalia tudo. Esse exame emite uma certificação e quando a polícia rodoviária nos para, em blitz, pede além dos nossos documentos, os documentos do carro, que inclui o resultado desse exame e também um seguro, que é obrigatório e que cobre as despesas de uma batida com outrem ou de um atropelamento. Se a pessoa não tiver esse seguro e essa carta de certificação do carro, o carro é apreendido e pode perder seu direito de dirigir.
Por isso fazer uma revisão geral anual e colocar o carro em funcionamento total é uma obrigação. Isso garante que o carro receba uma manutenção periódica. Vê-se muito carro velho na rua, mas difícil ver carro parado porque quebrou. Eu vi pouquíssimos em um ano.
É interessante perceber como algumas questões simples dinamizam a vida do cidadão. No Brasil todo mundo quer ter carro com menos de dois anos de uso. Aqui ninguém tem vergonha de ter um carro com dez, quinze, vinte, trinta anos de uso. Aqui orgulham-se de saberem conservar seus carros, a ponto de o veículo ser velho mas bom.
E com isso, ter um carro é algo muito acessível.
E com regras rígidas, com muitos radares espalhados, com muitas faixas para pedestres, com muitas passarelas pela cidade, percebe-se que o sentido de país que prioriza o cidadão, o ir e vir, o cuidado com o outro, é muito presente aqui em Portugal.
 Eu fiz exames de condução para transferir minha carta brasileira para uma carta portuguesa e algo que me chamou muito a atenção foi a preocupação com as faixas, o respeito ao pedestre e também, um sentimento de aguardar a sua vez sempre, no trânsito. Os apressadinhos cá não tem vez. Ninguém sai cortando faixa num engarrafamento. Ninguém tenta avançar sobre uma preferencial. O aguardar faz parte de uma obrigação moral. As rotatórias aqui, chamadas de rotundas, tem regras muito rígidas.
Estar aqui me deu uma sensação do quanto estamos atrasados no Brasil, na forma de lidar com as questões de trânsito, de tráfego e de propriedade de um veículo. Com certeza eu vou voltar muito mais consciente de preservar um veículo e do quanto essa cultura do carro novo é boba e só faz com que tenhamos cada vez mais gente ostentando veículos sem necessidade.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Porque caí - nada na vida é por acaso

Logo nos primeiros dias da entorse de ligamento de joelho, eu fiquei paralisada numa cama e lamentando: "Oh meu Deus, mas porque isso aconteceu comigo?". Sozinha, num país estranho, blá blá blá... enfim. Eu me achei tão vítima.
Daí um dia, após uma noite de sonhos cheios de diálogos com pessoas que eu nem conhecia, acordei com parte da conversa na cabeça:
Eu fui a minha algoz. Eu passei o ano sentada, a estudar e comer. Eu não fiz um único exercício físico em um ano. Eu engordei mais de seis kilos. Eu fiz escolhas equivocadas. De que adianta querer melhorar o intelecto se eu não tiver um corpo sadio?
Eu levei bronca dormindo! E de desconhecidos!
E não foi por falta de incentivo. A minha amiga e colega de sala, a Cris, ia nadar todo dia! falávamos de endorfina, serotonina, e das vantagens de nadar, e eu ... nada. Então eu era mesmo a culpada de estar naquela situação.

Daí fui procurar uma hidroterapia, após indicação de um profissional, também uma musculação funcional. Agora completa um mês que minha vida mudou. Vou quase todos dias ao ginásio de atividades físicas.
Lá no ginásio uma professora de educação física fez uma avaliação e constatou que estou com excesso de massa gorda, com pouca resistência muscular e pediu que eu mude  a dieta. Neste um mês, procurei não comer arroz nem batata, estou a diminuir o consumo de pães e guloseimas (que eu exagerei mesmo, pois cá em Portugal eles são mestres em delícias do pão), introduzi mais frutas no meu cardápio e mais importante, segundo ela, estou a comer a cada duas ou três horas, nem que seja uma fruta, um chá, algo para não deixar o estômago ficar vazio.
E já há diferença mesmo no peso. As roupas começam a ficar mais confortáveis. Estava tudo muito apertado.
Há também alterações no sono, no humor. Não sei como posso ter esquecido do corpo de forma tão profunda.
Então hoje repenso minha ideia sobre a queda, sobre a entorse. Penso que foi a forma do Universo me mostrar que não vai adiantar ser doutora doente. Não vai adiantar saber muito sobre algo se ainda não sei como conservar o corpo, estrutura que me foi destinada para que o intelecto, o emocional e o espiritual se manifestem.
A queda foi reconfigurada em minha história.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Um ano em Portugal

Esta semana completou um ano que estou a residir em Braga, ao Norte de Portugal. Uma amiga, que mora na Itália, questionou porque escolhi Portugal, logo que a comuniquei, e disse-me com todas as letras, que era uma escolha equivocada. Mas eu tenho muito a comemorar neste um ano.
Para quem me pergunta, o fato de ter escolhido Portugal para o meu doutorado, lembro do meu percurso e da minha necessidade:
Como todo professora de uma universidade, eu fui obrigada a buscar qualificação. Para quem não sabe, um curso só é bem avaliado pelo MEC, Ministério da Educação, se todos os professores daquele curso, forem bem qualificados. Então somos todos obrigados a fazer doutorado, pós doutorado, enfim, professor tem que estudar a vida toda. Então eu já tinha onze anos de concursada e estava esperando meu filho crescer, antes de me aventurar a fazer um doutorado. Eu precisava encontrar um bom programa de doutorado na área de fotojornalismo e semiótica, que é a área que eu estudo. Fora da Bahia, eu encontrei um em Santa Catarina, outro no Rio de Janeiro e também em São Paulo. Mas depois de analisar os prós e os contras de uma mudança de vida dentro do Brasil e de relatos de colegas que estudaram fora do Brasil, eu achei que a contrapartida de viver em um outro país seria interessante. E nesse estudo, nessa análise, eu acabei escolhendo ter uma experiência em Portugal por três grandes motivos:
1. Proximidade linguística, afinal escrever uma tese em outra língua é duplicar o desafio de tese.
2. Conhecer o colonizador. Eu sempre quis entender um pouco mais de Brasil e penso que vir a Portugal seria fazer um caminho às avessas.
3. Custo de vida reduzido. Eu vim sem bolsa, então eu tinha mesmo que buscar viver com pouco (salário de mestre, seco, retirado todas as ajudas de custo, inclusive auxílio saúde).

Eu fiz seleção em três universidades portuguesas. E passei nas três. Mas escolhi a Universidade do Minho, sediada em Braga. A UMinho está entre as melhores universidades jovens do mundo, pelo ranking Times Higher  EducationYoung University Rankings. Pelo quinto ano consecutivo, a UMinho está entre a elite mundial num dos mais prestigiados rankings internacionais. Esse ranking contempla um novo grupo de instituições universitárias de topo que, num curto período de tempo, atingiram um nível global de excelência em ensino, investigação, inovação e internacionalização. É uma lista com instituições com menos de 50 anos de idade.

Eu soube da UMinho, porque a Universidade em que eu sou concursada, a UFRB, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, tem convênio internacional com a UMinho na área de Educação. Muito embora não tenha em Ciências da Comunicação, que é o Programa em que eu passei para cursar. Cá na UMinho eu faço parte de uma turma de doutorandos, com oito alunos, onde tem três portugueses, quatro brasileiros e um nepalês.

Eu acabei escolhendo a UMinho também porque ela está sediada numa cidade muito interessante: Braga.
Braga é a cidade mais importante de uma grande região ao Norte. Perto da Espanha, a 80 km de Vigo, na Galiza. Braga está a 48 km da cidade do Porto, a segunda maior cidade de Portugal, depois, claro, da capital, Lisboa.

Braga é relativamente pequena, tem cerca de 180 mil habitantes, mas tem tudo que uma cidade grande tem, menos aeroporto perto. O aeroporto mais próximo, está na cidade do Porto.
Fora isso, Braga não deixa nada a desejar. Tem estação de trem, que liga Braga às maiores cidades e de lá para toda a Europa. E tem serviço de ônibus para a maior parte das cidades portuguesas. E o próprio serviço municipal de ônibus é bem organizado. Atrasa muito pouco.

Braga tem bons shoppings. Tem vida noturna, é uma cidade muito cultural. Tem eventos durante todo o ano. E o mais importante para uma estudante brasileira com  pouco dinheiro é que Braga tem um custo de vida acessível para quem não vive de luxos.

Toda pessoa que fala tem o seu lugar de fala. As experiências que nos marcam, elas são vividas pelo olhar que temos sobre elas, não é verdade? O meu lugar de fala é de alguém que veio para aprender.
Para vivenciar, além de todo o conteúdo dado na Universidade, viver também a experiência de estar fora do meu país, logo, fora da minha zona de conforto, de estar em país do colonizador, de estar em País que faz parte da comunidade internacional mais importante atualmente no mundo, a União Europeia. E nesse um ano, penso que vivi de forma muito interessante, pelo olhar estrangeiro, o quanto Portugal é um país encantador.