sábado, 28 de junho de 2014

Planos para maioridade

A gente pensa que vai ser jovem para o resto da vida e esquece de planejar a velhice. Minha ficha caiu há alguns anos, quando meu querido Alexandre Schiavetti comentou sobre os melhores lugares para envelhecer e eu me toquei que Salvador não é a cidade ideal para viver a  maior idade. Se o universo permitir que eu envelheça, quero vivenciar essa fase em lugar tranquilo. Quero poder andar pelas ruas com acessibilidade garantida, pois sei da fragilidade de quem já não poderá correr, de quem vai ter um equilíbrio comprometido, que necessitará de boas calçadas e quero, principalmente, estar rodeada de pessoas que respeitem os idosos. Quero uma cidade com modernidade, mas sem pressa, sem violência tão exacerbada, que faz dos velhinhos o alvo preferido dos malandros.
Desde 2010, quando estive pela primeira vez em Montevideo e reparei na qualidade de vida que a cidade oferece e na quantidade de idosos que transitam pelas avenidas largas,  praças e ramblas (calçadões da orla), eu venho elencando a capital do Uruguay como o mais provável lugar que quero envelhecer.  Desde que começamos a namorar, falava para meu bem que eu precisava voltar ao 'paíszito' e apresentá-lo à ele. Ele começou a ler e assistir tudo o que passava sobre o Uruguay e, aproveitando a baixa estação e o fato da copa do Brasil atrair todo mundo para cá e as passagens para o exterior terem ficado bem em conta, nós largamos a Barra, em Salvador, um dos palcos mais famosos da Funfest e partimos para a nação Celeste. A semana foi mágica. Vivenciamos experiências de turistas e de moradores locais.




A escolha de onde se hospedar foi em função dessa proposta. Queríamos um bom bairro residencial. Ficamos em Punta Carretas. Pensamos em alugar um apartamento, mas o frio nos deixou em dúvida. Um hotel nos ofereceria mais tranquilidade se tivéssemos problemas com roupas, calefação, lavar louça, etc. E escolhemos bem. Um apart hotel, o Punta Trouville, simples, limpo, bom preço, onde era proibido fumar, com café da manhã farto e delicioso, com ótimos funcionários,  rua super tranquila e com muitos lugares para deixar o carro estacionado, numa rua paralela à rambla, rodeado de bons restaurantes,  lojas e perto do shopping mais bonito da cidade. Como era apart, tinha microondas e fogão elétrico, tudo de cozinha que nos permitiu ir à super mercados e comprar iguarias para pequenas refeições no hotel. E o legal é que no dia seguinte, ao sairmos para passear, voltávamos e encontrávamos tudo  muito arrumadinho e trocado. Foi ótimo! 
Alugamos um carro Spark, da Locadora Canin, que o meu amigo Gustavo já aluga há mais de dez anos e foi ótimo. Preço bom, carros novos, e uma disponibilidade maravilhosa. Tratei com o José Luis, dono da locadora, por whats app e email. Ele nos enviou o carro no aeroporto e já saímos de lá motorizados. Com o frio, chuva e vento, estar de carro foi uma 'mão na roda'.   



A semana nos reservaria estar no olho do furacão na notícia mais quente da copa no período. Assistimos o jogo do dia 24 na pequena cidade de Piriápolis, a 90 km de Montevideo. A Celeste ganhou, a mordida do Suárez  passou despercebida naquele dia e curtimos com o povo na rua. A nação estava muito feliz.  Aliás, com frio de 7ºC, o povo Uruguaio fez o clima esquentar depois da vitória contra a Azzurra. E fiquei impressionada como os jovens uruguaios saem do 'normal' na comemoração esportiva. Vi, tanto em Piriápolis quanto na rambla próxima ao hotel, muitos jovens exagerando no álcool e dirigindo, impedindo motoristas de prosseguir, criando muita algazarra. Polícia perto, mas nada de violência ou de notícias sobre episódios violentos em função disso.   Complicado foi entender e lidar com os ânimos uruguaios, nos dias seguintes, quando o assunto era a punição da Fifa ao jogador. O Suárez é muito querido. Camisas nas ruas, só do 9, canecas com a frase 'Deus salve o Rei', em Inglês, e com Suárez usando coroa. E propaganda com o rosto dele em todas as esquinas. Enfim... o moço era a grande esperança. Eu achei excesso a mordida, achei que esse moço, tendo mordido dois outros jogadores anteriormente, deveria ter passado por um tratamento psicológico para não repetir tal comportamento sob pressão e, na minha cabeça, mesmo que tivesse sido injusta a quantidade de jogos que ele ficou impedido, ainda assim, a Celeste e a nação já sofriam por terem que suportar um fato como este. Mas daí a tirar do Suárez a responsabilidade da ação e culpar a 'máfia brasileira' que queria que a Celeste fosse penalizada, hum,  não entendi muito. Pois bem, Celeste desclassificada. Muita tristeza. Eu que torço pra Celeste já há algum tempo, fiquei sentida e não esperava ver, mas vi, Uruguaios torcendo pelo Chile, e um garçom que nos tratou mal em pleno Mercado del Puerto, porque éramos brasileiros. Mas de maneira geral, observei muita educação, simpatia e cortesia naquele país. E já sou uma uruguaia de coração. 

Pensando na Maior Idade, fizemos atividades de quem nada tinha para fazer. A sede não era de ficar correndo atrás das atrações. Percorremos boa parte do bairro à pé.  Andamos horas pelas ruas do centro da Ciudad Vieja. Observamos o ritmo, as pessoas, turistas e moradores, artistas, vendedores ambulantes... Sentir o tempo sem pressa... Por conta disso estávamos  na praça mais importante da capital e participamos de uma manifestação popular contra a FIFA e o excesso de punição ao Luiz Suárez. 


Um dos lugares que mais gostei de ir, o MAM, Mercado Agrícola de Montevideo, com restaurantes mais simples mas de boa qualidade, doces variados e onde experimentamos uma cerveja artesanal com muita variedade de cores e sabores. O Tannat uruguayo é famoso no mundo inteiro, mas eles adoram cervejas!!!



Outro lugar ímpar foi o restaurante La Perdiz, com a linda e simpática Jéssica (que não gosta de foto) e que nos atendeu exercitando o português dela. Lá experimentamos uma tábua de mariscos, com dois peixes, lulas, vieiras e camarões, maravilhosa! Falam muito da carne uruguaia, mas eu destacaria também os pescados, mariscos, a diversidade do jamón (presuntos e fiambres maravilhosos) e as pizzas retangulares.

Neste restaurante, no aeroporto Carrasco, eles cultivam as rúculas que vão nas pizzas. Maravilhosas.


Em 2010 eu achei linda a fachada do Teatro Sollís. Na época fiquei apenas um final de semana e não consegui ver um espetáculo. Dessa vez, mesmo com grana curta, compramos ingressos em lugares baratos, apenas para entrar, conhecer e ter a experiência de vivenciar o ambiente do teatro.  Lindo demais!!!! Foi muito interessante ver como os idosos saem à noite, vivenciam mais o que o cidade tem a oferecer. Diferente de cidades brasileiras do nordeste. Aqui, acho que pela violência, pelos desconfortos, o idoso acaba mais isolado em casa ou só faz programas com família. Lá, muito normal, ver idosos sozinhos, em grupos ou casais, em todos os lugares. Os pontos de ônibus estão sempre com muitos idosos.  No Sollís, por exemplo, acho que eu era uma das pessoas mais novas da platéia. 


















É claro que eu tinha que mostrar ao meu bem as atrações  turísticas e também fomos a alguns lugares que são obrigatórios, como Mercado del Puerto e o Prédio Legislativo. O fato de ser inverno limitou muito, mas eu já tinha ido no verão e visto o quanto a cidade tem praias maravilhosas, que ficam cheias e animadas (apesar de não ser praias oceânicas, mas não perdem em nada, pois é o maior rio em largura, do mundo, na Bacia do La Plata). Por isso queria sentir mesmo o clima de frio, os restaurantes com as churrasqueiras imensas, onde ficam as carnes divinas. Todos os lugares que entramos, tiramos os casacos, pois tudo com calefação, em temperatura de 24, 26, 28  graus, super confortável.
Como estávamos de carro e ficávamos rodando pelas ruas também, descobrimos a confeitaria '25 de Mayo',  única, 'rica', um mimo de lugar, cheia de confeiteiros super simpáticos, onde estivemos por duas vezes, comprando o melhor suspiro que comi na vida, além dos docinhos divinos (na foto da mesa com a ceia dá pra ver), brioches e rosquinhas de dar água na boca.

Bom, foi a segunda viagem ao paíszito, e se Deus permitir, outras virão. E um belo dia, se esse Brasil não mudar, irei de vez, viver naquele lugar calmo e onde as leis funcionam.

sábado, 31 de maio de 2014

As seis malas de um casal

Eu sempre soube que ao longo da vida vamos nos enchendo de informações, impressões, conteúdos, conhecimento, experiências, percepções... enfim, vamos vivenciando e guardando, no consciente e no inconsciente, o resultado disso tudo. E assim vamos montando a mala que nos acompanha. Esta mala sempre se abre quando temos novas experiências. Ela se abre e tudo o que está lá dentro se apresenta, pronto para ser comparado, demonstrado, revelado, ampliado, retratado, as vezes, vomitado, por nós, diante do outro, que vivencia conosco aquelas novas experiências. E as vezes o conteúdo da mala nem sempre é identificado antes de ser revelado, o que pode nos provocar surpresa, porque falamos algo ou fazemos algo sem pensar. Exemplo prático: na vida à dois, quando uma briga acontece, acabamos falando coisas que vem direto da mala. Coisas que lemos, que ouvimos falar, que vimos em um filme, que sentimos em brigas anteriores e engolimos, enfim, tudo vem, de todos os lados... E as vezes nem temos consciência que fazemos isso. Terapia ajuda a dar uma revisada nessa nossa mala de vez em quando. Mas o que eu nunca tinha parado para pensar e que minha terapeuta me fez ver esta semana, é que temos ainda mais duas malas conosco. A de nossa mãe e a do nosso pai. Não integralmente, apenas as que eles, com ações, palavras, nos marcaram. É como uma herança que recebemos e nem percebemos. E as vezes são heranças que pesam, porque apenas nos chegam aquilo que eles fizeram e o que nós percebemos que foi feito. Sem a explicação deles do porquê de determinados atos ou palavras. Ah, e o nosso companheiro também tem as malas dos pais. Dito isto, vou dar o exemplo que tenho vivenciado e que só agora estou compreendendo as 'caras e bocas' que faço e as palavras que digo sem nem mesmo sentir. Contextualizando parte do que compõe minhas malas: Eu fui criada em um clima de insegurança financeira em minha família. Aos 13 anos comecei a perceber que meu pai era instável financeiramente. Ele abria muitos negócios que não iam a lugar algum. Ele dizia que não tinha dinheiro para fazer a feira completa da semana, mas chegava em casa com vinho, cerveja, carne para churrasco, whisky e cigarros. Isso nunca faltava. E eu, cá, formando os pacotes da minha mala... A insegurança financeira dele fez minha mãe tomar algumas atitudes. Ela voltou a estudar, fez concursos, começou a dar aulas na rede municipal e estadual, entrou na universidade e passou a sustentar a casa. Ele, enciumado, com despeito, que eu percebia mas não analisava, via um marido cada vez mais grosseiro. Um pai que eu admirava ia se transformando também em uma referência de 'marido indesejável' aos olhos de uma mocinha. Meus sonhos de casar terminaram ali. Tudo ia pra mala. Meu pai cada vez mais sem grana, minha mãe cada vez mais dona da vida financeira da família. A insegurança financeira de meu pai me levou a mudar de escola, saí da escola que eu gostava (era particular, onde estudei da 1ª série primária ao 1º científico), para ir para uma escola estadual _ a maior da minha cidade. Parei de me preparar para um vestibular e fui fazer magistério. Aos 16 anos eu fui trabalhar em um projeto do governo municipal como monitora de crianças de 4 aninhos (projeto Educar). Passei em concurso da prefeitura e no vestibular para Letras aos 17 anos e aos 18 fui dar aulas na escola que eu estudei a vida toda, à convite das Freiras da instituição, que gostavam de mim, na Ação Fraternal de Itabuna. Ao final dos 18 anos eu tinha independência financeira. Minha mãe entrou na universidade, meu pai vivia de bicos. Eles se separaram eu tinha 22 anos. O resultado disso tudo, hoje analiso, foi uma mocinha temerosa com relação à relacionamentos e ao uso do dinheiro. Sempre fui muito econômica. A ponto de meus irmãos acharem que eu não sabia curtir a vida e de Cris, pai do meu filho, me achar avarenta. E não consegui casar. Tive pessoas importantes em minha vida que me propuseram casamento. E eu acabei fugindo. Achei todos os defeitos neles!!! Como se eu fosse perfeita!!! Mas agora, em análise com minha terapeuta, vemos que era apenas meus mecanismos de defesa em ação. Não eram os defeitos alheios que me afastavam da possibilidade de conviver maritalmente com alguém. Era a possibilidade de repetir o modelo dos meus pais. As três malas sempre se abrem. As nossas e as dos nossos pais... Mas vejam, minha mãe é filha de uma relação mal sucedida. Meu pai também. Meus avós maternos não moravam juntos. Meus avós paternos moravam, mas dormiam separados e meu avô tinha amante. Olha que horror!!! Imagine as malas que meus pais carregavam... Então eu sou fruto de um bom número de malas complicadas no quesito 'casamento'. Agora, convivendo com meu namorido, não moramos em uma casa comum, mas tendo vida muito próxima, vejo um homem que é fruto de um casamento cheio de carinho e ele, apesar de estar no quarto relacionamento, busca ter algo parecido com o que seus pais construíram. Eles se amam muito (pude ver isso na convivência diária, por 15 dias, com os pais dele). O pai dele, que sempre foi provedor, nunca deixou nada faltar. A relação dele com o pai sempre foi de segurança financeira, de tranquilidade. Então, quando ele me vê economizando e com dificuldade em gastar comigo, ele estranha. E eu, quando o vejo comprando coisas caras (que as vezes acho supérflua), mas que para ele são naturais e prazerosas, faço caras e bocas sem sentir. Mas se não sou eu quem vai pagar, se é o dinheiro dele que é gasto, de onde vem minhas caras e bocas? Descobrimos, na terapia, que vem da minha mãe, da minha adolescência, das vezes que vi meu pai chegar com coisas para ele, em detrimento do que nossa casa, nossa mesa e geladeira precisavam, e de mim, de minha mãe e meus irmãos. Carrego as caras e bocas das minhas malas... E é esse é apenas uma agulha desse enorme palheiro. Urgente meus tratamentos!!! analisar as malas, identificar que conteúdos são esses, que precisam ser reciclados, retirados, modificados... Tenho achado a terapia de família, essa que me leva a um consultório a cada 15 dias, o remédio que me cura a alma. Quero deixar as malas leves. Elas tem pesado sobre mim e impedido minha evolução. Sinto que sem esses conteúdos eu vou dar conta da 'felicidade nossa de cada dia' de forma mais tranquila. Quero que as malas virem sacolinhas!!!!

terça-feira, 29 de abril de 2014

'Eu não nasci de óculos', mas eu adoro viver de óculos!!!

Não, não é balcão de ótica. É minha pequena coleção de óculos... Como começou essa história? Eu tinha 15 anos. Fui a uma lanchonete com minha turma de amigos e lá a galera pedindo lanche e eu não conseguia ler o painel com o cardápio. Como assim???!!!!! o Rafael Dórea, que usava óculos, tirou os dele e colocou-os em mim: Milagre!!! eu enxergava o mundo. Escolhi meu lanche e de quebra parei de ter a fama de metida a besta porque não falava com as pessoas (eu não as enxergava). E aí, comprar óculos era necessidade e se fosse diferente, eu ficava fã... pena que eles não duram uma vida, senão eu teria uma hiper super coleção!! Acho que óculos diz muito da gente. E eu até tenho lentes de contato, mas meu contato com elas é sempre um pouco problemático. Uso descartáveis quando tenho um evento pra ir. No dia a dia, são eles, meus companheiros de rosto, que estão comigo. Hoje conheci o Francisco Ventura Júnior. Um designer de óculos, que além de óptico, é pesquisador e escritor. O livro, Olhar atento, da editora Senac, que ganhei, autografado, depois de uma entrevista que fiz com ele, é maravilhoso, porque conta as histórias da sua ótica, da sua marca, da sua família e de como escolher um belo par de óculos e valorizar seu rosto. Além de histórias engraçadas sobre pessoas e suas escolhas. É ele quem cria os óculos da Marília Gabriela. Assisti uma palestra dele e conheci a loja exclusiva na Barra. Linda loja. Não resisti e comprei um par para mim (e que bom que eles dividem em várias vezes, porque pude comprar um modelo lindo, do jeito que gosto, inovador). O Francisco busca inovar de verdade. Tem óculos para quem tem hipermetropia e dificuldade para se maquiar. Uma lente sobe enquanto o olho na outra lente auxilia quem precisa enxergar para se maquiar e vice-versa. Fantástico. Tem óculos esportivo que não desgruda fácil e outro, tão miniaturizado que fica menor que um celular. Ideal para usar escondidinho no terno. Ou ainda um óculos colar para colocar em dia de festa e compor a vestimenta... Muito criativo. Mas o que gostei mesmo foi da ideia de vestir os óculos. De poder ser mais que um rosto com lentes. E se Herbert já afirmava que se eu estou triste eu tiro os óculos e não vejo ninguém, mais um motivo para ter um monte de modelos. Porque quero sempre ver tudo, e estar muito feliz para enxergar esse mundo maravilhoso!!! E que legal que hoje existem artistas que se dedicam a fazer objetos tão úteis. Olha a família do Ventura aí: Ele, a esposa, co-autora e sócia, a Débora e o filho lindo do casal, o Felipe.

sábado, 12 de abril de 2014

sobre a vida e sobre a dor

"Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência. Às vezes, usa a raiva, para que possamos compreender o infinito valor da paz. Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono. Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar sobre a responsabilidade do que dizemos. Às vezes usa o cansaço, para que possamos compreender o valor do despertar. Outras vezes usa doença, quando quer nos mostrar a importância da saúde. Deus costuma usar o fogo, para nos ensinar sobre água. Às vezes, usa a terra, para que possamos compreender o valor do ar. Outras vezes usa a morte, quando quer nos mostrar a importância da vida".
Fernando Pessoa ******** Convivendo de perto com a dor, a dor do outro, a dor de quem amamos, faço reflexões todo o tempo. A maior delas: como a dor é individual, subjetiva e oscilante. Por mais solidária que eu tente ser, não tenho como sentir a dor do outro. Nem o outro, sentir a minha. E como eu me resigno diante da dor inevitável, quando sei que ela faz parte do processo, eu não entendo como o outro blasfema e mal diz a dor, sabendo que ela é uma dose mínima do milagre da vida. Mas compreendo. Se a dor é de cada um, e sente quem a tem, como eu, saudável, posso experimentar, por menor que seja, a sensação da dor lancinante de quem teve o peito aberto? Quando a dor oscila, e entra momentos de riso, penso que a dor se foi. No quanto a vida simplifica sem dor. E ela volta, de forma até maior que os primeiros dias do pós operatório, e penso como a cura, em alguns casos, é um processo cruel. Esquecer uma dor física é tão bom. E o retorno dela, ainda mais forte, traz uma sensação de que algo errado está ocorrendo no organismo. Será que há algo inflamado? será que algum ponto interno se rompeu? será que ficou algum equipamento cirúrgico ou produto hospitalar dentro do organismo? Não é pra rir, mas a dor traz fantasmas enormes... inseguranças e neuras. Enquanto isso, minha cabeça viaja nas mil reflexões diárias de quem, estando sem dor, só ora para que a dor do outro passe logo.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Contradições hospitalares

Estou 'quase' internada em um grande hospital de referência em cardiologia da América Latina. Acompanhante de um interno, que fez uma cirurgia complexa, eu fiquei impressionada com o atendimento da equipe médica, a competência dos cirurgiões. E só tenho a agradecer o fato do Brasil ter, pelo SUS, a possibilidade de salvar vidas com tanta eficiência. Afinal, como professora universitária, que tem impostos descontados em folha, eu fico contente de ver o meu dinheiro sendo bem usado pelo poder público. Na página institucional do hospital, que tem vínculo com a USP, está escrito que a instituição 'é reconhecida tanto nacional como internacionalmente, como mostram as citações na imprensa leiga, nas publicações científicas e nas inúmeras participações e comunicações de seus profissionais a congressos nacionais e internacionais'. Maravilha!!!! Mas por outro lado, depois de uma semana aqui dentro, estou vendo de perto as incoerências de um lugar como esse. Comecemos pelo pré-operatório. Imagina uma pessoa aguardando para operar do coração, em uma cirurgia que vai retirar parte da aorta e colocar um tubo, com todas as ligações arteriais possíveis, e, faltando algumas horas para essa cirurgia, com os nervos abalados, chegam três enfermeiras em menos de uma hora e meia, para tirar sangue dessa pessoa? Quem gosta de receber tanta perfuração? porque não apenas uma enfermeira para coletar tudo de uma vez? desorganização? e mais, duas delas ao mesmo tempo, disputando veia e fazendo algumas perfurações e dizendo que o paciente não é bom de veias? quem não é bom? quem deveria acertar? É de dar nos nervos... Cirurgia efetuada, pessoa acorda na UTI. Imagine uma madrugada na UTI, escutando duas enfermeiras, ou técnicas em enfermagem, impossível precisar, duas senhoras, falando de namoro, de paquera, de que o namorado de uma delas faz e acontece... e pela manhã, na troca da equipe, entram enfermeiros novos, dois deles, uma mulher e um homem, dançando forró? e um paciente se anima a cantar, e parte da equipe de enfermagem canta com ele. Achou que eu exagero? Não, eu queria que fosse exagero, mas meu companheiro desceu tendo vivenciado isso e depois eu conheci outras pessoas que estavam na UTI e vivenciaram também algumas dessas situações. Um deles, o Zé Roberto, entubado, com secreções causadas pela introdução do tubo, tossiu, não tinha como se mover e começou a colocar a secreção pela lateral da boca, porque não encontrou ninguém para ajudá-lo e só apareceu um técnico muitos minutos depois para ajudá-lo. A sensação, ele me contou, foi que poderia morrer a qualquer momento, engasgado com secreção e sem nem poder falar por conta do tubo. Também viu show de forró entre a equipe, dias depois, e também um grupo de enfermeiros organizando uma vaquinha para arrecadar dinheiro para o pastel, com direito a ironizar, dizendo que se sobrasse dinheiro, trariam pasteis para os pacientes também... ora, convenhamos, quem, tendo passado por quatro, cinco, seis horas de cirurgia, peito remendado, se sentindo estropiado com tubo na boca, marca-passo, dreno, cateter, tem paciência para esse tipo de comportamento de equipe de enfermagem de um grande hospital? Então meu companheiro veio para o quarto. Tudo bem mais calmo do que na UTI (que coisa!). Os pacientes ficam em enfermarias com dois leitos e seus respectivos acompanhantes, por sinal, super mal acomodados em cadeiras quebradas. Mas ainda assim a paz que se sente saindo da UTI é impressionante. Todos que conversei relatam que a UTI é um local complicado. Além dos dois internos que tivemos o prazer de dividir a enfermaria em dias diversos (o Sérgio e sua esposa Leny, depois o Zé Roberto e sua mãe), teve ainda os relatos do Josevelto e sua mulher, a Val, que conhecemos no pré-operatório e de uma mocinha que a mãe pegou infecção generalizada na UTI e já estava há 22 dias nesta unidade. Então são opiniões de pessoas que passaram por cirurgias cardíacas e estavam extremamente debilitados, fragilizados, inseguros, precisando de tranquilidade e paz e mais da mocinha que passava, há 22 dias, pelo menos uma hora e meia na UTI visitando a mãe. Bom, nas enfermarias é impressionante como conhecemos, a cada dia, equipes de cinco a dez profissionais diferentes, entre técnicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, médicos... Alguns chegam com tanto cuidado, tanto carinho, com um jeito maravilhoso de lidar com o paciente. Fiquei encantada com os mais novos, gente muito jovem, com um sorriso compreensível no rosto e dando todo tipo de explicação para os procedimentos. Mas também vi, entre técnicos de enfermagem e enfermeiros, pessoas que parecem estar com raiva do mundo e toca o paciente com rispidez, faz e tira um curativo como se estivesse carpindo, e acaba machucando sem necessidade, quem está ali tão carente, porque tudo está doendo muito e, mais uma dor, mesmo que de um repuxar no corte, não é apenas mais uma dor, é uma dor desnecessária, causada por um profissional que está ali para aliviar os traumas... Outra questão que me fez ficar decepcionada foi a higiene do lugar. Depois de cirurgias tão complexas... imagina que os médicos manipulam corações!!! então, uma infecção por aqui, colocaria à perder o trabalho de verdadeiros artistas da medicina. Pois é, então a assepsia deveria, DEVERIA, ser prioridade, certo? Ledo engano. Vi cabelo na comida, vi cestos de lixo com mais de 30 horas sem recolher, vi chão sem varrer e sem passar um pano com desinfetante também por mais de 30 horas, vi banheiro que tive nojo dos azulejos e pia que, penso, mais facilita infecção que limpa o que tá sujo... Será que eu estou observando o que não deveria? será que estou exigindo mais do que um hospital público, de referência cardíaca deveria oferecer? Eu, como fofoqueira social oficializada por bacharelado(jornalista), não consigo ficar sem registrar isso. E penso, no país da copa 2014, deveria haver também eficiência na saúde, como um todo. Se um hospital referência, na maior cidade do país, é desse jeito, o que pensar dos outros hospitais públicos por aí?

quinta-feira, 27 de março de 2014

Com o coração nas mãos

A pessoa especial que o universo me presenteou, é mesmo muito especial para mim. É especial para muita gente. E nesse momento estamos todos em energização, enviando para ele o que há de melhor no universo, em função de uma cirurgia cardíaca que acontece hoje. Mas eu queria falar da minha experiência em estar ao lado de quem vai operar do coração. Operar é sempre uma barra... eu operei da garganta, aos seis aninhos, para retirada das amígdalas (coisa tão 'out', mas moda nos anos 70), fiz um procedimento cirúrgico para retirada de um cisto no seio em 1999, algumas pulsões, também para eliminar cistos, e há alguns dias fiz core biopsy também no seio. E só. Meu medo de hospital e de procedimentos invasivos é tão grande que eu não quis operar para ter filho e fugindo da regra, aos 33 anos (na época, era considerada gestação idosa), eu não quis cesariana e tive Arthur de parto normal e sem anestesia. Sim, fujo da faca. Pois bem, é sem essa referência de dor, de período de convalescência e de sofrimento em pós operatórios, que convivo com um homem que já operou duas vezes do coração e está indo hoje para a terceira. Sim, ele tem. Ele já sentiu o que é ficar numa maca, entrando em uma sala, para dali a instantes iniciarem uma manipulação do seu órgão vital mais falado, mais sentido. Aquele que dispara, que bate todo tempo e avisa que a vida pulsa. Então, para ele, operar coração remete a muitas sensações, emoções e sentimentos. Soubemos há um mês que ele operaria no final de março. E desde então venho lidando com os medos dele e os meus. Os dele são os mais variados possíveis. Medo das horas que precedem, dos procedimentos, desde as enfermeiras que furam braços e aplicam injeções e enjoos do cateterismo, que ele já fez ontem e temia tanto, e das dores dos cortes, dos pontos após e da dor nas costas e no peito, porque manipulam o tronco por horas e ... enfim, ele me descreveu tantas vezes as cirurgias que até eu senti dor. E os medos existenciais... medo de sequelas, de falhas, medo de ir e não voltar... medos humanos de quem sabe que ficará com o coração nas mãos dos outros (dois médicos vão operá-lo). Foi um mês difícil. Nervoso, irritado, vi ele brigar com tudo e todos, inclusive comigo. Até tratei com minha terapeuta a minha dureza, ao dizer a ela que achava que ele estava manhoso demais. E ela, que já operou o coração também, me falou de cada etapa, das dores, e de como é difícil lidar com essa questão de manipulação de um órgão tão vital. Puxa, que insensibilidade a minha, me toquei. E pedi desculpas a ele, há cerca de uma semana, por não ter a referência de dor, como a dele e as vezes parecer que acho tudo fácil de ser superado. Ele, talvez por conta da ansiedade, passou muito mal por dois dias antes de viajarmos e eu, ao seu lado, só rezava e rezava... Com a falta de referência de quem nunca operou, mas que tem um apego espiritual ao princípio que a Divina Providência protege e providencia o melhor, eu só o conforto e digo todo o tempo: confie! Estamos em São Paulo, no Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese. Consegui acompanhá-lo nesse momento difícil e estou participando de todo o processo do pré-operatório. Antes de ontem fez cateterismo. Ontem já ficou internado, nos procedimentos que antecedem a cirurgia. Conheci um dos médicos que vai operá-lo ontem, e ele nos explicou que, como meu amado tem duas cirurgias anteriores, os médicos precisam primeiro ir garimpando, para achar o órgão com cuidado, pois é um coração já manipulado duas vezes, há procedimentos anteriores que modificaram a estrutura original, então é nisso que levarão um certo tempo, para não desarrumar o que foi feito, e depois, fazer o novo procedimento, neste caso, a substituição de parte da aorta que está dilatada. Vejo os olhos do meu bem se encherem de lágrimas. Vejo um homem forte virando um menino... Pois bem, acompanhei o pós cateterismo no hospital e o pré-operatório. As diversas picadas (três enfermeiras em duas horas vieram tirar sangue, um absurdo! porque uma não tira tudo????)... conversas com cirurgião, com anestesista, com equipe que auxilia, um super ritual... Eu fico tensa, imagino ele! Depois de amanhã, sábado, ou no domingo, quando ele voltar da UTI, eu serei sua acompanhante. Já soube que fica complicado tudo, que dói demais, e espero um 'moço menino bebê' para eu cuidar. Mas eu espero mesmo, é que Deus coloque ele no colo, que o universo conspire para que os cirurgiões façam o melhor, inspirados pela espiritualidade amiga, e que todas as orações dos pais, dos filhos, dos irmãos e das pessoas amigas, que o querem muito bem, o ajudem a passar por tudo isso. Ps: volto aqui para dar retorno. Hoje é dia 28. São 16:10h. Foi uma cirurgia complexa, mais de seis horas, terminou ontem por volta das 20h, com dificuldades nas primeiras horas. Superou após a madrugada. Acordou depois das 8h de hoje e já está conversando. Vai ficar em observação na UTI, mas se Deus permitir, desce para quarto amanhã as 13h. Vou 'internar', serei acompanhante. A todos que enviaram boas energias, meu muito obrigada. O Universo, com sua lei do retorno, com certeza, devolverá a cada um, em boas energias, tudo o que desejou a meu amado.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Para Arthur Frederico (senta, que lá vem história...)

Completo amanhã mais um ano de vida e preciso escrever para esse menino outra vez (lembrando que é a terceira... Lá vem história I e lá vem história II . Eu fui muito afortunada, meu pequeno. Nasci em uma família que me recebeu com muito amor. Eu me lembro de quando pequena, sempre ter vivido em ambiente de muito carinho, mas se rolasse bronca, castigo ou tapão, tinha uma razão, e tudo ficava bem depois. Lembro de sempre ter sido incentivada a estudar, a aprender, a ler muito (meu pai era um leitor ávido. Pouco de TV, muito de livros). Meu pai era de conversas longas, sobre qualquer assunto. Ele me parecia um 'google' ambulante (fazendo uma analogia com os dias de hoje). Tudo eu perguntava a ele. Mas sempre o vi, na dúvida, recorrer a uma enciclopédia enorme que tínhamos e que era maravilhosa. Hoje vejo você agoniado se falta luz (porque o Play e a TV param), ou se não tem internet (e vc fica sem seus vídeos), naquela época, sabe o eu fazia quando não tinha o que fazer? eu sentava com um grande livro no colo, eram 20 volumes grandões, daquela linda enciclopédia. Foi nela que descobri que baratas sobrevivem até a explosão nuclear. E tudo sobre dinossauros, sobre vulcões ou cataclismos... ah, muito conhecimento. Devo ao meu pai essa sede por saber sempre mais. A minha mãe era diferente. Não era de TV também, não era de leitura, não era de bordado, nem de comidinhas elaboradas. Rapaz, minha mãe era de organização, de casa limpa, de roupa cheirosa, de tudo no lugar... Minha mãe era de atenção completa. Ainda é. Faz tudo pelos filhos. Precisa fazer tudo por ela. Anda simples, come simples, veste simples, vive simples. Preciso ensinar a minha mãe que ela é o centro da vida dela. Vai ser uma guinada!!!! Mas enfim... minha avó Nira era a referência sempre. Mulher forte, uma rocha. Tudo desabava sobre ela, e ela firme. Ai de nós, Nydia, Mara, Lícia, Tereza, Rita, Alene e Nícia... ai de nós se formos menos que Nira! não podemos. Antes de Nira, Lavínia. Viveu por quase 91 anos. Nira, faltava uma semana para 96 anos quando se despediu... sim, meu filho, somos gente que vive muito, se doença dos sistemas coronários e vasculares não atacarem, ou câncer ou suicídios... Convivi muito de perto com suicídios. Três tios se foram assim. Um choque, um baque, mas é preciso estar atento e forte, filhote. Suicídio é deixar problemas se acumularem. É ficar sem se comunicar, sem gritar socorro. Talvez por isso eu grite tanto. Tenho medo de sucumbir à falta da química humana e deixar a alma viajar. Ela quer ir embora sempre dessa prisão que chamamos corpo físico. Meu avô, eu menina, era um homem forte, montava cavalo, estava sempre envolvido com trabalho da fazenda, mas tinha uns pequenos mimos que me deixava muito feliz: lembro dele sempre comprando melancia e dizendo que ela era nossa, minha e dele. Eu devia ser já uma 'magali do Maurício de Souza', com relação a melancia. Meu avô gostava de jogar buraco e quando eu era a parceira dele, nós sempre ganhávamos. Joãozinho tinha fama de avarento, mas não deixava faltar nada em casa, e sempre socorria os filhos, principalmente os que eram desorganizados financeiramente, como meu pai e tio Zelito. Mas o que eu mais percebia nele era uma certa impaciência com minha avó. Aquele foi o primeiro casamento que vi, em que não havia harmonia. Dos meus tios, Nivaldo era o mais querido. Meu padrinho. Não era de carinho. Era de apoio material. Era de palavras poucas. Mas sempre nos recebia com todo cuidado e atenção, nós, os sobrinhos do interior (nois era jeca). A família de meu tio, tia Lícia, Nícia e Neto, uns queridos sempre. Primos de querer ficar perto todo tempo, porque o tempo, pra menino, é um monstro ingrato. Demorava tanto pra chegar as férias... elas voavam quando estávamos em Salvador ou no Conde. Tio Zelito, duas breves passagens apenas. A que mais lembro, eu na rua, aos 9 anos, caminhando com ele, que pegava em minha mão, me perguntando da cidade. De presente me deu uma correntinha de bijuteria, com um coração que abria. Tem algo que menina goste mais que caixinhas e objetos que podem guardar coisas dentro? foi naquele coração de bijux que coloquei a foto de Charles, a primeira paixão adolescente. Quando a paixão acabou, aos 14, o coração não tinha mais cor... Mas o que ficou mesmo sem cor foi que Tio Zelito se suicidou. E a referência dos suicídios começou aí. Pouco mais de uma década depois, foi Tio Nivaldo. Um choque. A vida se fragilizava diante dos problemas, diante da depressão... até eu compreender que pode ter genética e química envolvida nisso, eu achava uma coisa tão egoísta, esse tal de final com próprias mãos. Por fim, tio Tourinho, marido de Tia Nydia, que era talvez o tio de maior referência. Nem era sangue, mas era o tio que eu mais convivi. Homem tranquilo. Conversava pouco comigo quando eu era menina, mas lembro da conversa sobre lavar as mãos quando chegava da rua (ele não fazia nada se não lavasse, até beijar os filhos, coisa que eu estranhava, porque meu pai primeiro nos beijava, para depois lavar as mãos). Vi que tio Tourinho estava certo. Depois me contou sobre os problemas que dava ao conviver tocando bichinhos todo tempo (ele era um cirurgião veterinário renomado, professor da UFBA) e eu nunca mais deixei um cachorrinho, mesmo limpinho, perto da minha cama ou de minhas coisas pessoais. Já mocinha, eu via tio Tourinho convivendo com tia Nydia, sempre com tanto carinho, respeito, um companheirismo que eu admirava. Era assim que eu desejava um casamento. Como o deles. Quando ele se foi, em um suicídio estúpido, eu já sabia das questões de química a menos no organismo e ficou fácil perdoar. Meu tio estava sofrendo. E está em minhas orações, para que sua essência esteja se recuperando. Tia Nydia, outra fortaleza, fruto da convivência com Nira, é a minha madrinha. Desde sempre conto com ela pra tudo, apesar de aprender com ela e com minha mãe, que não se deve ser fardo para ninguém. Então importuno menos que posso, mesmo sabendo que posso contar sempre. Dinha hoje, para mim, é a matriarca dos Lins. Carrega suas dores como quem carrega o mundo. Mas viaja, sabe tirar as compensações dessa vida difícil. Tenho aprendido sempre com ela. Da minha mãe, filha única, as referências eram minha avó e bisavó. Hilda e Antonia. Hilda era triste. Não era de abraços. Não era de conversa. Era de dar presentes, mesmo sem poder. Como me dava presentes, aquela avó. Morreu nova, aos 64 anos. Foi dormir e não acordou. Sofria do coração e nem sabia. Antonia, minha bisa, mulher pequena, falava baixo, educada e simples. Tinha sempre lições na ponta da língua. Espírita desde sempre. Não tinha uma casa para ela. Vivia com os filhos. Por isso sempre viajava, indo de uma casa pra outra. Morreu aos 80. Já o pai de minha mãe, devo ter visto umas seis vezes, sempre em visitas rápidas, morava no Rio de Janeiro, e vinha visitar seus parentes na Bahia. Mas lá em casa era visita de médico. Vovô Josaphat é o antepassado que não tenho nenhuma referência. Sei que era educado e carinhoso com minha mãe, mas todo mundo que nos visita é assim, não é? Arthur, referências... é bom saber de onde viemos... Agora você sabe. Eu, tendo vivido mais de 40, penso que cheguei na metade, se bala, trânsito ou doença não me atingirem. Daqui em diante, tenho percebido, sou um misto da minha vida com a de todos eles que estão relembrados aqui. Sempre paro e fico relembrando minha convivência com um deles. E me pego reavaliando o que pensava ao longo dos anos. Reescrevendo. A memória nos trai e lembro apenas cenas não o fato todo, esqueço detalhes, revejo imagens do que ficou, um ou outro aspecto, uma ou outra característica. Peço desculpas a cada um desses meus antepassados, meus antecessores, porque teve momentos em que não dei a devida atenção que eles mereciam, queriam, desejavam e esperavam de mim (a juventude só enxerga o próprio umbigo). E agora, que muitos se foram e estou envelhecendo, vejo que serei tratada da mesma forma. Já não vejo sobrinhos, quando estou perto deles não há muito o que falar. E até você, meu filhote, eu sei, fará escolhas, onde eu estarei, muitas vezes, na última das opções. Enxergamos mães como pessoas que tem obrigação conosco, e muitas vezes deixamos de ver a pessoa que está ali. Como hoje vejo o quanto Mara deixou de viver por mim, JR e Marcelo. Não falei deles aqui porque há uma postagem sobre cada um, e você os conhece, são maravilhosos. Mas hoje, cheguei a uma conclusão e precisava compartilhar. Aprendi mais com as mulheres da minha família do que com os homens. Eles me ensinaram lições meio tortas. Elas não, são retas. Mas penso que retas demais. Quero ficar nas curvas dos dois lados, em trechos retos e outros nem tanto, me permitindo errar e me perdoar. E perdoar a todos que estão à minha volta, exigindo menos de quem humano é e encarnado está. Se perfeito fosse, não estaria aqui. Apenas espírito seria. Estamos aqui porque erramos e somos pequenos, meu filhote amado... Então, perdoe a mamãe. Eu, antes de ser mãe, estou humana, viu? Grande beijo sempre. E vamos esperar você crescer, um dia ler tudo isso, e risadas iremos dar. Te amo