sexta-feira, 15 de abril de 2016

Evolução e a ética hacker no mundo atual, um breve apanhado

Esta semana reli o livro do Pekka Himanen, sobre a ética hacker. Gosto muito dessa obra e vale registrar as impressões. O mundo assiste ao crescente da produção de programas de computadores (os softwares) a partir de construções coletivas, onde diversos tecnólogos entusiastas (programadores), denominados Hackers, doam tempo e conhecimento, em prol da evolução desses softwares. Eles estão em todos os lugares do planeta onde há redes de computadores, falam línguas diversas, tem culturas diferentes e já atuam há décadas, sempre de maneira coletiva. Esses programadores criaram o movimento do software livre e um sistema operacional que disputa com as mega-gigantes Microsoft e Apple, seus usuários. Estou falando do Linux, e da ação conjunta de pessoas unidas por uma causa, que trabalham em horários alternativos para que sistemas operacionais e programas sejam cada vez melhores e distribuídos para mais pessoas. 
A análise dos métodos de trabalho, da cultura e do comportamento desses grupos Hackers tem gerado muitos estudos. Li VLEF, do Tiago Melo, há alguns meses e ele fala muito desse universo. Também é sobre inteligência coletiva e algumas peculiaridades de comportamento e valores dos hackers, que Pekka Himanen trata em sua obra. 

O livro tem três partes, assim divididas: A ética do trabalho; a ética do dinheiro e a ética da rede. Os temas são desenvolvidos em sete capítulos, que traçam um paralelo entre a ética protestante e o espírito do capitalismo (com base na obra de Max Weber, escrita em 1904) e a ética dos programadores com este espírito cooperativo de rede, na era da informação. O livro tem prefácio de Linus Torvalds e posfácio de Manuel Castels. A versão em português tem uma capa com ilustração estranha, já que o livro não trata dos crackers ( os programadores que invadem sistemas) e mais, utiliza um segundo subtítulo ‘a diferença entre o bom e o mau hacker’, que em momento algum é tema da obra. A capa, em português, parece um atrativo para vender o livro, em contraposição à divulgação da grande mídia que teima em associar a palavra hacker aos processos ilícitos que acontecem na internet.

O prólogo de Linus Torvalds, criador do Linux, é uma explicação sobre as forças que contribuíram para o êxito do hackerismo. Com a ‘Lei de Linus’, Torvalds estabelece as três categorias de motivações que nos levam a um processo evolutivo na vida. Pela ordem, o autor nos apresenta a motivação da sobrevivência, básica a qualquer ser humano. Em seguida, a nossa vida social, que nos leva a querer ser aceitos, viver em sociedade e até, em um extremo dessa motivação, a morrer pela pátria. Por fim, a terceira motivação seria o entretenimento, definido como exercício mental extremamente interessante e capaz de plantar desafios. Para ilustrar seus argumentos, ele exemplifica o extremo da terceira motivação: alguém que pula de pára-quedas e põe em risco a própria vida (em contraposição à motivação da sobrevivência), está buscando um desafio para não morrer de tédio.

Dinheiro, sexo, comida, guerra... para o autor do prólogo, tudo isso interfere na sobrevivência, se for só para manutenção do homem, mas na atualidade, envolve processos sugestivos que desafiam o ser humano, e por isso estão classificado como entretenimento. Ganhar mais dinheiro do que se possa gastar, fazer sexo sem necessidade de procriar, a gastronomia enquanto hobby ou a guerra enquanto conquista televisionada em nível internacional, se transformaram em ‘jogos’.

Por fim, Torvalds analisa os hackers e sua motivação para o trabalho que desenvolvem. Criar um programa proporciona grande entretenimento e ainda se alcança repercussão social (segunda motivação).

Pekka Himanen inicia a primeira parte do livro com uma análise sobre a ética dos hackers no trabalho. Para um hacker, o computador é pura diversão, cujo processo de programação envolve ludicidade e excitação. O desejo de continuar aprendendo também os motiva, é como dominar a máquina, e programar se torna um estilo de vida apaixonante. O autor encontrou paixão igual no processo de aprendizagem que envolvia Platão e seus discípulos, os artistas, artesãos, pesquisadores e aqueles que trabalham com meios de comunicação.

Himanen não fala sobre ética individual dos programadores, mas sim do comportamento em rede, que põe em juízo a ética protestante de trabalho, que há tempos vigora na sociedade capitalista e exerce influência em nossa vida.  Há mais de cem anos Max Weber  (1864-1920)  descreveu a noção de trabalho no espírito capitalista. A obrigação de ter uma profissão, com horários e regras determinadas e retorno financeiro que permita a sobrevivência. O trabalho como vocação, fim absoluto em si mesmo. Himanen cita autores que escreveram sobre o trabalho (principalmente autores ligados à religião) e faz um contraponto entre o trabalho em rede colaborativa. O Hacker trabalha sem horário fixo, sem a pressão do patrão exigindo resultados, sem visar o lucro ao final da tarefa. E mesmo sem essas pressões, há disciplina, motivada pela paixão em obter resultados que o tornem reconhecido por seus pares. Para o autor, a lógica dessa ética está justamente em burlar o já conhecido comportamento vigente no capitalismo.

No segundo capítulo, a relação do tempo dedicado ao trabalho na ética protestante é comparada ao uso do tempo no universo hacker. Se tempo é dinheiro, é perda de tempo se dedicar a um trabalho sem remuneração? A relação com o tempo dedicado ao trabalho, na ética protestante, se limita à obrigação de trabalhar em horário pré-determinado em horas e dias, pois trabalho é sacrifício. Na era da informação, o tempo ganhou uma racionalização ainda maior, pois a velocidade das inovações tecnológicas propõe o imperativo da corrida contra o relógio. Para os hackers, trabalho é prazer e eles trabalham em horários alternativos. A flexibilidade propõe o trabalho lúdico, onde e quando quisermos, por isso é possível ser feliz em horário comercial, e usarmos a madrugada para trabalhar, pois a rede não pára. Assim o hacker trabalha quando a criatividade o motiva, cumpre suas tarefas e não sua jornada e assim, tem tempo para ‘viver’.

Himanen analisa ainda a ética do dinheiro, como motivo e interferindo no processo de vida e aprendizagem do ser humano. Na ética protestante a semana era dedicada ao trabalho e o domingo era dia sagrado ao descanso. Mas se dinheiro é um fim em si mesmo e a lógica capitalista dita o tempo (ritmo de trabalho), então domingo atualmente é dia de labuta, pois o consumo é motivação. Diferente do ritmo de trabalho hacker, que concebe um domingo de trabalho, se na quinta ou sexta o tempo foi dedicado à família. No capitalismo o domingo de trabalho é puramente para aumento dos lucros.
No campo da aprendizagem, para o capitalismo as boas idéias são propriedades de quem as teve, principalmente se geram dinheiro. Então compartilhar informação, como bem poderoso e positivo não se explica. Mas um grupo se difere, até mesmo no capitalismo, com um modelo aberto de gerar conhecimento: a comunidade científica, que historicamente sempre trabalhou partindo de um problema ou objetivo no qual o indivíduo tem interesse pessoal e é um entusiasta, acha sua solução particular e qualquer um poderá utilizar, criticar e desenvolver esta solução. Mais importante que qualquer resultado final é a informação ou cadeia de argumentos subjacente que produziu a solução.  As fontes sempre são citadas e a nova solução não pode ser mantida em segredo e sim publicada novamente. E esse modelo sem ausência de estruturas rígidas, que congrega paixão e trabalho em grupo, está na prática hacker, que parte em busca da solução de problemas e submete seus resultados a diversos testes. Aprender cada vez mais é o objetivo desse universo e um professor ou pesquisador, neste universo, é alguém que, muitas vezes, acabou de aprender e já quer ensinar. Himanen denomina esse processo de ‘Academia da Rede’. 
Na última parte da obra, o autor fala sobre a ética da Rede e a netiqueta (boas maneiras observadas na comunicação na Rede) e sobre o espírito do informacionalismo. Segundo ele, quanto mais eletrônica se torna nossa era, mais deixamos vestígios ao navegar pela rede, fazer compras nas lojas, preencher cadastros em repartições ou ao responder questionários em sites de pesquisa. Nossos dados estão a todo momento sendo analisados, construindo um perfil de usuário, que deixamos ao usarmos cartões de crédito, fazermos transações bancárias, utilizarmos a internet e até mesmo o celular. Por isso os Hackers estão preocupados com a privacidade e com a proteção dos dados dos usuários da rede e prezam pela segurança no mundo virtual. A autoprogramação, o aumento do tempo dedicado à Rede, a necessidade de manter-se atualizado com as inovações crescentes, que teimam em nos deixar obsoletos com relação aos conhecimentos gerados na nova tecnologia, nos faz dedicar cada vez mais horas ao  trabalho. E esse é o espírito do informacionalismo.
No informacionalismo, há o resgate de virtudes do desenvolvimento pessoal, no sentido de racionalizar o tempo e o esforço gastos nas atividades, já que há informações demais, é preciso filtrar, selecionar e tomar as melhores decisões. Por isso é preciso ter determinação, tranqüilidade, otimizar os processos _ ser efetivo no ‘agora’; ser flexível _disposto a mudar conforme as necessidades; ter estabilidade  _ manter a constância na busca do objetivo; ter dedicação; ter consciência do valor do dinheiro necessário para realizar desejos; contabilizar resultados. E são essas virtudes que transformam a rotina nesses novos tempos: a rotina dos processos nos negócios está em alteração, as linhas de produção desnecessárias são eliminadas, as lentas são remodeladas de tal forma a serem efetivamente produtivas, afinal a automação elimina tempo perdido. E todo esse sistema passa a ser metáfora para explicar a ética que rege o informacionalismo. Com esta ética virtual em voga, o autor percebe dificuldades na aplicação da ética real. A lógica da velocidade, que tanto impera no informacionalismo, é talvez a pior barreira para que a ética real aconteça. Como se, em busca pela otimização, automação, e tudo o mais que rege esta era que vivenciamos, a ética fosse algo à parte. E é exatamente isso que preocupa o autor, que vê na ética Hacker um caminho diferente de comportamento na Rede.
Por isso Himanen propõe sete valores da ética hacker: paixão (entusiasmo que move a aprendizagem); liberdade (com o código aberto que permite o compartilhamento de conhecimento; com o tempo, que os livra da rotina e da jornada de trabalho e os deixa livres para trabalhar como e quando querem); valor social e abertura (que possibilita receber reconhecimento ao compartilhar conhecimento, tornando-o comum a todos); atividade (que envolve a liberdade de expressão em ação e privacidade para proteger seu estilo individual de levar a vida e desprezo frente à passividade): e cuidar (se preocupar com o futuro da sociedade virtual de tal forma que oportunize a todos uma garantia de acesso). Esses valores juntos, levam ao último estágio, quando o hacker se torna criativo porque utiliza suas habilidades, superando-se, e dando ao mundo contribuições valiosas.
Por fim, a obra nos apresenta um posfácio, escrito pelo sociólogo Manuel Castels, que retoma o contexto em que vivemos e as mudanças do paradigma da era industrial para a era da informação.
A ética Hacker e o espírito da era da informação é um livro positivo, porque aponta para uma cultura e uma ética mais humana neste contexto vigente que é o capitalismo. É muito bom ver luz no fim do túnel. As transformações éticas que vinculam tecnologia, democracia e desenvolvimento social e humano já começaram. Mas sem ingenuidade, pois é um  processo ético lento, que envolve uma minoria, pois o capitalismo tem teias amplas e o dinheiro ainda é um valor forte em si mesmo, mas pelo menos, é um começo. E tomar consciência que a colaboração é o caminho humano que resta. 
Vale a pena ler este livro. 

quinta-feira, 31 de março de 2016

Ação gerando ação - cidadania e educação

O Você na REDE ganhou outros caminhos. E novas ênfases.
Ontem fomos à Santo Antonio de Jesus apresentar o seminário no Colégio Status.
Na platéia meninos e meninas de 9 a 16 anos. Confesso que tivemos que alterar muita coisa em função de pessoinhas tão novinhas, mas valeu a pena, acho que o trabalho educativo foi maior.
Pensando em contribuir com a nova lei de combate ao bullying, falamos muito sobre as reações violentas nas redes, os desrespeitos,  nudes, selfies, relacionamentos líquidos, o fato de tratarem a mulher como objeto e que isso gera violência quando uma imagem de intimidade vaza, e claro, demos mil dicas de como se proteger no facebook, usar corretamente o instagram, usar what´s app de forma colaborativa, principalmente em casos de emergência, além das potencialidades do snap chat.



Fomos à convite da Janúbia Oliveira, diretora, super simpática. Ela e a coordenadora Flaviana nos deixaram super à vontade, e nos receberam com tudo organizado e bonito. O Reginaldo fez divulgação na rádio Andaiá FM e penso que isso foi legal, porque até a Secretaria Municipal de Educação e um representante da Secretaria Estadual, estiveram no evento.


Faixa na frente do Colégio, um cesto para receber as doações (um quilo de alimento não perecível), que os alunos da casa e os professores convidados das redes pública e particular levaram para participar do evento e a gente viu um evento gerar várias ações.


Foi muito legal!  Ao final, ganhei flores (que adoro!) mas confesso que fiquei sem graça, pois não fiz mais que minha obrigação, ao levar os resultados de uma disciplina tão rica, quanto Teoria da Imagem, para fora dos muros da Universidade.
Depois a Janúbia nos entregou o resultado do seminário: Mais de 60 Kg de alimentos, que doamos para o Asilo de Idosos de Cachoeira ontem mesmo.


Vi que os estudantes-palestrantes ficaram super orgulhosos do seu trabalho, gerando cidadania e educação.
Penso que todos os cursos universitários precisam dar retorno social. Mesmo pequena como a nossa ação, ela gera novas ações. Não dá nem para dimensionar as mudanças que podem causar. Se cada menino e menina conseguiu aprender algo sobre respeito, uso consciente das mídias, isso já vai fazer grande diferença. E podem ser multiplicadores.  A transformação só se dará assim, em pílulas, todo mundo fazendo um pouco e na soma, serão grandes mudanças nas novas gerações.


quinta-feira, 17 de março de 2016

Dos sonhos, da Democracia

Eu acreditei. Tanto, tanto. Meu primeiro voto. Paralamas cantou e eu acreditei, era preciso mudar o Congresso.
Eu o entrevistei quatro vezes, e ele ainda não era presidente, era um homem com discurso forte, contra corrupção, pela democracia, pelo direito de expressão de todos.
Tenho foto. Tenho autógrafo.
Tive tanto orgulho desse país quando ele venceu o medo. E comemorei muito uma nova fase na Educação, quando vi a Bahia ganhar novas universidades federais, depois de um reinado de 60 anos de uma única UFBA, exclusiva, para elite que podia estudar só durante o dia. Fui ser UFRB com tanta paixão. Trabalhei dobrado em nome do sonho.
Depois achei estranho os escândalos e a fala 'não sei e não vi', daquele que eu achava que era honesto acima de tudo. Vi abraçado a homens que eu tinha nojo, dialogando com Sarnei, Collor, e cia. ilimitada. Não o vi fazer as reformas necessárias. Vi aumento de impostos. Vi meu salário diminuindo. Vi a educação continuar sendo relegada de verdade, sem mudanças de base. Vi projetos importantes engavetados. Vi a criminalidade crescendo, vi um Congresso, onde ele tinha maioria, ignorar leis que precisavam ser criadas, aprovadas. Vi a opinião pública dar a ele quase 80% de aprovação e nem assim ele cortou o que havia de errado. Vi os escândalos continuarem e ele continuar no discurso, 'não vi, não sei'...
Vi gente séria acusá-lo e chegou uma hora, também no meu estado, na Bahia, em que vi o PT agir errado. As universidades estaduais nunca foram tão mal geridas como no governo petista da Bahia. Então botei meu rabo entre as pernas e joguei a toalha. O sonho acabou.
Não votei para prefeito do PT em 2012.
E em 2014, votei Marina, depois, no segundo turno, eu anulei meu voto, sob um olhar estarrecido do meu filho. Abri mão de escolher.
Mas nada disso me preocupava.  Não dava para acreditar em nenhum deles, dos que se candidatavam a me representar.
Senhora Dilma e senhor Aécio não me representam. Nem antes, nem agora.
PT, PMDB ou PSDB, não me representam, então, não me resta outra coisa, senão aguardar os rumos.
Mas fico preocupada em ver um país tão apaixonadamente dividido.
Como se a racionalidade, bem maior em uma situação como esta, deixasse de existir, em nome dos EGOS inflados de cidadãos que se acham donos da verdade.
E mais, acreditam em uma imprensa manipuladora. Que quer mudanças aos trancos e barrancos. Em favor de uma troca de situação benéfica para quem?
A saída de Dilma vai mudar os rumos das investigações? aqueles que roubaram sempre e muito, e antes, vão ser investigados também?
O PT herdou uma maneira nefasta de governar e de se manter, fez crescer o que já existia de errado.
Eu quero punição para todos. Não apenas para Dilma e Lula, mas para cada um dos representantes do executivo e do legislativo que não apenas roubou para seus partidos mas também enriqueceu com dinheiro de empresas que querem se manter nos negócios e negociatas.
E se é possível um juiz agir fora da justiça, que o faça para todos, não apenas para um lado da balança. Há muitos escândalos engavetados. Passem à limpo esse Brasil. A hora é agora. A opinião pública quer a lavagem de roupa suja às claras, toda, completa. Mesmo que nos custe a dignidade enquanto cidadão de um planeta em regeneração, onde já há alguns países caminhando sem essa doença cruel que é a corrupção. Fica visível nosso estado pouco evoluído, mas e daí? a hora é de dar exemplo aos mais novos.
Temos coragem para mudar, mas mudar de verdade. Novas leis, punibilidade mais séria, justiça  e democracia integral para todos.

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher, maternidade e outras questões da minha condição de gênero

Ser mulher não é uma condição muito fácil. Diz a piada espírita que uma reencarnação como mulher, vale mais que algumas como homem. Vivemos em balança hormonal ( e hormônio é o combustível da normalidade na vida biológica humana), temos um ranço enorme de uma sociedade milenar machista (e calcada em dogmas religiosos que nos impôs condições diferenciadas e subalternas na convivência com o outro, o que tem pênis) e para completar, no Brasil (país de desigualdades sociais e raciais), as desigualdades de gênero só aumentam.
Pois bem, essa introdução é para falar de mim. Mulher e mãe.
Como mulher, vivi muitas vezes o fato de ganhar menos em mesmas condições de trabalho, nas Emissoras de televisão. Era visível que eu ganhava menos que meus colegas masculinos, que conseguiam  sustentar casa, mulher, filhos e veículo, sendo repórteres, iguais a mim. Solteira e sem filhos, eu sempre tive dificuldade em me sustentar em comida, pagar aluguel, manter carro e andar arrumadinha como a profissão pedia. Tenho certeza, até pelas conversas de corredor, mesmo sem ter tido acesso aos seus contra-cheques, que eram salários diferentes (eu e meus colegas repórteres). Tanto que em todas as vezes, nas rodinhas em horários de lazer, em que estávamos, e o assunto era salário, se desconversava na hora de falar em acordos. Sim, haviam acordos diferentes, para uma mesma função, e, em muitos casos, eu era formada em Jornalismo, e alguns dos meus colegas homens, não eram. Não que isso no interior desse rincão chamado Brasil, tenha muita importância. Fui repórter em Cuiabá, Campo Grande, entre Bahia e Pernambuco (Juazeiro e Petrolina) e nas cidades baianas de  Feira de Santana, Itabuna e Salvador (foram mais de onze anos de jornalismo), e sim, ganhava menos que meus colegas homens.
Quando me afastei do Jornalismo diário, nas TV´s, meu salário último, depois de anos de carteira assinada e comprovada experiência, foi R$880,00 (oitocentos e oitenta reais), em 2003. Esse valor  não correspondia sequer a três salários mínimos, para trabalhar de domingo a domingo, em muitas semanas de plantão, em horários complicados, em dias de feriado, em períodos de festas, como carnaval. Não tinha nada extra em dinheiro, nenhuma hora sequer. Apenas recebia em banco de horas, em forma de uma segunda-feira morta, que poderia ficar em casa.
Eu era  formada, com  pós-graduação, iniciando um mestrado, ensinando já na UESC e já com um filho, então decidi largar a profissão e mergulhar na vida acadêmica. Mas confesso que adorava a falta de rotina da TV, no sentido de todo dia poder tratar um tema diferente. Mas a desvalorização profissional e mais, de gênero, me levou a abandonar o telejornalismo, que era a minha praia. (LINK de uma atuação como repórter).
Como mulher, tenho memórias de tantas situações esdrúxulas, com relação a assédio, a piadas tortas e comentários ridículos, em que a questão sexual era exposta sem qualquer critério. Destaco duas: um professor da UESC, quando eu fazia Direito (sim, fiz dois semestres), ao ver que eu não gostava dos seus comentários machistas em sala de aula, me reprovou, como forma de me punir ao não entrar no jogo de piadas e insinuações que ele fazia com todas as mocinhas da sala (lembro que ele dizia, 'quem tem como me pagar nada me deve', quando dava chance a uma aluna de trazer exercício em outra aula, deixando claro que o pagamento era com favores sexuais, a piada era tema de muito riso com os colegas homens da sala, enquanto as poucas mulheres, daquela classe noturna, em 1989, ficavam sem graça, com olhares baixos). Eu retruquei com voz grossa, deixando claro que não achava aquilo certo e não deu outra, fui punida. Naquela época não se falava em assédio moral, nem tampouco sexual. A outra situação cruel, foi em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, quando era fotojornalista freelancer, no ano de 1995, prestando serviço para a Associação dos Magistrados daquela cidade, fui fortemente assediada por um Procurador Geral e ao dar queixa aos gestores da associação, fui dispensada sem qualquer explicação. E meu namorado na época, um namoro sério, de anos, riu de minha indignação, achando que eu não deveria ter dado queixa do procurador. Que fiz uma tempestade em copo d'água. Como fiquei chateada com ele.
Penso que em pouco tempo tivemos muitas conquistas. Hoje duvido que um professor daquele, sobreviva em sala, sem queixas formais. Ou que alguma mulher não saiba o que fazer quando um homem a assedia como aquele procurador o fez comigo. Lembro que fiquei em tão mal estar que fui trocar um filme cheio e acabei jogando o filme no lixo, e tive que procurar na lixeira, tal meu estado alterado de emoção, diante do absurdo de ser assediada daquela forma.
Nas minha memórias também coleciono uma série de caras e bocas que vi no rosto de muitos homens e mulheres, quando relatava que escolhi não casar com o pai do meu filho, ainda grávida. Eu fiz essa escolha consciente, no final da gravidez,  por perceber, já naquela época, que éramos muito diferentes sobre como lidar com muitas questões, inclusive com paqueras e relações extra-conjugais. Sim, eu percebia que ele era mulherengo, que haviam outras pessoas na vida dele e resolvi que não tinha como lidar com aquilo. Saí de vez da relação quando o menino tinha um ano e oito meses depois de um flagrante da traição dele. E fui mãe integral durante dez anos. Passei no concurso da UFRB e vivi em Cruz das Almas anos, sem um único parente e tudo era eu, mãe 24 horas. Meu ex longe, pai de telefone e web cam, por anos.
Quando ele voltou de viagem, após curso fora do estado da Bahia, só via nosso filho nos finais de semana, e nem por isso recebeu uma única crítica por ter ido estudar fora dois anos, por ter se relacionado com outras mulheres enquanto ainda estava comigo. Nunca vi ninguém falar nada sobre isso. Pois bem, há pouco mais de dois anos, ao decidir mudar de casa, e mudar com isso minha rotina de vida, eu e o pai do meu filho decidimos que o nosso filho  ficaria de segunda a sexta na casa do pai, que trabalha na cidade, enquanto eu trabalho fora, e tudo seria mais complicado, por conta de babá, distância, etc., eu ficaria nos finais de semana com ele. Meu Deus! minha mãe, a mãe dele, minha ex-sogra, a irmã dele (que era minha amiga), e mais um milhão e meio de pessoas, me crucificaram.
Minhas escolhas não condiziam com meu papel de mãe e de mulher. Eu tinha um papel e abandonei no meio (era o que eu ouvia).
Hoje eu e meu menino ficamos 24, 36, 48 horas ligados... de verdade. Fazemos coisas juntos, de verdade, como eu sei que muita gente não faz. A qualidade das nossas horas juntos supera em muito a quantidade. E isso me faz ver o quanto ser mãe é relativo.
Mas minha mão direita pipoca em alergias, que os dermatologistas não explicam e nomeiam de desidrose por stress. Meu acupunturista pergunta se há algo do feminino mal resolvido. Sim, há uma maternidade social que está em aberto, pelo fato de meu filho assumir que mora com o pai. Eu sou a que fica apenas dois dias por semana.
Nem mesmo eu, em meu psiquê rançoso de milênios, me aceito como mãe de finais de semana. Muito embora, na racionalidade de quem trabalha em uma universidade, saiba que meu filho tem orgulho de uma mulher guerreira que sei que sou.
Meu menino é inteligente, interessado em bons livros, em bons filmes, em teatro, esporte, boas atividades lúdicas, é espírita e já se interessa pela conscienciologia, que estudo. Sei que ele tem muito de mim, que me admira. Mas nem isso provoca em meu inconsciente a minha redenção. Eu sou culpada, pela minha cultura machista. E só peço ao universo que eu consiga educá-lo para um futuro sem diferenças de gênero, já que ele está sendo educado em um sistema de partilha diferenciado e vê, na mãe, uma mulher diferente das outras. Eu sou o exemplo vivo da mudança, muito embora pague na carne, com minhas feridas da alergia, o preço de mudar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Youtuber, novo comunicador

Ah, se na minha época de recém formada alguém me oferecesse a oportunidade de ter meu próprio canal de comunicação, eu teria criado um, sem dúvida. Assunto não faltava. E ainda hoje, acho que há público para tudo. A internet permite a segmentação máxima.

Por isso, pensando no quanto há de conteúdos possíveis, levei meu amigo Jorge Filhu, criador de  canais Youtube, para uma palestra na UFRB, para meus alunos de Teoria da Imagem. Tenho 18 alunos nesta disciplina e ainda abri 22 vagas para quem pudesse vir assistir. 40 em uma sala comum é razoável. Que decepção, menos de 15 pessoas foram. Nem mesmo todos da turma apareceram.

Tem horas que dá um desânimo ser professora de Universidade e formadora de novos profissionais. Penso que boa parte dos estudantes que se matriculam não tem ideia do que é mesmo ser um futuro profissional em comunicação. Não tem emprego na esquina. Quase não há concursos para comunicadores.

Vivo dizendo que os cursos precisam ensiná-los a gerenciar seus conhecimentos e a serem fomentadores, gestores, criadores de oportunidades.

Pois bem, o Jorginho tem experiência como criador, youtuber, ganha dindin com seus canais ou criando canais para outras pessoas. Durante duas horas ele foi super didático, deu conceitos,  trouxe dicas de como criar, buscar bons conteúdos, monetizar, falou de softwares, hardwares necessários para ter seu negócio, mostrou seu trabalho,  etc. Claro que a platéia pequena foi participativa e acredito, a palestra pode render frutos.

Eu até me animei e acho que vou criar meu canal sobre o Inevitável, página que já tenho no Face. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Imagens Vivas, na poética da Galeria

Tá, foi coisa demais, quatro exposições paralelas e ainda convidei quatro fotógrafos para estarem conosco. Sim, eu queria mesmo mostrar todo o trabalho que venho desenvolvendo nos grupos de estudo em imagem, o Galeria Recôncavo, o Poesia e Imagem, o Comunicação e Saúde, na série Gordofobia, além de mostrar os produtos dos estudantes da disciplina Fotografia I e também me colocar enquanto curadora, artista, fotógrafa e poetisa.



Sem contar em proporcionar o prazer de ter imagens de Jomar Lima, de Guilherme Bronzatto, de Tony  Caldas e de Seu Zé, expostas juntas. Coisa mais linda de se ver! Daí o Imagens Vivas ter tanta coisa para expor.





Na Galeria, foto de Seu Zé!



                                                      A instalação de Flora, maravilhosa, com fotos de celular




                                                   Jomar encantou a todos com as mulheres da Boa Morte

Tony e o menino do rio

A série Gordofobia foi um exemplo da fotografia que denuncia, expõe e exige mudanças

Poéticas do Cotidiano, da turma de Artes Visuais, série que revelou outros olhares sobre o dia a dia



Gordofobia gerou manifestações


A Galeria dos velhos ofícios, de Daniele

Camilla trouxe as festas populares de Cachoeira

Dinha trouxe a tradicional festa do Agricultor no Recôncavo




 Era tudojuntoemisturado, em imagens vivas de verdade



Os textos de primeira e segunda realidades para localizar o leitor sobre o contexto e o texto


teve festa








quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Um caderno para Michel

Michel, polonês inteligente, pessoa sensível, que adorava arte, livros, música e alegria. Essa era a minha memória dele.
Conheci Michel Bogdanowicz através de Damário DaCruz. Lembro que ele me disse para eu ir conhecer o Sebo Café com Arte. Fui, adorei o polonês de 61 anos, que me recebeu com alegria e um café-conhaque.
Fui muitas vezes, em eventos da UFRB, como o prêmio Montezuma, sessões de cinema, bate-papo, lançamento de campanhas para direção do CAHL, shows de blues, voz e violão, e tantos outros eventos... passei a ser recebida com um beijo na testa e abraço doce. Gostava do meu velho café com conhaque e uma prosa sobre arte, Cachoeira ou algum livro raro.
Michel de minha memória era homem muito cheio de histórias, fumava muito e estava sempre recebendo gente em sua casa, que sempre somava.

Michel de minha memória...

Um dia a Ohana me disse que Michel estava muito doente, no hospital, tinha tido um AVC. Sua fala e coordenação haviam sido comprometidas.
Fiquei abalada e por quase dois anos eu ensaiei ir ver Michel, que estava sendo acolhido no Asilo de Cachoeira. Meus ensaios morriam no pé da ladeira. Ficava triste antes mesmo de ir.
Mas aí tomei coragem, pois Edgilson me disse que ele estava sorridente, recebia a todos com prazer, precisava de camisas, gostava de ganhar chocolates...
Fui, com Dani, minha orientanda. Ficamos por uns 45 minutos lá. Levei roupas masculinas, material de higiene, fruto de doações de amigos.
Michel ficou emocionado, eu também. Tentou se comunicar bem, mas eu entendia pouco.
Fui embora pensando naquele homem que conheci. E no homem que a vida me apresentava agora.
Passaram-se dois dias e sonhei. Não sei se era apenas um sonho, pois foi tudo muito nítido. Alguém, de voz doce e melodiosa, que me pareceu um mestre, me falou para confeccionar fichas com frases do uso cotidiano, para Michel.
Acordei emocionada e o fiz.

Simples assim. Depois de prontas as fichas, coloquei em um fichário. Penso que eu fui instrumento da comunicação: Um caderno para Michel.