sábado, 24 de setembro de 2016

Outono em campo aberto

Fui ver o outono chegar em Porto, no Parque Serralves. Lugar lindo, enorme, com árvores imensas, e havia lá o festival do outono, com música, pintura, comida... uma alegria só.


 Fui com Ana Flávia e Ciça, que se divertiu muito nas oficinas.


Pintamos um Fora Temer e colocamos no varal, as pessoas fotografavam, foi divertido. Quando a noite foi chegando, esfriou muito e eu comecei a compreender o que significa outono aqui. ;)


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

É tudo novo de novo

Sabemos que mudar de casa dá trabalho, de cidade mais ainda, exige-nos um esforço grande em adaptação. De Estado então... mudei para Mato Grosso, depois Mato Grosso do Sul, fui parar no Rio de Janeiro, depois em Pernambuco com Bahia... sei bem que temos a Unidade BR mas no fundo temos cá nossas diferenças dentro do mesmo país.
Eu já viajei pela América do Sul e Central, tive experiências interessantes nos países de língua espanhola, mas nunca tinha saído de mala e cuia, para morar fora. Don´t is easy!
O primeiro grande impacto em terras portuguesas: a língua.
Pasmem! no início, eu não conseguia entender 70% do que falavam os portugueses. Aqui no norte do país, além de fonemas muito abertos, como falam rápido e suprimem letras, e para completar, uma única palavra de sentido diferente do nosso, nos confunde, nos torna lentos para assimilar e responder. Pior, somos, nós brasileiros, altamente metafóricos e eles não. Os portugueses são literais. Então se eu digo em uma frase: perdi o autocarro, dancei! ele te olha com um olhar reprovador e diz 'não dançaste, como dançaste, desculpa lá, mas estás parado'. E você fica em uma diálogo sem nexo. Aconteceu todo tempo comigo. Então controlar nossas gírias, nossas metáforas, é obrigatório.
Outra questão da linguagem: falamos uma língua tosca, com muitos erros grosseiros para os portugueses, que primam no uso da concordância verbal e no uso dos pronomes. Pois bem, falamos 'brasileiro' (segundo eles) e com isso é muito fácil encontrar quem nos trate mal após ouvir nosso 'sotaque' tupiniquim.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Pelas Lentes do Recôncavo, Um Recôncavo de Possibilidades

Foram meses reunindo textos, selecionando fotos, trabalho de correções, organização de documentos e autorizações para a editora, e cá estão eles, os dois livros que celebram os dez anos da UFRB em Cachoeira.







Fiz parte da Comissão de Organizadores e formamos uma equipe afinada e muito cheia de vontade de fazer bem feito: Eu, Gaio, Wilson e Sílvio. E claro, a boa vontade de Prof. Sérgio Mattos, da EdUFRB, que mesmo na crise, garantiu a impressão.

As coletâneas reúnem mais de 30 autores, com seus artigos e ensaios e 30 fotógrafos, todos da comunidade UFRB, entre docentes, discentes, técnicos e egressos.



No dia do lançamento, que fizemos com muitas ações compartilhadas, foi uma festa! pura alegria nos discursos, nos encontros, no orgulho de ver que os livros ficaram bonitos, com uma qualidade inspiradora. Agora é torcer que venham mais dez, mais vinte anos de UFRB e com eles, mais livros e mais conhecimento. Ariel e Igor Sky cantando músicas lindas, DJ Anderson Bio animando, e todo mundo no clima de confraternização. Uma bela forma de finalizar o semestre.  



domingo, 31 de julho de 2016

Fotojornalismo para quê?

Na vida, às vezes levamos anos para entender uma mensagem simples: O que fazemos não é tão importante para outras pessoas. Não mesmo.
Eu sempre fui uma professora muito consciente do conteúdo que preciso ensinar, ler, estudar e cobrar dos alunos. E sempre achei que a minha disciplina era muito importante no curso, afinal vivemos um período muito imagético, e na internet e com os novos meios, essa importância só aumenta. Certo?
Pois é, mas não é para todos os alunos. As pessoas não são iguais, têm histórias diversas e suas vidas tem fluxo próprio.
Pois bem, tive um estudante que  teve certa dificuldade de lidar com a metodologia avaliativa da minha disciplina. Ela é anual e ele tentou um semestre, não conseguiu, faltava muito ou chegava atrasado,  as vezes perdia as explicações teóricas e já chegava na parte prática, ele não deu conta de ter um blog da disciplina, tinha dificuldade de entregar os trabalhos e acabou desistindo.
No ano seguinte, pois a disciplina é anual, lá estava ele de novo. Desta vez mais participativo. Mas o blog era uma dificuldade, ele não fez  e não postou os trabalhos, que eram muitos. A disciplina tem 40 horas teóricas e 45 horas práticas. No ano seguinte, outra vez. E foi a mesma história.
Todas as vezes que nos víamos, eu dizia: rapaz, cadê você?
Este ano ele voltou. Mostrou-me que havia comprado uma câmera e já fazia fotos de todos os eventos do lugarejo em que ele morava.
Explicou-me que era um povoado sem internet, com dificuldades para ter acesso e me explicou que trataria minha disciplina de forma diferente desta vez.
Eu já o olhei de forma diferente, pois não sabia que ele morava em local tão complicado de acesso.
Com a ajuda de colegas ele construiu o Blog. Fez seu seminário individual e foi bem, participou de exposição, fez ensaio, tudo bonitinho e estava indo bem, eu sabia que ele dessa vez, daria conta.

Faltando uma semana para terminar o semestre, lá fomos nós, participar de uma exposição em outra universidade, a UNILAB, Campus dos Malês, em São Francisco do Conde. E lá estava ele. Não só nos ajudando a montar nossa exposição, mas expondo também: móveis, feitos de pneus.

Lindos móveis.
Feitos com pneus velhos que ele conseguia nas borracharias da estrada de Santo Amaro da Purificação para Cachoeira.
Eu  vi o talento dele, tão maravilhoso, fisicamente, concreto, naquele trabalho artesanal tão bem feito. Minha ficha caiu: para quê esse moço precisa de fotojornalismo?
que importância tem minha disciplina na vida dele?

Eu senti algo novo: achei tão sem importância a minha disciplina, para o tanto de atraso que ela  causou na vida dele. Eram quatro tentativas.
Ele passou, claro, na disciplina, mas já está passado há trocentos anos na vida, no talento, na garra, na criatividade.
E eu, de cá, fiquei a rever a importância de algumas questões, nas decisões de um professor. Se eu soubesse mais da vida do Arnaldo, com certeza, ele teria sido avaliado de outras formas, sem blog, sem tanta metodologia tecnológica e talvez com uma sensibilidade maior. Não sei se o fato dele ter se desdobrado para dar conta da metodologia, o ajudou em algo, não sei se tudo poderia ter sido mais leve, diferente, caso eu soubesse disso tudo antes. Mas sei que me fez pensar e gosto quando algo se modifica aqui dentro.

domingo, 3 de julho de 2016

Passo a passo na burocracia

Estudar fora. Participar de uma seleção. Organizar documentos. Eu não tinha ideia de como era esse processo e confesso, fiquei assustada com tanta burocracia.
Eu me formei em 1997. Um diploma de uma Universidade Federal (MS), que foi usado para seleções públicas, concursos, mestrado. Nunca duvidei da autenticidade do meu diploma nem da importância dele, guardado com cuidado nestes quase 20 anos. Pois bem, não é que para participar de uma seleção de doutorado em Portugal, eu precisei reconhecer firma de cada assinatura do meu diploma (reitor, secretários, pró-reitor de graduação daquela época)! e também nas assinaturas do histórico e ainda no diploma e histórico do mestrado, que foi em 2005, em Ilhéus, na UESC. E fiquei me perguntando como documentos validados por instituições federal e estadual podem precisar ser 'autenticados'?
E esse foi só o começo, pois depois de autenticados em cartório brasileiro, lá fui eu validar cada um deles, no Consulado Português. Processo caro. Cada documento custou R$66,00! Não fica barato organizar a documentação. Como tinha histórico, diplomas e declarações, gastei mais de R$500,00. 
Enviei as candidaturas e esperei, para prosseguir no processo. Em média esperei um mês pelos resultados e passei nas três seleções que fiz. A decisão mais difícil: ir para qual universidade, para qual cidade (pois eram três cidades diferentes em três programas doutorais de áreas diferentes):   Lisboa, Braga e Aveiro.
Escolhida a Universidade, imprimi carta de aceite e fui em busca do visto de estudante. Novos documentos, diversas declarações. Tudo o que foi assinado por mim, tive que reconhecer firma e tudo o que foi assinado por outros, também. Não aceitam declarações de internet, como por exemplo, o de antecedentes criminais. Precisa ser solicitado na PF e reconhecer firma do delegado que assinar. Providenciar seguro de saúde (que custa uma nota) e também o PB4, para daqui a um ano, vencido o seguro saúde, poder contar com assistência mais em conta, através do acordo Portugal Brasil do CDAM. Vence em um ano, mas deixei procuração e com isso o PB4 será renovado. 
Pagas as taxas, foram 45 dias para visto analisado, concluído, aprovado.  Uma das muitas batalhas em busca deste doutoramento. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Caminhos do Doutoramento

Desde que terminei o mestrado, em janeiro de 2005, jurei para mim mesma que só faria doutorado se tivesse a sorte de encontrar outro orientador como o da graduação, meu Mestre Doutor Jorge Ijuim ou como meu Doutor amigo Alexandre Schiavetti, do mestrado. Explico: por mais complicado que seja escrever e pesquisar para produzir conhecimento, quando somos bem orientados, sabemos exatamente onde estamos indo e isso nos fortalece.
Mas também jurei fazer algo que me desse prazer e que fosse de retorno social, como acho que foi o livrinho da graduação, O Fotojornalismo: Informação, Técnica e Arte, que duas universidades assumiram como livro da Bibliografia Básica, em 1998. E também, de menor impacto, mas importante, a história ambiental e o registro estatístico das RPPNs no sul da Bahia, em meu mestrado.
Por isso minha insistência em cursar disciplinas da FACED, na UFBA, e do PPGEDUC da Uneb, como aluna especial, na esperança de conhecer um professor que me encantasse e topasse me orientar, acreditando que a área de Imagem, da qual sou apaixonada, pudesse somar para a área da Pedagogia. Infelizmente isto não aconteceu, muito embora tenha encontrado professores maravilhosos nesta caminhada. E que muito acrescentaram em minha vivência como professora universitária.
No ano passado, pela felicidade de ser a primeira liberada por quatro anos para o doutorado em meu colegiado, tomei coragem e fui pesquisar fora da Bahia, os programas que mais trabalham com imagem. Achei na UEL, Londrina, mas mestrado, na PUC SP, na UFF, Niterói e em Santa Catarina. Fiquei analisando o trabalho que daria ir morar fora da Bahia por quatro anos e vi que não ia ser fácil. Mudança, aluguel, adaptação, etc. E sem nenhum tipo de contrapartida cultural.
Depois de saber de algumas amigas que tinham feito sanduíche ou doutorado integral em outros países, eu me animei. Pois se era para mudar e ter trabalho, que ele fosse justificado pela contrapartida de conhecer algum lugar distante, interessante e culturalmente rico.
Pois bem, comecei a pesquisar, ver as questões de validação de diploma, o nível das universidades, lembrando que eu já tinha pesquisado sobre  isso quando estive em Buenos Aires e em Montevidéu, por  gostar das cidades, mas não havia gostado dos programas doutorais.
É estranho como temos uma forte herança portuguesa, mas pouco conhecemos sobre Portugal. Apesar de ter como referência na minha área um autor português, o Professor Dr. Jorge Pedro Sousa, que escreve muito sobre Fotojornalismo, eu pouco sabia sobre a qualidade das universidades ou de vida nas pequenas cidades daquele país. Apenas sabia curiosidades sobre Lisboa e um ou outro detalhe por amigos que sempre a visitam.
Depois de extensa pesquisa, fui ler os programas doutorais e me surpreendi. Gostei particularmente de  três e me inscrevi. Fui selecionada nos três, fiz a escolha tendo em vista o ranking da universidade, as linhas do programa e a qualidade da cidade, que está entre as melhores cidades a se morar na Europa.
Ainda não sei quem será meu orientador. Já identifiquei alguns docentes que trabalham com imagem e rogo ao universo que eles sejam meus professores e que sintam simpatia por minhas temáticas de pesquisa.
Tenho pesquisado sobre pose e empoderamento, gordofobia e gerascofobia, selfie, nudes, etc. Mas não descarto enveredar-me por outros caminhos de pesquisa. Também imagem, filosofia e educação me dão forte motivação, retomando Vilém Flusser.
Agora estou na expectativa de organizar documentação e ir em busca dessa realização, um doutorado em minha área de atuação, com um orientador que seja fraterno e generoso. Espero voltar aqui para contar o fim dessa saga.



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Novela da vida real

Fui ao INSS para pegar uma certidão de tempo de serviço para averbar em minha instituição, já que comecei a trabalhar ainda muito jovem e depois de dez anos em órgão público, é hora de somar e saber quanto de tempo eu já tenho de contribuição à previdência pública.
Agendei há exatos cinco meses e lá fui eu, 45 minutos antes da hora marcada (capricórnio me governa, como perco tempo estando sempre adiantada ou no horário!). Ao chegar, como sempre costumo fazer, observo o ambiente com discrição, mas imaginando as histórias de vida de alguns rostos expressivos ou quando algum fato me chama a atenção para um determinado personagem.
Eu tomei consciência do que significa previdência, quando me deparei com tanto idoso, gente com aspecto de acidentado, com muletas, curativos, andando com dificuldade e para diminuir um pouco o peso da energia reinante, havia mulheres grávidas e outras com crianças de colo.
Sim, todo mundo em busca de seus benefícios.
Duas mães me chamaram a atenção. A mim e a todos. Por isso relato aqui os dois episódios.
A primeira mãe chega com dois meninos. Um maior, com uns sete anos e o outro, com menos de quatro.   O maior ficou na dele, arrastando um carrinho no chão. O menor,  já chegou choramingando, grudado na roupa da mãe, que andava com certa dificuldade, e dizia: não quero entrar, vamos para casa. Ela sentou-se em frente à recepcionista da triagem e enquanto ela explicava uma determinada situação, a voz dele passou a ser mais alta e o choro mais intenso, e os gritos imperativos do menino para ir embora dali. Ela calminha, nem dava bola, ou acariciava ele e dizia para ter calma. Vi todo mundo começar a ficar incomodado. O menino já berrava, puxava a roupa da mãe, já dava para ver a barriga. A sensação era que ele rasgaria a roupa da mãe. E ela educadinha. Nos rostos das pessoas eu ia lendo uma certa indignação, como se faltasse punho da mãe. Havia desaprovação geral com relação ao comportamento do menino. Até que a atendente pediu diretamente ao menino que se comportasse. Como se a mãe nem estivesse ali. Ele nem deu bola.
Já rolava mais de cinco minutos de berros, quando essa mãe se virou devagar, ajeitou a bolsa e deu uns tapas no guri e disse: 'olha aqui, rapazinho, você não se comanda. Eu estou operada, me respeite, daqui a pouco nós vamos, cale a boca e se comporte. Tá pensando que eu não bato só porque tá na rua? quem quiser que fale mal de mim. Menino mal educado!'. Vi que todo mundo mudou a expressão. Havia um olhar de aprovação em todos aqueles velhinhos ali. A atendente disse 'calma mãe, é só uma criança'.
Confesso que eu senti um alívio por esta mãe. Ela agiu na hora certa e muito embora não seja permitida palmada, discursos de violência à parte, eu achei que era preciso estabelecer limite e ela o fez, mostrou que não criava de qualquer jeito. E eu fiquei pensando na hipocrisia de uma sociedade que não sabe o limite entre violência e educação. Não queremos palmadas. Mas como aquela mãe poderia ou deveria se comportar?
A segunda mãe entrou silenciosa,  trazia um bebê no colo, acordado mas quietinho, sentou-se afastada. Olhei para ela e para seu bebê. Era um bebê com a cabeça pequena, de formato diferente. Uma vítima da microcefalia. Vi que muitas pessoas a olhavam.
Fiquei observando os olhares. Eles refletiam pena e curiosidade. Vi que pessoas acompanhadas comentavam entre si. Fiquei pensando no quanto essa mãe deve enfrentar isso no dia a dia. E em que tipo de energia isso se reflete para ela e seu bebê.
Ela era prioridade e logo foi para outro setor. Quando fui chamada também para este novo setor, vi que ela dava de mamar ao bebê e após algum tempo, ela o beijava, com carinho, brincava com ele, sem se importar com nada. As pessoas olhavam e havia olhares de admiração, de aprovação e de carinho. Olhares mais tranquilos. Novas energias no ambiente. E eu vi ali o sentido da maternidade, da proteção e do amor mais profundo que uma pessoa é contemplada quando se é mãe de alguém.
Conto os dois fatos, enquanto dramas reais de duas mães e do social em volta. Desta que tem a tarefa mais árdua, de educar, criar a sociedade do futuro. Daquela que constrói a cada momento o destino da humanidade. A sociedade não valoriza suas mães. Elas são vítimas de julgamentos de todo tipo, desta novela que é a vida real.