quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Um atendimento errado e tudo se complica

Quando caí, de forma boba, não imaginei que tivesse sofrido algo grave. Mas em alguns dias procurei o hospital público de Braga, com meu joelho super inchado e sem conseguir por o peso sobre a perna. Eu fui atendida por um clínico, que nem tocou em meu joelho, apenas perguntou o que eu sentia e me encaminhou  para tirar uma radiografia. Tirei e nem vi a radiografia. Nem recebi a radiografia para levá-la comigo. No retorno ao clínico,  recebi o diagnóstico que "não quebrou: agora é repousar". Ele me deu uma receita com quatro medicamentos e depois fui encaminhada para um enfermeiro, que aplicou-me uma injeção, deu-me ainda um remédio embaixo da língua. Paguei 21 euros, fiquei quase seis horas dentro do hospital, não fui encaminhada a um ortopedista, e toda a orientação que recebi foi que deveria repousar sem tempo definido. Ele não me disse o que eu tinha. Então achei que não tinha nada grave. Fui ler sobre entorses. E fiquei dez dias de cama, em casa. Até porque meu joelho travou. Eu não conseguia estender ou dobrar a perna. E, sem orientação correta, achei que dez dias eram repouso suficiente.
Estou sozinha, a vida continua, fiz o que tinha que fazer, ir à Universidade, fazer compras, pagar contas, etc. Mancando lá fui eu. Consegui muletas, um mínimo apoio.
A dor de joelho que não passava, uma perna que não estendia, um joelho ainda inchado, com aspecto doente, deram-me o alerta. Meu corpo, que a cada dia doía num lugar diferente (claro, compensando o peso, pois só dava conta de andar mancando), demonstrou que era preciso investigar. Fui a um fisioterapeuta particular, ele fez uns exercícios extremamente dolorosos e destravou o joelho. Pediu-me que eu fortalecesse a musculatura. Também pediu que eu fizesse uma ressonância magnética e procurasse um ortopedista.
Fui ao hospital saber como ter consulta com especialista: só na emergência, novamente, naquela triste triagem.
Fui a três postos de saúde e não consegui atendimento com especialista, só havia senhas para consultas de enfermagem.
Tentei por duas vezes ter médico de família, no órgão de regulação central daqui de Braga, mas estou numa lista e ficaram de me ligar. A mesma resposta, duas vezes. Fui em novembro de 2016 e fui em agosto de 2017, já com muletas e nada.
Então acabei pagando 45 euros pela consulta de um especialista, no Hospital Privado, e ele me pediu uma ressonância. Depois de procurar em diversas clínicas, achei uma mais barata, ao custo de 135 euros. O resultado foi uma clivagem horizontal no menisco medial e a necessidade de uma intervenção cirúrgica, que custa cerca de 2 mil euros e pode ter custos adicionais se o médico usar um determinado equipamento (que confesso, não entendi a explicação da gestora de saúde do hospital).
Mas enfim, esse post é para dizer que se eu tivesse tido as primeiras orientações corretas, a história poderia ter sido diferente. Conversando com amigos que já foram ao Hospital Público, já coleciono relatos parecidos. Nós, no Brasil, tivemos mesmo de onde herdar.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Braga ardeu em tristeza e incêndios ao seu redor

Esta semana vivemos uma situação de tristeza e insegurança cá em Braga e é claro, eu precisava escrever sobre o que vi e como eu me senti.
O domingo finalizou com os arredores e as estradas que circundam Braga a arder em fogo. Mas quando digo arder em fogo, não é nada do que conhecemos no Brasil. Lá há sim muitos incêndios em parques e estradas, mas não em torno de uma cidade.
Imagine florestas de eucaliptos, de árvores bem altas. Imaginou? Assim são as margens das estradas cá. Agora imagine estradas bem estreitas, onde passam dois carros bem coladinhos, imaginou? Assim são as estradas nacionais, as estradas pelas aldeias e pequenas cidades do interior. Claro que existem grandes rodovias, são as autopistas. Mas elas foram construídas após a criação da União Europeia, há cerca de 30 anos. Antes o país era interligado pelas estradas nacionais, estradas estreitas, que não cobram pedágios, que aqui se chamam portagens.
Pois bem, essas estradas vivem cheias de tráfego, primeiro porque são lindas, a gente passa pelas pequenas cidades, construções antigas, plantações de parreiras, as uvas podem ser vistas em suas diversas fases, nos quintais das casas. Agora mesmo é época da colheita e as aldeias estão lindas. Mas há longos trechos de plantações de eucaliptos. As aldeias são rodeadas de plantações de árvores que se prestam a virar papel e lenha.
Esse último verão foi quente. Havia meses e não chovia. Eu mesmo viajei diversas vezes, pois fui para Barcelos, Esposende, Apúlia, Póvoa do Lanhoso, Parque do Gerês... enfim, eu vi a estrada e sua situação.
Neste domingo aconteceu algo que eu nunca imaginei. Eram 15 horas e vimos uma névoa estranha na cidade, e logo se soube que havia incêndios nas estradas.

Eu fui encontrar amigos por volta das 17 horas, e dava para ver pontos vermelhos nas montanhas. Ficamos em um bar fechado, todos conversando e éramos um grupo grande, estávamos a comemorar o fato de ser dia do professor e somos quase todos professores no Brasil, viemos para mestrado e doutorado nas mais diversas áreas.
Saímos do local era 21 horas e tivemos uma triste surpresa, todo o céu estava avermelhado.
A névoa havia virado fumaça. Respirar era complicado, víamos o fogo em labaredas pros lados das montanhas onde ficam os Santuários do Sameiro e do Bom Jesus, duas lindas referências de Braga. Soubemos que muitos moradores dos bairros de Falperra, Nogueiró, Tenões (onde eu morei), Lamaçães e outros, já não podiam entrar em casa, os locais estavam sendo evacuados, havia casas pegando fogo. A fumaça já fazia vítimas também, eu mesmo fiquei com a garganta ardendo, olhos lacrimejando e uma dor estranha na cabeça.
Soubemos que as estradas que ligam Braga à Povoa do Lanhoso e à Guimarães estavam ardendo e havia gente que perdeu a vida em carros pulverizados.
Que triste.


A cidade foi tomada por uma sensação de inconformismo, de inoperância do governo, pois há cerca de três meses aconteceu o incêndio de Pedrogão onde morreram mais de 60 pessoas.
Fala-se cá que esses incêndios são fogo posto, gente que, querendo ou sem querer, põe fogo para que as florestas queimem, boa parte são pessoas desatentas que jogam seus restos de cigarro sem prestar atenção onde, ou ainda pessoas alcoolizadas que sentem prazer em atear fogo e ver os vizinhos perderem tudo, ou ainda investidores em função do preço da madeira, que mandam queimar áreas inteiras...
Este ano mais de 50 pessoas foram presas acusadas de fogo posto nas florestas, em todo o Portugal.
Há investigações, inquéritos, para saber de quem é a culpa. Os jornalistas acham que o fogo posto é uma espécie de terrorismo capitalista. Muita gente morre sem motivo, por manter-se uma floresta sem diversidade mas que gera renda, pois papel, lenha, são a base da manutenção dessa enorme floresta em todo o norte de Portugal. Por causa dela, inocentes perdem casas e tudo o que têm.
Há quem diga que o governo de Portugal precisa tomar medidas urgentes para melhorar a questão ambiental e demarcar as plantações de eucaliptos que são de fácil combustão. Limpar melhor as margens das florestas e estabelecer distância maior entre as florestas e as aldeias.

O certo é que o clima está cada vez mais quente, e ano a ano, os incêndios têm feito muitas vítimas dessa floresta sem diversidade, dessa floresta de lenha. Há ainda pesquisas que indicam que os incêndios sejam, na verdade, resultado da auto-combustão dos óleos voláteis libertados pelo eucalipto, especialmente em dias muito quentes, e em locais com muita concentração da planta.
Nós, no Brasil, não valorizamos nossas matas diversas, nossa vegetação tão diversificada, mas creia, cá a paisagem é uma só e cansa a visão. Cansa também saber que é essa vegetação de monocultura, de uma única planta, que causa tamanha tragédia, que destrói muitas vezes o pouco que a população mais pobre do interior possui, e que causa tamanha tristeza no país inteiro.

sábado, 14 de outubro de 2017

Sexta-feira 13 de terror em Montalegre

Lá fomos nós, eu e um grupo de amigos, para a cidade de Montalegre, para viver uma noite de sexta-feira 13 numa cidade a 77 km de Braga, por conta de toda a propaganda que a cidade faz em torno da festa.
A propaganda pode ser vista neste link. É mesmo uma propaganda fantástica. A cidade toda enfeitada, os moradores a vivenciar o clima de fantasias do terror.
Mas é preciso muita paciência e logística para dar conta da festa. Eu vivi a pior sexta-feira 13 de minha vida (até o momento). Sem superstições, penso que foi uma noite que tinha tudo para ser agradável e engraçada e foi um caos. Já na estrada, na entrada da cidade, um engarrafamento como nunca tinha visto em Portugal. Ficamos mais de uma hora andando e parando. E descobrimos que todos estavam parando os carros na estrada. Mas eu estou com a perna ainda machucada, andando com tensor reforçado e muletas, quando em declives e aclives, e isso não nos permitia por o carro na estrada. Mas ao chegarmos no acesso ao centro da cidade, nos deparamos com a polícia a impedir o acesso e o jeito foi parar no acostamento. Sem saber a distância, lá fomos nós, caminhando. A cidade fica num buraco e tivemos que descer por 2 km uma super ladeira. Eu, com muita dificuldade, imaginava que iríamos de carro, que não teria que andar tanto. Amigos me ajudando e amparando, chegamos ao centro. A temperatura em Braga estava 20 graus. Quando chegamos em Montalegre, estava 10 graus. Todos com muito frio, pois os nossos casaquinhos não suportaram a brusca mudança.
A festa era muita gente e nenhum lugar para sentar.
Saímos da área da festa para um restaurante perto para tomar sopa e havia um grupo de Bombeiros Voluntários. Minha amiga Karla explicou a situação a um deles que logo se mostrou prestativo e me levou no carro dos bombeiros de volta aonde estava nosso carro. As meninas tiveram que voltar andando todo o percurso e no frio. E na volta enfrentamos novo engarrafamento. Chegamos cansadas, sem ânimo, nossas fantasias de bruxas pareciam tão fora da proposta...
Da festa, concluí que há muita propaganda e ela é eficiente. Atrai um mundo de gente, mas a cidade não está preparada para toda a população que atrai.
Eu não volto mais numa sexta-feira 13 à Montalegre, muito embora tenha achado a cidade bonita, espero voltar de dia, em dia normal, pois me encantou a paisagem.
Hoje, com dores na perna doente e no outro lado do corpo por compensar tanto em um declive, penso que é mesmo um risco ir a um lugar sem conhecer nada sobre ele, mas não há nada que diga que o acesso é tão complicado. Por isso esse registro, para que quem intencione ir, pense nas alternativas
mais viáveis para enfrentar tal maratona.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A herança da Burocracia

Esta semana eu tive uma alegria, receber a Sandrine, uma ex-aluna, hoje uma colega de trabalho, também funcionária da UFRB, que veio para Portugal, para fazer seu mestrado. Eu fico sempre muito feliz de ver um ex-aluno em progresso. É engraçado como eu sinto um orgulho de mãe nesses casos (Freud deve explicar).
Eu a recebi e conversamos muito sobre esta fase de adaptação inicial.
Quem chega toma um susto. Os portugueses são de uma burocracia enorme. Somos mesmo herdeiros de quem gosta de papel e comprovantes. Cá, quando se chega, não é possível fazer nada, sem o NIF. O número de identificação fiscal, correspondente ao nosso CPF. Mas para tirar o NIF nós precisamos que um português nos acompanhe ao órgão das finanças e que se responsabilize por nós. Agora imagine você chegar em um país estranho, onde não conhece ninguém, e ter que conseguir um nativo para se responsabilizar por você? A Sandrine estava desesperada, atrás de um português gente boa.
Eu, quando cheguei, dei muita sorte. Eu aluguei ainda no Brasil, pelo sistema airbnb um quarto para eu ficar por um mês, na casa de uma jovem portuguesa.
E quando cheguei, conversamos muito, gostamos uma da outra e hoje ela é uma grande amiga, a Isabel. Foi ela que se responsabilizou por mim e logo consegui ter meu NIF.
Com o NIF é possível ter conta em banco, alugar uma casa, ter contrato de luz, água e telefone, comprar coisas em lojas com recibo caso precise trocar, se cadastrar em órgãos de saúde e cidadania, enfim existir em Portugal. Sem NIF, nada feito.
Outra coisa importante é ter logo um endereço cá, e quando chegamos, precisamos de um tempo para saber onde é melhor morar, encontrar um bom lugar, escolher uma acomodação confortável e de preferência, para quem vem estudar, mobiliada e com aquecimento central. Pois é, mas é um desespero para ter logo a morada, como se diz por aqui, pois sem o endereço também fica impossível abrir conta no banco, ter número no sistema de saúde...
Eu, quando cheguei, fiquei tão desesperada que acabei alugando o primeiro apartamento apresentável e quando dei por mim, estava morando em local sem transporte público, frio e sem aquecimento central. Penei por um ano nesse local. Então agora estou aconselhando minha amiga para que tenha paciência.
Ela chegou e está um pouco atordoada com tantas filas que já pegou, com tantos documentos que teve que mostrar, com tanta burocracia. Isso porque ela veio com visto de estudante, que também deu o maior trabalho para obter.
As vezes as pessoas acham que é simples, rápido e fácil estudar fora, mas não é não, no sentido burocrático. É preciso uma dose de paciência extra e também de dinheiro para gastar com taxas e mais taxas.
Eu já soube de pessoas que vieram sem o visto e tiveram que voltar ao Brasil para tirar o visto correto, pois vir como turista não dá direito a nada, apenas 90 dias para transitar pelo país, mas não pode estudar, trabalhar e não consegue nem tirar NIF.
O meu conselho a quem quer morar fora é leia a legislação do país escolhido com relação a receber estrangeiros, leia sobre o que é necessário para estar legalizado. Eu conheci pessoas que estão ilegais e elas vivem em sobressalto, morrem de medo de se depararem com a polícia. No meu antigo prédio eu vi a abordagem dos policias de imigração no mesmo andar, na porta de um vizinho, ficaram na porta fazendo perguntas e pedindo documentos. É uma situação constrangedora que não se quer vivenciar. Mas para isso é preciso seguir a lei e andar em dia com a burocracia.


sábado, 30 de setembro de 2017

Sobre verão e inverno em Portugal

Eu cheguei em agosto de 2016 e confesso que não estava preparada para o final do verão europeu. Sofri nos primeiros dias com um calor que me paralisava. Eu já morei em cidades quentes e cá me pareceu uma mistura de Cuiabá com Petrolina. Então foi um susto. Teve dia de 42 graus, sem umidade, uma coisa estranha. Passei muito mal. E havia incêndios em todo o lado. Eu via helicópteros todo o tempo, a carregar água para jogar nos incêndios, pois os arredores de Braga, onde eu vivo, estava em chamas.
Este ano o calor foi mais ameno. Houve um número menor de incêndios, porém houve um incêndio que foi uma tragédia, em Pedrogão, que matou mais de 60 pessoas, encurraladas nas estradas tomadas pelo fogo dos dois lados, pois Portugal tem muita plantação de eucaliptos, pinus, plantas que queimam fácil e estavam bem secas com o calor.
Mas o que mais me intrigava no verão de 2016, eu recém chegada, era ver tantos estrangeiros na cidade e tantas lojas no centro com placa de fechada para férias.
Este ano eu entendi, cá o verão é vivido ao máximo.

Em agosto, as cidades portuguesas são invadidas por franceses, holandeses,  ingleses e por um monte de portugueses que moram fora. Esses portugueses, que  foram embora daqui há anos, atrás de melhores trabalhos, são chamados de  imigrantes. No verão, eles retornam para ver a família que aqui ficou. Eles voltam muita vezes com maridos ou esposas e com filhos que falam outras línguas... então o que mais se ouve é outro idioma nos locais de turismo. Há meio que um preconceito local com os imigrantes, porque esses portugueses que se foram para melhorar de vida, voltam com carrões, gastam muito no turismo e tratam os residentes locais com uma certa arrogância, então virou uma rixa interna. Eu, como observadora, fico comparando com brasileiros que vão trabalhar em serviços braçais em outros países e voltam com seus narizes empinados a articular inglês e dizer que moram nos states... é igualzinho!
Mas o verão cá é mesmo uma festa. Turistas e portugueses lotam as praias, os shoppings, os parques, é uma loucura. Mas é também um tempo de eventos a céu aberto, tempo de shows, de cultura, de alegria.
No ano passado, quando setembro chegou, trazendo o outono, eu fui tomada pela surpresa de observar  os dias com variações  incríveis de temperatura. Este ano foi igual. O clima oscila tanto... Os dias iniciam com 9, 10 graus. Super  frio. No meio do dia, já estamos em 23, 24 graus e lá pras dez da noite, chega-se a 7, 8 graus outra vez. É uma montanha russa para quem tem sinusite como eu. E vi todas as árvores perdendo suas folhas, as folhas ficando amarelas, queimadas, caindo cada vez mais. Para uma brasileira que sempre viveu em áreas tropicais, foi impressionante ver a ação do tempo tão definida sobre os processos da natureza.
Quando novembro chegar, já estaremos no inverno. O inverno cá ao norte é uma fase estranha. Banhos rápidos. Aquecedor no banheiro. As pessoas ficam muito em casa. Não há eventos nas ruas. As pessoas andam cabisbaixas. Muita roupa, para sair de casa, dá uma preguiça. E quando se chega em local aquecido tem que ir descascando a cebola, como se diz por aqui, ir tirando as peças: luvas, cachecol, casaco grosso, casaco interno, as vezes o local é tão quente que se não estivermos com uma camiseta por baixo de tudo, vamos ficar suando. E na hora de ir embora, voltar a vestir a cebola. É uma novela.
Cá em Braga são sete meses de muito frio e cinco de calor. Eu me lembro quando em final de maio consegui vestir uma bermuda e colocar uma sandália. Desde outubro eu só usava botas e blusas de mangas longas. Ver minhas pernas de fora, amarelas, porque sou parda, foi até engraçado.
Então eu estou aproveitando esses últimos dias de setembro para usar minhas rasteiras, enquanto ainda posso. Na semana passada fiz fotos da chegada do outono, cenas cinzas, numa praia linda, de Esposende.

sábado, 23 de setembro de 2017

Os brasileiros descobriram Portugal

Esta semana uma notícia confirmou o que empiricamente eu já vinha observando: os brasileiros estão a invadir Portugal! (risos)
O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras Português divulgou  que os pedidos de visto para residência no país aumentaram 1.300%. Isso mesmo. Antes de agosto eram 300 pedidos de visto por semana, para morar em Portugal. Já na primeira semana de setembro foram 4 mil pedidos de visto ( 4 mil em uma semana!)...
Claro que nem todos são brasileiros, mas sim, os brasucas são a maioria. Mas também há ucranianos, cabo verdenses, venezuelanos, entre outros. Em São Paulo, o consulado português já avisou que um visto, que levava em média 60 dias, agora tem o prazo de 90 dias ou mais. Só no mês de agosto deste ano, o consulado português em São Paulo recebeu mais pedidos de visto do que o total do ano passado inteiro. Esse atraso em emitir os vistos fez com que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras iniciasse um diálogo com as universidades Portuguesas, para que alterem seus calendários de seleções destinadas aos estrangeiros. Os vistos de estudantes são tratados como prioritários, por conta dos prazos para os alunos se apresentarem nas universidades portuguesas.
Mas para além da notícia, eu queria falar um pouco sobre essa moda por Portugal. Portugal está entre os países mais pacíficos do mundo. E suas universidades são bem classificadas na Europa. É como se os brasileiros de dois grupos bem distintos, estivessem descobrindo um novo cenário em terras lusitanas.
O primeiro grupo é o de jovens estudantes. As universidades portuguesas, em sua maioria, aceitam as notas do Enem. Talvez custear um filho em Portugal, seja mais em conta do que pagar uma universidade particular em uma grande cidade brasileira. Aqui sobram vagas de mestrado e doutorado. Há muitas opções de cursos bem diversos, alguns bem tecnológicos. Isso tudo atrai quem quer fazer uma universidade e ter uma experiência fora do país.  
E o segundo grupo é bem específico: são aposentados com uma situação financeira estável. Isso inclui profissionais liberais e funcionários públicos que estão aposentados, conseguiram ter algum patrimônio e querem vida mais tranquila.  
Cá em Braga o grupo de aposentados brasileiros é muito forte e só cresceu neste um ano que eu aqui estou. Eu conheci muitos casais que alugaram seus apartamentos no Brasil e vieram morar aqui. E o grande motivo é a fuga da violência generalizada no Brasil. 
Porque envelhecer é um processo difícil. O corpo  e a mente querem tranquilidade. E qual o idoso que consegue andar em paz nas ruas do Brasil?
Cá em Portugal o que mais se vê são pessoas com mais de 70 anos andando pelas ruas, sozinhas ou em grupos, nos cafés, lendo jornais nas praças. Uma vida muito tranquila. Aqui os motoristas de ônibus urbanos respeitam muito o idoso. Eu vi, diversas vezes, os motoristas aguardarem todos os velhinhos estarem sentados e em segurança, para então prosseguir. E olha que aqui tem é velhinho andando de ônibus. Não há pressa. A segurança, o respeito, são muito mais importantes. Também vemos muitos velhinhos nos eventos culturais. Participando ativamente. Então isso explica o quanto é importante envelhecer em um país que oferece dignidade ao idoso.  

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

T0 (T-zero) nunca mais...

T0 é a sigla para um ambiente único, com banheiro (ou casa de banho), que congrega em 30, 40 m² ou mais, um espaço de dormir, com cama e mesa de cabeceira, armário para roupas, também tem balcão de cozinha com pia, fogão, microondas e um frigobar (frigorífico), as vezes máquina de lavar roupa, e quase sempre tem mesa e cadeira.
Pois bem. Ao chegar em Portugal, busquei essa opção, pois queria custos reduzidos e claro, imaginei que um T0 seria mais fácil para limpar, para decorar, para manter (menos produto de limpeza), menos tapetes, etc... mas não conhecia as desvantagens desse ambiente.
Prédios com T0, tem diversos quartos desses, uns colados nos outros, e a privacidade é muito reduzida. Ouvi momentos íntimos de vizinhos com muita frequência. Também é complicado os saltos altos das vizinhas, os cachorros, e todo tipo de barulho, atentando para o fato do português costumar chegar em casa após as 23h com muita frequência e sair cedo para trabalhar, o que significa acordar com barulho de saltos altos e querer dormir e ter saltos altos ou camas rangendo em momentos de sexo.
Outra questão que vivenciei de extremo desconforto, foi um longo inverno, em que o ambiente do T0 é grande demais para um aquecedor normal fazer efeito. O aquecedor ficava ligado o dia todo e não aquecia nada. Minha conta de luz mais que dobrou  e eu ainda morria de frio em casa. É preciso um ambiente de 15, 20 m² para o aquecedor agir. E o T0 quase sempre é bem maior. Comprei tapetes para tentar aquecer o ambiente, comprei mais um aquecedor e nada. Eu passei a usar o aquecedor embaixo de uma mesa de granito, pois a pedra aquecia e liberava calor, mas quase sempre minha casa estava mais gelada do que quando saía para a rua. A noite, embaixo de um edredom mais grosso, tudo se resolvia, mas o dia era um tormento.
Outra questão que me incomodou foi receber um técnico para ligação de telefonia, ou consertar o bocal da eletricidade do quarto e ter uma cama no ambiente, porque dá sempre uma sensação de lugar íntimo. Complicado receber visitas. E o meu T0 tinha apenas portas para uma varanda. Quando abria, acesso para a vizinhança ver a intimidade. Agora no verão, o T0 é um forninho, pois se quero ventilação, tenho que expor meu quarto de dormir a quem está do outro lado da rua. Enfim, não foi uma experiência boa. Mas sim, fácil de limpar, fácil de decorar e relativamente barato.


Aluguei meu T0 por 240 euros mensais sem máquina de lavar. E tive amigas que alugaram T1 por 250, 270, e T2 por 275, 300... enfim... penso que hoje com a experiência que tive, penso que pagar um pouco mais também compensava.
Fica a dica para quem nunca viveu a experiência, saber como lidar com as vantagens e as desvantagens.