sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Espaços vazios

Foram anos de lembranças somadas, sempre nas mesmas condições: férias, viagens ao Conde, casa dos meus avós paternos. Casa cheia. Pais, tios, primos: barulho de família grande, sons que nunca incomodam. A mesa sempre posta, refeições demoradas, 'merendinhas' entre as refeições: bolos, doces, biscoitinhos (adorava os de nata), variadas frutas. Eu era muito magra. Podia comer de tudo e não engordava. E ouvia minha avó: ‘Avia menina, vai comer para ganhar corpo’. Coisas tão repetidas nestas lembranças: meu avô sempre comprava uma melancia para que eu e ele dividíssemos com prazer (fazíamos aposta para ver quem comia mais). Havia sempre água de coco na geladeira e eu não gostava do sabor da água do filtro de barro. Banho no rio da Ponte, no rio de Pedra, na Cachoeirinha, no Itapicuru, no Sítio do conde, na Barra de Itariri. A gente adorava água. Mas a água do chuveiro da casa de minha avó era sempre gelada e podia ter o sol que fosse, era uma tortura tomar banho. Minha avó guardava sapos em um pote de barro. Eu soube que era pra remédio. Credo! Eu achava que era bruxaria. Minha avó era sempre muito durona. Matava cobra, sangrava galinha, cabrito, porco, ela quem matava os bichos para fazer pro almoço. Podia ser bruxa, eu pensava. Um dia ela matou uma barata que estava na parede, com a mão. Era bruxa! tive a certeza de menina. ... Soube por minha mãe, há pouco tempo, que andei tomando o tal 'remédio' que ela fazia com óleo da banha das costas do sapo, quando tinha quatro aninhos e que foi assim que curou-se uma bronquite asmática. ... Maior, com dez anos, lembro das mesas de baralho, aprendi a jogar 'terno' de quinze, ou de treze. Meu avô e meu pai me ensinaram. Gostavam de jogar comigo como parceira. E era bom vencer com eles. Lembro dos primeiros paqueras, 14, 15 anos... dos beijinhos na praça, e das broncas que eu levava, porque eu era considerada avançadinha pros padrões do Conde: não se beijava em praça pública. Até meus 17 anos eu lembro bem que a rotina era parecida. Então meu avô se foi. Meus tios Valdir e Zelito, o mais novo e o mais velho, respectivamente, também já tinham desencarnado. Eu cresci. Fui para longe. Nas visitas à Bahia, ia ao Conde encontrar além da minha avó, meu pai, que separado de minha mãe, havia voltado a viver com minha avó em sua cidade de origem. Então preenchi minhas lembranças com novos roteiros: eu , meu pai e minha avó indo à feira da Ribeira aos sábados. Eu e meu pai indo à praia, visitando a fazenda Capoeira, indo a botecos, tomar ‘uma’ e falar da vida. E contávamos coisas de almas amigas. Eu com minha câmera, fotografando tudo.
Depois, a cada visita, eu me habituei a ficar procurando fotos antigas nos arquivos da família. Achei um daguerreótipo e um calótipo na caixinha de tesouros. Foi um achado! Depois voltei a viver na Bahia, Arthur chegou em 2003 e comecei a ir menos ao Conde, sempre para almoçar no dia 25 de dezembro, ficava apenas de um dia para o outro. Mas mesmo em estadia tão rápida, sentia os espaços vazios, tudo tão calmo, e tão pouco a colocar nas novas lembranças. A menina que havia estado ali a vida inteira ficava deprimida com a casa vazia. Tio Nivaldo se foi em 1995. Em 2007 Áquila se foi. E minha avó ficou morando só, apenas com duas empregadas: uma de dia e outra de noite. Minha tia, sua única filha viva, dos cinco que teve, dividindo-se entre Salvador e Conde. 2012. Vim passar alguns dias nesse janeiro novo. Os espaços da casa também oprimem minha avó.
Toda hora ela conta coisas de uma casa cheia. Coisas que só imagino, porque são da época em que seus meninos eram pequenos. E ela fala da dor de perder 4 dos seus 5 filhos. Se para mim, que ia apenas nas férias, dói ver a casa vazia, imagino para essa senhora de 96. O último comentário dela quase me fez chorar de rir: "A morte ensaia, parece que vem me visitar, depois foge de mim, com medo". Ela falava da semana que passou na UTI cardíaca, em outubro de 2011.
Ando pela casa, vejo fotos antigas, ainda há bolos e biscoitos, doces e frutas na mesa. Mas não é mais minha avó quem vai à feira, nem é ela quem faz as guloseimas. E hoje, nessa luta com a balança, para não sair dos 54kg, belisco com menos prazer o que há na geladeira. A menina se revolta. Mas a mulher tenta convencê-la que a vida é mesmo assim. E que bom que há tantas lembranças nestes espaços vazios. Basta olhar com olhos de quem pode agradecer ao universo ter estado lá, em outros tempos, vivenciado tantos sabores, cheiros, ouvido tantos sons agradáveis e poder recordar tudo isso com saudade. Saudade só existe porque temos a certeza de ter vivido coisas boas.

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