segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Frustrações de Pedaço de Mim

Ontem vi meu filhote de um jeito que eu nunca tinha visto. Estava cabisbaixo, com um rostinho muito triste. O Play Station quebrou (por falta de cuidado dele, diga-se de passagem), vai passar uma semana no conserto. O primo Lucas (de 11 anos), que também tem o aparelho, não quis emprestar para Arthur jogar um pouco, e meu pequeno estava todo sem graça. Ele deitou numa cama, com cara de drama, como se o mundo estivesse acabando. Uma platéia considerával o assistia (eu, o pai, a avó e a madrasta, neste caso mãedrasta). A TV (com infinidade de opções da Sky) não o atraia e jogar no PC não tinha graça alguma. Só o game novo do Wall-E (o robozinho que limpa o lixo humano) seria a salvação. Vi o super pai ficar com cara desolada, tentando convencer Arthur a se animar com alguma coisa. A avó paterna também não queria ver o sofrimento do neto único, e até a mãedrasta estava incomodada com a carinha angustiada do mocinho. Eu ai entrar nessa, quando me toquei que era uma primeira grande frustração e que não estava vindo pela mão de nenhum de nós. Ele quebrou o PS. Aproveitei para contar à família como meu filhote 'cuida' do aparelho (todo dia ele derruba alguma coisa) e era um milagre quebrar agora, com três anos de uso.
Depois aproveitei para lembrar a todos que Arthur tem tudo o que quer, que está sendo sempre satisfeito nos mínimos desejos por este batalhão de amor que o olhava desolado (avó, pai, madrasta e mãe - coloquei a ordem daqueles que o mimam) e que uma frustração desse porte era muito saudável. Vi que me olharam estranho, mas acabaram concordando.
Arthur não conhecia nada que não fosse possível. Nasceu de uma família organizada financeiramente, tudo o que precisou sempre esteve a um passo. As vezes eu e o pai dizemos 'não', mas é só até o próximo salário, ou só quando percebemos que é supérfluo e caro e não traria nada de vantagem. Ele conhece uma rotina nos finais de semana de dar inveja (sempre tem cinema, shopping, com direito a lanche no Mac, com aqueles brinquedinhos bobos, que contabilizados, somam uma fortuna, banhos de piscina, as vezes uma praia em local privilegiado e festas com toda a família reunida). Estuda em boa escola, faz iniciação musical, karatê, futebol, capoeira e vai retomar a natação. Tem bike, patins e um tratorzão enorme como opções de brinquedos sadios. Nas casas que frequenta (e isso inclui as casas das avós), tem dezenas de brinquedos. Tem plano odontológico, médico e os pais, mesmo separados, saem juntos, tem afinidades e isso dá a ele um núcleo familiar muito interessante, estável e hormonioso. Arthur lê bem desde os cinco anos, tem vocabulário muito rico e ao que parece, tem todas as ferramentas para se desenvolver bem.
Por isso fiquei feliz analisando a necessidade de mais frustrações para Pedaço de Mim. Não quero que ele ache que a vida é só alegria. Porque sei que o mundo vai lhe revelar dezenas de frustrações e não poderemos interferir sempre. Nem estaremos sempre próximos ou prontos a isso.

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