terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher, maternidade e outras questões da minha condição de gênero

Ser mulher não é uma condição muito fácil. Diz a piada espírita que uma reencarnação como mulher, vale mais que algumas como homem. Vivemos em balança hormonal ( e hormônio é o combustível da normalidade na vida biológica humana), temos um ranço enorme de uma sociedade milenar machista (e calcada em dogmas religiosos que nos impôs condições diferenciadas e subalternas na convivência com o outro, o que tem pênis) e para completar, no Brasil (país de desigualdades sociais e raciais), as desigualdades de gênero só aumentam.
Pois bem, essa introdução é para falar de mim. Mulher e mãe.
Como mulher, vivi muitas vezes o fato de ganhar menos em mesmas condições de trabalho, nas Emissoras de televisão. Era visível que eu ganhava menos que meus colegas masculinos, que conseguiam  sustentar casa, mulher, filhos e veículo, sendo repórteres, iguais a mim. Solteira e sem filhos, eu sempre tive dificuldade em me sustentar em comida, pagar aluguel, manter carro e andar arrumadinha como a profissão pedia. Tenho certeza, até pelas conversas de corredor, mesmo sem ter tido acesso aos seus contra-cheques, que eram salários diferentes (eu e meus colegas repórteres). Tanto que em todas as vezes, nas rodinhas em horários de lazer, em que estávamos, e o assunto era salário, se desconversava na hora de falar em acordos. Sim, haviam acordos diferentes, para uma mesma função, e, em muitos casos, eu era formada em Jornalismo, e alguns dos meus colegas homens, não eram. Não que isso no interior desse rincão chamado Brasil, tenha muita importância. Fui repórter em Cuiabá, Campo Grande, entre Bahia e Pernambuco (Juazeiro e Petrolina) e nas cidades baianas de  Feira de Santana, Itabuna e Salvador (foram mais de onze anos de jornalismo), e sim, ganhava menos que meus colegas homens.
Quando me afastei do Jornalismo diário, nas TV´s, meu salário último, depois de anos de carteira assinada e comprovada experiência, foi R$880,00 (oitocentos e oitenta reais), em 2003. Esse valor  não correspondia sequer a três salários mínimos, para trabalhar de domingo a domingo, em muitas semanas de plantão, em horários complicados, em dias de feriado, em períodos de festas, como carnaval. Não tinha nada extra em dinheiro, nenhuma hora sequer. Apenas recebia em banco de horas, em forma de uma segunda-feira morta, que poderia ficar em casa.
Eu era  formada, com  pós-graduação, iniciando um mestrado, ensinando já na UESC e já com um filho, então decidi largar a profissão e mergulhar na vida acadêmica. Mas confesso que adorava a falta de rotina da TV, no sentido de todo dia poder tratar um tema diferente. Mas a desvalorização profissional e mais, de gênero, me levou a abandonar o telejornalismo, que era a minha praia. (LINK de uma atuação como repórter).
Como mulher, tenho memórias de tantas situações esdrúxulas, com relação a assédio, a piadas tortas e comentários ridículos, em que a questão sexual era exposta sem qualquer critério. Destaco duas: um professor da UESC, quando eu fazia Direito (sim, fiz dois semestres), ao ver que eu não gostava dos seus comentários machistas em sala de aula, me reprovou, como forma de me punir ao não entrar no jogo de piadas e insinuações que ele fazia com todas as mocinhas da sala (lembro que ele dizia, 'quem tem como me pagar nada me deve', quando dava chance a uma aluna de trazer exercício em outra aula, deixando claro que o pagamento era com favores sexuais, a piada era tema de muito riso com os colegas homens da sala, enquanto as poucas mulheres, daquela classe noturna, em 1989, ficavam sem graça, com olhares baixos). Eu retruquei com voz grossa, deixando claro que não achava aquilo certo e não deu outra, fui punida. Naquela época não se falava em assédio moral, nem tampouco sexual. A outra situação cruel, foi em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, quando era fotojornalista freelancer, no ano de 1995, prestando serviço para a Associação dos Magistrados daquela cidade, fui fortemente assediada por um Procurador Geral e ao dar queixa aos gestores da associação, fui dispensada sem qualquer explicação. E meu namorado na época, um namoro sério, de anos, riu de minha indignação, achando que eu não deveria ter dado queixa do procurador. Que fiz uma tempestade em copo d'água. Como fiquei chateada com ele.
Penso que em pouco tempo tivemos muitas conquistas. Hoje duvido que um professor daquele, sobreviva em sala, sem queixas formais. Ou que alguma mulher não saiba o que fazer quando um homem a assedia como aquele procurador o fez comigo. Lembro que fiquei em tão mal estar que fui trocar um filme cheio e acabei jogando o filme no lixo, e tive que procurar na lixeira, tal meu estado alterado de emoção, diante do absurdo de ser assediada daquela forma.
Nas minha memórias também coleciono uma série de caras e bocas que vi no rosto de muitos homens e mulheres, quando relatava que escolhi não casar com o pai do meu filho, ainda grávida. Eu fiz essa escolha consciente, no final da gravidez,  por perceber, já naquela época, que éramos muito diferentes sobre como lidar com muitas questões, inclusive com paqueras e relações extra-conjugais. Sim, eu percebia que ele era mulherengo, que haviam outras pessoas na vida dele e resolvi que não tinha como lidar com aquilo. Saí de vez da relação quando o menino tinha um ano e oito meses depois de um flagrante da traição dele. E fui mãe integral durante dez anos. Passei no concurso da UFRB e vivi em Cruz das Almas anos, sem um único parente e tudo era eu, mãe 24 horas. Meu ex longe, pai de telefone e web cam, por anos.
Quando ele voltou de viagem, após curso fora do estado da Bahia, só via nosso filho nos finais de semana, e nem por isso recebeu uma única crítica por ter ido estudar fora dois anos, por ter se relacionado com outras mulheres enquanto ainda estava comigo. Nunca vi ninguém falar nada sobre isso. Pois bem, há pouco mais de dois anos, ao decidir mudar de casa, e mudar com isso minha rotina de vida, eu e o pai do meu filho decidimos que o nosso filho  ficaria de segunda a sexta na casa do pai, que trabalha na cidade, enquanto eu trabalho fora, e tudo seria mais complicado, por conta de babá, distância, etc., eu ficaria nos finais de semana com ele. Meu Deus! minha mãe, a mãe dele, minha ex-sogra, a irmã dele (que era minha amiga), e mais um milhão e meio de pessoas, me crucificaram.
Minhas escolhas não condiziam com meu papel de mãe e de mulher. Eu tinha um papel e abandonei no meio (era o que eu ouvia).
Hoje eu e meu menino ficamos 24, 36, 48 horas ligados... de verdade. Fazemos coisas juntos, de verdade, como eu sei que muita gente não faz. A qualidade das nossas horas juntos supera em muito a quantidade. E isso me faz ver o quanto ser mãe é relativo.
Mas minha mão direita pipoca em alergias, que os dermatologistas não explicam e nomeiam de desidrose por stress. Meu acupunturista pergunta se há algo do feminino mal resolvido. Sim, há uma maternidade social que está em aberto, pelo fato de meu filho assumir que mora com o pai. Eu sou a que fica apenas dois dias por semana.
Nem mesmo eu, em meu psiquê rançoso de milênios, me aceito como mãe de finais de semana. Muito embora, na racionalidade de quem trabalha em uma universidade, saiba que meu filho tem orgulho de uma mulher guerreira que sei que sou.
Meu menino é inteligente, interessado em bons livros, em bons filmes, em teatro, esporte, boas atividades lúdicas, é espírita e já se interessa pela conscienciologia, que estudo. Sei que ele tem muito de mim, que me admira. Mas nem isso provoca em meu inconsciente a minha redenção. Eu sou culpada, pela minha cultura machista. E só peço ao universo que eu consiga educá-lo para um futuro sem diferenças de gênero, já que ele está sendo educado em um sistema de partilha diferenciado e vê, na mãe, uma mulher diferente das outras. Eu sou o exemplo vivo da mudança, muito embora pague na carne, com minhas feridas da alergia, o preço de mudar.

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