quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Um ano de nova morada

Casa. Moradia. Lar... eu precisava resgatar as minhas relações com esse espaço.
Há anos vivia dilemas com o local escolhido para morar...
Vamos voltar no tempo. Moradia sempre foi problema na minha história de vida. Aos sete anos, muito menina ainda, lembro-me de um lindo apartamento (soube depois que era financiado), todos comendo em volta da mesa, meu pai avisa a minha mãe que vendeu o apartamento e seríamos obrigados a mudar e morar de aluguel. Tinha bons amigos naquele lugar (Aldrin e Ro, Tita e suas irmãs, Maruse e Carlesson, entre tantos outros). Lembro da minha mãe engasgar. E dela ficar muito triste. Anos depois soube que meu pai jogava  cartas e de ter perdido o apartamento no jogo. Perda da casa. Primeira referência de perda do lugar agradável. Mudamos. Aluguel. Uma casa grande, porém velha, em rua que sofria com enchentes e um dia acordei com minha mãe nos tirando da cama, em pânico, porque a água estava beirando o estrado. Ela disse ao meu pai que não ia admitir mais um susto daquele. Ele comprou um terreno em bairro super distante e resultado, lá fomos nós morar em local complicado de acesso. Longe de amigos, de primos. Meu pai faliu de vez. Vendeu carro. Ficávamos duas horas em pontos de ônibus para ir e voltar da escola. Os amigos iam pouco em nossa casa. Tudo era complicado. Tinha que dormir na casa das amigas se tivesse uma festinha para ir, porque não dava para sair à noite. Isso dos nove aos dezenove anos. Uma relação de ódio com aquela moradia, onde a casa era confortável e o bairro era um inferno.
Aos 20 anos, quando conseguimos convencer minha mãe a voltar ao aluguel, fomos morar em casa pequena, mas bem localizada. Mas as paredes eram coladas uma casa na outra e dava para ouvir tudo o que os vizinhos faziam e ouviam. Odiava aquilo.
Aos 22 fui morar em Cuiabá. Bairro distante. Não conhecia a cidade. Engordei dez quilos em três meses, trancada dentro de apartamento pequeno, sem varanda, em cidade que eu não dava conta de andar só, quente e complicada.  Com seis meses o destino foi um local central, em apartamento bom, bem dividido, prédio com piscina e eu voltei a sentir prazer de morar.
Mas seguindo um noivo que pediu transferência, lá fui eu para Campo Grande, morar em casa velha novamente, tendo que conviver o tempo inteiro querendo reforma.
De volta à Bahia, Juazeiro, salário curto demais, fui morar em casa nova em bairro distante. Novamente a música da vizinhança me incomodava.
De volta à Itabuna,  para a casa que construí e sonhei envelhecer, acho que foi o período mais tranquilo de moradia, mas com a chegada de Arthur, a necessidade de uni-lo ao pai, largo eu mais uma vez meu sonho de casa e no interior, depois de penar em três alugueis, consigo comprar uma casa em Cruz das Almas. Boa, grande, porém em bairro distante (em frente ao estádio da cidade, perto da BR 101). Rua de lama na chuva, de poeira na seca e sempre, sempre, isolada.
Fugindo dessa solidão, vim para Salvador, no esquema dias no interior, finais de semana na capital, desta vez em Stella Maris, para mais uma vez, aproximar Arthur do pai. E eu, isolada. Em uma casa com vizinhança mais uma vez com música alta e que não combinava comigo.
Até que... Barra!!!!
Um ano de Barra. Prédio velho. Apartamento velho, mas amplo. Uma reforma de formiguinha. Que não terminou, mas que já tem me deixado feliz, porque consegui me livrar do que estava sujo e feio.
Um ano de andanças à pé. Um ano de mar perto, de mercado perto, de restaurantes e calçadão perto.
Um ano onde chego em casa sabendo que não tenho vizinhos que incomodam.
Mas para isso tive que deixar Arthur mais com o pai e ver meu filho apenas nos finais de semana.
Mas ele já tem 11. E eu precisava mesmo resolver essas pendências de moradia. Porque se nossa casa é nosso castelo, eu era uma rainha revoltada no meu, até então. É claro que, na época, havia uma paixão em andamento e isso me influenciou a vir morar no bairro em que ele morava. Havia um sentido em estar mais perto dele. Mas sem dúvida, estar na Barra é estar onde há uma das maiores qualidades de vida nesta cidade ingrata que é Salvador.
Hoje sinto meu território como ninho e cada vez mais reafirmo a necessidade de morar onde nos sentimos bem para compensar todo o esforço do dia a dia.
Agradeço ao universo esse desfecho. Eu resolvi uma pendência de uma vida inteira!

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